Prédios históricos buscam resistência

Espaços que contam histórias de lugares e vidas possuem marcas de abandonos e tentam fugir da especulação

Escrito por Redação,

Metro
Legenda: No Edifício São Pedro, a imponência de um daqueles que já foi o mais luxuoso e bem frequentado espaço de Fortaleza ainda chama atenção, agora pelas paredes desgastadas e aspecto abandonado
Foto: fotos: Natinho rodrigues

O espaço constrói memórias. Não há vivência sem que haja uma ambientação física, ou mesmo imaginária, que ajude a criar os cenários para as mais diversas experiências de vida. O espaço ajuda ainda a compor as identidades de cada pessoa. Em Fortaleza, prédios e edificações outrora erguidos contam histórias. Quando demolidos, derrubam-se não apenas as paredes e estruturas, mas também afetos, memórias e vestígios daquilo que a cidade e as pessoas já foram.

No bairro Meireles, um condomínio localizado no cruzamento entre as ruas Antônio Augusto e Dr. Atualpa Barbosa de Lima é um desses recantos permeados de vidas que corre risco iminente de manter-se de pé apenas nas lembranças de quem nele habita ou teve a oportunidade de conhecê-lo. Os nove blocos de quatro apartamentos, cada, do Residencial Iracema ainda conservam os traços modernistas da época em que foi erguido, na década de 1960.

Atravessar o portão de ferro de muro baixo que dá acesso ao condomínio é como ser transportado para um local incomum ao atual perfil imobiliário de Fortaleza. Alamedas arborizadas proporcionam um clima naturalmente ameno, marcado por um som tranquilo de natureza com um colorido suave das casinhas. Mas basta olhar para os altos prédios ao redor e se dar conta de que, em breve, a aparente necessidade em tornar a cidade cada vez mais vertical colocará abaixo mais um pedaço de histórias, tornando mais fraca a lembrança do que já foi Fortaleza.

"Em março deste ano, fomos informados pela imobiliária que administra o local que teríamos que sair até junho. Ficamos sabendo também que nesse espaço seriam construídas duas torres. Depois de negociações, conseguimos permanecer até o mês de dezembro, mas muitas pessoas já estão saindo daqui. Essa possibilidade de demolição causou uma comoção muito grande. Tem gente que mora aqui desde a década de 1960 e têm ficado depressivos com a possibilidade de sair", conta a advogada Nadja Furtado Bortolotti, moradora do local há 6 anos.

O Residencial Iracema já começa a sentir os primeiros sinais do abandono. Vários moradores acataram a ordem de saída e deixaram o local. Quem ainda permanece lamenta o destino do condomínio e resiste em tentar entender os novos rumos da atual moradia.

Vida cultural

"Moro aqui há quatro anos. Eu já estou querendo ir embora para não ficar sofrendo. Do lado onde eu moro já não tem mais ninguém e eu estou sofrendo muito. Tenho uma história com esse lugar que vem de antes de morar aqui. O portão antigamente era aberto e eu já frequentava. Sempre foi um local de artistas, pessoas ligadas à cultura. Quem mora aqui ainda tem um pensamento romântico da vida", suspira o músico Moacir Bedê.

Inconformados, os moradores, junto a amigos, resolveram lutar pelo tombamento da estrutura. O pedido foi feito à Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) em 21 de julho.

"Fizemos um trabalho de levantamento desse lugar. Procuramos saber sobre questões do patrimônio cultural e arquitetônico da cidade para fundamentar o tombamento em valores urbano-culturais e antropológicos. Mesmo que não fiquemos aqui, queremos que essa estrutura seja conservada para a cidade, podendo tornar-se, por exemplo, um equipamento cultural. Só não podemos deixar que a cidade perca esse local", conta Nadja.

De acordo com a Secretaria de Cultura de Fortaleza, o pedido de tombamento do prédio encontra-se em análise inicial. Caso seja aceito, a edificação fica em caráter de tombamento provisório até que seja decidido pela definição ou não da proteção.

A Idibra, construtora proprietária do terreno e responsável pelas futuras obras no Residencial Iracema, foi procurada pela reportagem do Diário do Nordeste para esclarecimentos a respeito do projeto arquitetônico planejado para o espaço. Contudo, a empresa não respondeu às tentativas de comunicação.

São Pedro

A algumas quadras de distância, a imponência de um daqueles que já foi o mais luxuoso e bem frequentado espaço de Fortaleza ainda chama atenção, agora pelas paredes desgastadas e aspecto abandonado. Apesar de ter várias de suas entradas tampadas com tijolos ou trancadas com cadeados, o Edifício São Pedro, na Praia de Iracema, ainda é lar para três pessoas que ocupam seus apartamentos.

Quem informa é Edivando, um dos ex-moradores do local, onde passou seis anos, entre 2002 e 2008. "Era uma morada boa. O apartamento era espaçoso, com sala, cinco quartos grandes, quatro banheiros, varanda. Eu também alugava alguns apartamentos. Todo mundo queria morar aqui. Saí porque os proprietários me pediram e eu não quis ter problemas. Mas ainda há uns poucos que moram aí", diz. Construído em 1951, com design vanguardista, inspirado nos hoteis de luxo de Miami, o edifício São Pedro deu lugar ao Iracema Plaza Hotel, primeira edificação da orla de Fortaleza.

Em 2012, conversas entre os proprietários do prédio e a Prefeitura de Fortaleza buscaram uma tentativa de revitalização do edifício, ainda visando a Copa do Mundo de 2014.

Atualmente, de acordo com a Secultfor, a instrução de tombamento do edifício São Pedro encontra-se em fase final de elaboração. Em julho, os proprietários apresentaram uma nova proposta de intervenção no edifício, que será apreciada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural (Comphic) uma vez finalizada a instrução. Ainda em tombamento provisório, o Edifício São Pedro, assim como o Residencial Iracema, permanecem, ainda que não se saiba até quando, como um pedido de Fortaleza em não apenas ser construída para o futuro, mas em ser lembrada pelo seu passado.

Entrevista
 
Edificações relembram o passado da cidade

Qual a importância de se preservar edificações tradicionais?

É natural que não somente especialistas na área de patrimônio, mas a própria população, se preocupe e valorize, pois esses prédios contam a história da cidade. Em Fortaleza não há cultura da preservação do patrimônio histórico. A administração pública, ultimamente, se preocupa com isso, mas é uma tarefa grande e precisa do apoio da população.

Como esses modelos de arquitetura podem conviver com o atual perfil do setor imobiliário?

Nossa sociedade tem verdadeira admiração pelo novo e chama de velho o que acha que não presta. Assim é difícil valorizar edificações antigas. Na Europa, por exemplo, há cidades com edifícios antigos totalmente adaptados aos confortos da vida moderna. Decretar a morte de uma edificação por ser antiga é um crime, principalmente se tem predicados simbólicos e afetivos.

A gestão da preservação de edifícios em Fortaleza é satisfatória?

Não, porque ainda não existe um inventário dessa arquitetura. A Secultfor e o Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFC estão estudando para que a Prefeitura tome conhecimento desse patrimônio. A partir daí é possível fazer uma gestão do controle urbano.

Romeu Duarte
Arquiteto, urbanista e professor de Arquitetura e Urbanismo da UFC

Ranniery Melo
Repórter