Operários lidam com medo e pressão para montar hospital no Estádio Presidente Vargas

Colaboradores correm contra o tempo, em jornadas extensas, para finalizar unidade de saúde temporária no Estádio Presidente Vargas, até o dia 20 de abril. Cerca de 40% estão concluídos, segundo a Prefeitura de Fortaleza

Escrito por Nícolas Paulino , nicolas.paulino@svm.com.br

Metro
Legenda: Erinaldo, Rogério, Ana Lídia, Heberton e mais dezenas de trabalhadores correm contra o tempo para entregar o hospital de campanha do PV
Foto: Foto: Fabiane de Paula

Hospitais de campanha são lembrados em épocas de guerra, como a que o mundo enfrenta atualmente contra a ameaça invisível do novo coronavírus. Como estratégia de enfrentamento em Fortaleza, no dia 23 de março, o prefeito Roberto Cláudio anunciou a instalação de uma estrutura temporária de saúde no Estádio Presidente Vargas, no bairro Benfica, para conclusão até o dia 20 de abril. Com prazo enxuto, dezenas de funcionários da construção civil atravessam o gramado - ou o que sobrou dele - apressados, com um misto de medo e esperança.

Foto: Foto: Fabiane de Paula

O equipamento, quando pronto, receberá pacientes da Capital e da Região Metropolitana que foram infectados pela Covid-19. Ao todo, há capacidade para 204 leitos comuns, divididos em 17 enfermarias, com 12 leitos cada. A depender da necessidade, eles podem ser adaptados para Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), segundo a Prefeitura. Até o momento, as obras estão 40% concluídas.

Pessoas mascaradas circulam pelos corredores do local. O gramado que já recebeu milhares de jogos está sulcado para receber tubulações elétricas, ou já coberto pelo piso de concreto - um dos setores mais acelerados, com 90% de conclusão, segundo o construtor Erinaldo Matias, 45. Paraibano residente há 22 anos no Ceará - hoje, vive em Itaitinga -, ele nunca assistiu a uma partida de futebol no Presidente Vargas e nem mesmo cogitava participar da obra.

"Quando me chamaram, eu disse: 'vou olhar, mas não vou fazer'. Quando soube que era um hospital, decidi vir", revela o cristão, pai de três jovens entre 17 e 19 anos, que "ora pra que a gente não precise disso aqui"
.

Erinaldo já havia participado de uma reforma no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), mas não no mesmo ritmo da nova estrutura. Com 10 pessoas no setor, ele adianta que falta apenas pavimentar o "corredor" para passagem de ambulâncias com pacientes.

Foto: Foto: Fabiane de Paula

Fortaleza é uma das cidades com maior índice de infecção da Covid-19, segundo o Ministério da Saúde. Até esta quinta (9), a Capital confirmou 1.283 casos e registrou 45 óbitos pela doença, de acordo com boletim epidemiológico da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa).

Receio

O auxiliar de elétrica Rogério Marcelo do Nascimento, 37, achou que a enfermidade era algo distante, até uma tia sexagenária apresentar suspeita da infecção respiratória.

O primeiro pensamento ao sair de casa, no Parque Potira, em Caucaia, "é medo de contrair". Os motivos têm idade: a filha, de 4 anos, e a mãe, que passou dos 60. Assim como os outros colaboradores, ele bate o ponto às 7h da manhã e inicia uma rotina de trabalho intensa, cujos intervalos para refeições ocorrem às 12h, 15h e 18h. Ele explica que, com o avanço dos casos, todos passaram a se preocupar mais com a limpeza.

"Numa obra assim, a gente sabe que higiene não é o forte. Mesmo assim, a gente lava a mão toda hora, e tem gente que toma uns 10 banhos", exagera, mas com razão. A consciência está mais forte até em relação à comida. "O vírus atinge quem não está imune. Meus colegas passaram a ter até a preocupação de beber suco em vez de refrigerante. Todos querem se alimentar bem", exemplifica.

Dedicação

Uma das únicas mulheres na obra, a auxiliar de limpeza Ana Lídia Ferreira, 39, age em silêncio. É daquela gente que transfere a energia das palavras para a tarefa que desempenha, ainda mais quando dela podem depender outras vidas. Moradora do Passaré e mãe de quatro, ela diz não sair mais de casa depois de chegar do trabalho, porque sabe que pode ser infectada e transmitir a doença para os outros membros da família.

Foto: Foto: Fabiane de Paula

Consciente de seu papel, ela pede que as pessoas que trabalham em serviços não essenciais permaneçam em casa para frear a disseminação. E cobra reconhecimento para a própria categoria, nem sempre lembrada nas homenagens.

"Sinto falta de aplaudirem quem está lá nos hospitais, cooperando com a limpeza do espaço, porque também estão correndo risco", lembra a trabalhadora.

Aos gestores da obra, cabe conciliar o quebra-cabeça dos processos e os sentimentos conflitantes de cada funcionário. O coordenador dos eletricistas, Heberton Sousa da Silva, 37, tem passado pelo desafio de lidar com outros 16 homens, cada um com a própria família e as próprias preocupações. Um homem chegou a relatar à reportagem que teve medo quando o prefeito visitou a obra porque, embora clinicamente já curado, Roberto Cláudio testou positivo para a doença.

Agilidade

"Tem vez que a gente tá cansado não só pelo tanto de serviço e pela correria, mas pela pressão", conta Heberton. Para acalmar os ânimos e motivar a equipe, o argumento é claro: "a gente quer uma coisa rápida pra agilizar e receber quem precisa", afirma ele que, se acabar o expediente às 22h, ainda enfrenta um longo deslocamento até Maracanaú. "É complicado, mas com certeza vai compensar", diz.

Foto: Foto: Fabiane de Paula

Também tarde da noite, em Itaitinga, Erinaldo Matias estará lavando as próprias roupas na pia do quintal, onde também tomará um banho antes de entrar em casa. No mesmo horário, em Caucaia, Rogério do Nascimento estará pronto para dormir, pensando que "o cansaço tá batendo, mas a gente pode dar o gás mais um pouquinho". "A linha de frente somos nós. Apesar do medo, muitos têm escolhido vir. Vai além do valor do dinheiro: tem o valor da vida, o valor humano", reconhece.

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