Sobre a vontade de ir embora

Legenda: Eu queria ter tido, nos anos 80, a autoestima dos jovens de hoje. Aqui não me falta mais nada.
Foto: FABIANE DE PAULA

Quero ir embora de Fortaleza. Não vejo futuro nesta cidade. Há um mundo lá fora, tão vasto, tão cheio de oportunidades. E eu perdendo tempo num lugar que não vai para frente.

Esses pensamentos envenenaram minha mente durante toda a minha adolescência nos anos 80. Eu ligava a TV e lá estava minha terra natal: anjinhos vítimas da desnutrição enterrados em pequenos caixões azuis; aquelas mazelas - cólera, hanseníase, tuberculose, paralisia infantil.

Nos bairros, não tinha calçamento, carroceiros arrastando o burro para vender água em latas de querosene; aquelas casas de taipa às margens do Rio Maranguapinho. Nos ônibus e nas ruas, os pedintes esfarrapados, estendendo a mão. Tudo isso me deixava com raiva de viver aqui.

Um dia, consegui: peguei um avião e fui embora de Fortaleza. Deixei família, amigos, cachorros e lembranças. No início da jornada de retirante, não tive tempo de sentir saudades. Estava deslumbrado com a nova vida. Depois de 13 anos morando fora, tive de voltar: meu pai estava com câncer. Morreu dois anos após meu retorno.

Ao voltar, não reconhecia mais aquela Fortaleza que deixei pela curiosidade juvenil de viver a liberdade longe da família, pela ilusão de que só se pode prosperar, ser bem-sucedido e feliz fora daqui.

Nas pequenas coisas, eu estranhava a nova Fortaleza: as pessoas identificavam as linhas dos ônibus pelos números do itinerário- nos anos 90, não era assim. A linha Paranjana morreu, mas o Grande Circular estava firme e forte.

No Centro, as fachadas das lojas mudaram. Cadê a Biboca, Samasa, Xepinha, Lobrás, Aba Filme? Cadê os leões e cavalos jorrando água na fonte luminosa do BNB? Nem mais era a sede do nosso banco.

Na Praia de Iracema, onde estão o Cais Bar, o Domínio Público e o Coração Materno para "bebemorar"? Sim, a Cidade era outra. Era óbvio: mais de uma década tinha se passado. Agora a avenida famosa era a Washington Soares. Quantas lojas, quantos shoppings. No Benfica, que juventude criativa, antenada, livre, com seus grafites coloridos, poéticos e críticos nos muros da Avenida da Universidade.

Até o Pantanal tinha sido rebatizado de Planalto Ayrton Senna. A cada canto visitado, esbarrava em uma novidade. Não éramos mais o pior lugar do Nordeste, junto com o Piauí e o Maranhão.

Eu queria ter tido, nos anos 80, a autoestima dos jovens de hoje. Aqui não me falta mais nada. Tenho principalmente o que nunca conseguir ter naquela época tão triste de Fortaleza e que espero nunca mais perder: o orgulho do lugar onde nasci e a esperança em dias melhores.


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Redação 09 de Agosto de 2020