RPG aproxima jovens dos mitos
“Eu sou um bárbaro”, “ vou invadir”, “matar”, “eu pego este dragão”. Estas frases escutadas por acaso costumam encafifar pais, namoradas e amigos de jovens e adolescentes que criam personagens como guerreiros, viajantes lunares, vampiros, magos e samurais. São criaturas que ganham vida por até dois, três anos, num jogo de criatividade e estratégia chamado Role Playing Game (RPG) - Jogo de Interpretação de Papéis, que está estimulando a leitura e aproximando jovens dos mitos, perdidos na era pós-moderna.
Thaís Gonçalves
Para compreender mais de perto o que é, afinal, o RPG, a repórter se sujeitou a um teste de “carisma” e teve “um sucesso” nos três dados de dez lados, que lhe permitiram fazer esta reportagem com o grupo Macod (Mamãe cadê os dados), que se reúne aos sábados, de 14 às 21 horas, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.
Nada mais justo, já que trata-se de um jogo com regras, fichas para elaboração das características dos personagens e estudo de estratégias para que uma história ganhe vida, ao comando do mestre, narrador ou contador de história.
Pode parecer complicado, mas a verdade é que todos nós já jogamos RPG na vida. Lembra daquela brincadeira de fazer a boneca voar e o carrinho deslizar no chão do quintal, ou da interpretação de uma família, onde um era o pai, outro a mãe e tinha os filhinhos e a empregada? Mocinho e bandido?
A diferença é que o nome RPG foi criado em setembro de 1962, quando jovens americanos interpretaram personagens do livro “O Senhor dos Anéis” dentro de uma maquete feita por um dos participantes.
Surgiram, assim, regras para evitar discussões como “eu não morri, não”, “morreu sim, eu atirei”, mas continua sendo uma brincadeira de contar histórias, onde não há vencedores e nem perdedores e a narrativa é criada de forma coletiva, de acordo com a inspiração e a criatividade dos jogadores.
Assim, como uma fábula vivenciada pelos participantes, tem início uma aventura imaginária, que pode durar apenas uma partida ou tornar-se uma campanha, com alguns anos, e até uma live action, quando a história é interpretada como um teatro.
Curiosa pelo universo dos RPGistas, a aluna do mestrado em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Paula Aguiar Mesquita, percebeu que os adolescentes estão lendo muito. Tem gente que chega a folhear 700 páginas por semana, com o objetivo de pesquisar o universo dos personagens que interpreta.
“Eles gostam muito da mitologia nórdica medieval, de personagem com poder sobrenatural. Isso é interessante porque, na sociedade pós-moderna se perdeu o hábito de contar histórias e o jogo resgata rituais e mistérios. Como diz Joseph Campbell: “os jovens são arrebatados pelos mitos”. E acabam estreitando relações e se tornando amigos”, avalia.
“Quem nunca sonhou em ser um herói? Aqui você pode ser quem quiser e ainda refletir sobre si mesmo a partir das situações em que o personagem é colocado”, diz Daniel Duarte, 19 anos. “Eu já fui uma prostituta, hoje sou um escocês que trabalha com arte”, conta Haroldo Maya, 18 anos.
Assim como muitos, o interesse pelo RPG levou Maurício Aragão Júnior, 24 anos, a aprender inglês e a comprar 240 livros sobre o tema. Hoje ele coordena grupos e produz eventos. “O RPG aumenta a capacidade de raciocínio, faz você pensar em estratégias e saídas que servem até para a vida. Além de sempre ter assunto novos para comentar, por causa da pesquisa. E tudo sem o uso de bebidas ou drogas, que são proibidas”, explica.
Para o psicólogo clínico Iratan Bezerra de Sabóia, desempenhar diferentes papéis é uma boa maneira de extravasar os sentimentos utilizando a via simbólica, onde não há tempo, espaço ou obrigações. “O RPG resgata a fantasia, o jogar pelo simples prazer de criar, de auto-gerir o tempo. É um jogo que supre o que antes era feito através da contação de histórias e lendas, da arte, quando as pessoas cantavam, dançavam para estabilizar os sentimentos”.
SERVIÇO - Mais informações nos sites www.jogodeaprender.com.br (para pais) e www.macod.tk, e pelos telefones (85) 3261.1260 e 8803.2234.