O que se sabe sobre o estudo que testou remédio da Pfizer no tratamento da Covid? Veja entrevista

Pesquisa apontou resultado promissor, médico ressalta que o uso da medicação com essa finalidade ainda não foi aprovado por nenhuma agência regulatória

covid ceará
Legenda: No Ceará, até sexta-feira (18), já foram confirmados mais de 861 mil casos de Covid-19
Foto: Thiago Gadelha

Um estudo realizado em 15 centros de tratamento do Brasil, incluindo um do Ceará, feito em conjunto pelo laboratório Pfizer e o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, revelou que o remédio tofacitinibe (Xeljanz), reduziu em 37% o risco de morte e de insuficiência respiratória em pacientes com quadro moderados internados com Covid. O resultado é promissor, mas, é preciso ponderar o que significa e o que pode ser feito a partir desse achado

O Diário do Nordeste entrevistou o médico cearense pesquisador e cardiologista do Hospital Israelita Albert Einstein, Remo Holanda Furtado, que integrou o estudo sobre o uso da medicação em um grupo de 289 pacientes. Atualmente, o remédio é utilizado, dentre outros, no tratamento de artrite

Os resultados da pesquisa foram divulgados, quarta-feira (16), em um artigo na revista científica New England Journal of Medicine. Dentre as ponderações, ressalta o pesquisador, é preciso ressaltar que o medicamento ainda não foi aprovado ou autorizado para uso no tratamento da Covid por nenhuma agência regulatória no mundo. 

Remo Holanda Furtado
Legenda: O cearense Remo Holanda Furtado é pesquisador e cardiologista do Hospital Albert Einstein
Foto: Divulgação/Hospital Israelita Albert Einstein

O medicamento Tofacitinibe foi testado em quais circunstâncias? 

Ele foi testado em um estudo feito em parceria pela Pfizer e o Hospital Albert Einstein em um departamento chamado ARO, um dos departamentos que faz pesquisas. Eu sou um dos pesquisadores que participou juntamente com a equipe de outros grandes pesquisadores. 

Nós temos um medicamento que ele já é usado para tratar doenças que geram inflamação, e existe um entendimento que de na Covid o que agride os pulmões do paciente é uma inflamação intensa.

Tanto é verdade que o medicamento que mais fez benefício foi o corticóide, que é um medicamento que reduz a inflamação. Só que mesmo com o corticóide os pacientes ainda evoluem mal, ainda morrem. 

Então, nós estamos pesquisando outros medicamentos que podem ser associados e que poderiam ajudar a melhorar o resultado, a evolução desses pacientes. 

O medicamento Tofacitinibe tem o papel de reduzir a inflamação. Ele é usado em doenças como artrite, e várias outras. E ele foi testado em Covid com esse intuito. Reduzir a inflamação dos pulmões. 

E quais foram os resultados desse estudo?

A pesquisa consistiu em um estudo com 289 participantes. Todos eles no Brasil. E metade deles, 145, recebeu o medicamento e a outra metade, 144, recebeu o placebo, que é um medicamento inativo que você usa para poder comparar um com outro. 

Trata-se de um estudo randomizado, duplo cego, controlado por placebo. O estudo avalia pacientes que estavam internados e que tinham confirmado a Covid, além de terem uma lesão no pulmão já estabelecida. Então, eram pacientes com alto risco de evoluir mal. 

O resultado principal mostrou que o risco de pacientes com Covid que receberam os remédios de piorar - morrerem ou evoluir com insuficiência respiratória - foi reduzido em 37%. Isso foi um resultado expressivo, importante, que sugere que este medicamento quando associado a tratamento padrão da Covid pode contribuir na melhora do paciente. 

Esse estudo foi realizado em quanto tempo?

Ele começou no ano passado. Demorou uns cinco meses para incluir os pacientes e depois tivemos que fazer o procedimento, acompanhar os pacientes, coletar os dados, fazer a análise. Demorou então uns 9 meses. 

Mas qual foi o tempo no qual os pacientes ficaram recebendo o medicamento?

Os pacientes receberam a medicação durante 14 dias ou até o dia de alta. Era uma medicação de uso hospitalar. Apesar de ser um medicamento aplicado por via oral e que em outras situações é usado em ambientes não hospitalares, esse estudo era hospitalar, para justamente nós podermos observar de perto os potenciais efeitos. 

A pesquisa aconteceu em vários hospitais? Como foi a distribuição?

Nós temos no total 15 centros que participaram desse estudo. Todos eles com algum paciente. No Ceará tivemos a participação do Hospital Regional da Unimed, em Fortaleza. 

Você pode explicar o que é o estudo randomizado, considerado o 'padrão ouro' na pesquisa? 

O estudo randomizado é aquele que você compara o tratamento que você quer entre dois grupos que estão rigorosamente parecidos. Vamos supor, se você disser assim vou dar o remédio para quem eu quiser e vou comparar quem tomou e quem não tomou. Você pode até fazer essa comparação, mas ela vai ser uma comparação que não vai se aproximar muito da verdade. Por quê? Porque quem você escolhe dá o remédio tem várias diferenças com quem você não escolhe. 

O que é randomizado? Você seleciona um grupo de pacientes e quem toma o remédio ou não, é determinado por sorteio. O nome randomizado é uma, é uma adaptação do nome random inglês, que quer dizer aleatório.

Então quem vai tomar o remédio do placebo é um sorteio, feito por um computador. Como você sorteia, nenhuma característica do participante vai dizer se ele vai tomar o remédio. 

Quando você sorteia, a chance de cair no grupo remédio e do placebo é a mesma. Aí você vai ter dois grupos que são absolutamente equilibrados. 

Em relação à quantidade de participantes, essa amostra é razoável? É pequena?

Quando você seleciona a quantidade, você faz isso baseado em técnicas, estatísticas que permitem dizer se aquilo vai ser suficiente ou não para responder a sua pergunta. Nós quando tivemos o cálculo, conhecendo o potencial efeito do remédio, é uma hipótese que você faz, mas nós determinamos que seria necessário 270 pacientes. 

Só que com o passar do estudo, acabou que as pessoas que participaram do estudo, os colegas do Brasil conseguiram colocar mais do que isso, eles conseguiram colocar quase 290. Então, nós acabamos deixando ter uma máquina de segurança para conseguir mostrar o resultado. 

E quando a gente vê o resultado do estudo, a gente tem também técnicas estatísticas para saber se aquele resultado é apenas o acaso ou não, e pelo nosso cálculo estatístico, não foi apenas o acaso, o efeito foi real. Portanto, essa amostra foi absolutamente adequada para avaliar o efeito do medicamento. 

Com o estudo publicado, qual o próximo passo?

O estudo já se tornou público. Então, os seus resultados, ele já foi, ele já foi divulgado para a comunidade médica, isso que é mais importante, ele foi submetido a revisão por pares. Não é um estudo que simplesmente está lá na internet. 

Por mais que nós, pesquisadores, saibamos fazer estudo, é preciso que aquele estudo seja avaliado por pares, passe por uma revisão, por um processo realmente rigoroso, para saber se ele é adequado. Então, isso já foi feito. Ele já foi validado cientificamente. Esse é o primeiro ponto. 

O que os médicos vão fazer com esse resultado, depende da opinião de cada um. Vão ter que avaliar se os resultados se aplicam ao seu paciente e se aquilo deve ser utilizado ou não. E isso também, em paralelo a validação científica, o estudo pode passar também por um processo regulatório. 

A dona do remédio, da molécula, ela tem a opção de submeter os resultados do estudo às agências regulatórias, como a Anvisa e a FDA nos Estados Unidos, para saber se aquilo deve ser aprovado, e colocado na bula ou não para que aquilo seja um tratamento definitivo. 

Vale lembrar que até o momento, as agências ainda não deram seu parecer. Nós ainda não temos essa avaliação. O que temos é uma validação científica do estudo.  

Considerando o consumo de medicamentos sem eficácia contra a Covid, qual a orientação diante desse achado? 

Como tudo que acontece na ciência, você deve analisar os fatos científicos dentro do escopo da sua prática, porque o fato de o estudo ser positivo ele te dá uma resposta. Olha, o medicamento foi testado, foi eficaz. E realmente conseguiu melhorar os pacientes, ponto. Para que aquilo seja usado na prática, você precisa ter um caminho, saber se aquilo é efetivo, se na prática funciona, saber dados mais detalhados, conceitos de segurança. 

Então, o resultado científico está divulgado, mas a influência na prática clínica vai depender de outras avaliações. Quando tem um estudo divulgado, além das agências regulatórias, as comunidades científicas, as sociedades acabam se posicionando.

São outras perguntas que precisamos ouvir. É importante ouvirmos a opinião dos experts para saber se eles endossam isso. 

Além disso, nenhum medicamento é uma solução mágica que irá resolver todos os problemas. Os medicamentos,  eles se somam a outras intervenções, reduzir o contágio por meio de medidas de distanciamento e vacinação, você dá o suporte adequado ao paciente, utilizar medicamentos com embasamento científico, tudo se soma. 

 

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