O que se sabe sobre a Doença de Haff, conhecida como ‘doença da urina preta’

Ceará soma dois casos suspeitos da doença, que já foi registrada em outros locais. O Amazonas passa por um surto, com 44 registros em investigação

Escrito por Redação, metro@svm.com.br

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Legenda: A síndrome de rabdomiólise, que gera a ruptura dos tecidos musculares, quando relacionada à ingestão de peixes ou crustáceos contaminados, passa a ser conhecida como Doença de Haff ou “doença da urina preta”.
Foto: Fabiane de Paula

Com dois casos suspeitos no Ceará registrados durante o mês de agosto, a Doença de Haff - também conhecida como “doença da urina preta” - tem gerado preocupações entre a comunidade médica. A condição é ocasionada a partir da síndrome de rabdomiólise relacionada à ingestão de peixes ou crustáceos contaminados, o que gera uma ruptura dos tecidos musculares. 

De acordo com pesquisa científica publicada no periódico Eurosurveillance e divulgada no portal da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), as infecções pela Doença de Haff foram reportadas pela primeira vez em 1924 na região do Báltico, entre a Prússia e a Suécia. Em seguida, os Estados Unidos e a China também identificaram registros semelhantes. No Brasil, atualmente, o Amazonas constata um surto de casos na região, com 44 casos suspeitos.

Neste cenário, o Diário do Nordeste conversou com a médica infectologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Mônica Façanha, para compreender a conjuntura provocada pela patologia no organismo humano.

O que é a Doença de Haff ou ‘doença da urina preta’?

“O que se sabe até agora é que é uma doença adquirida pela ingestão de peixes, camarão ou lagosta e que é causada por uma toxina, que não dá para a gente identificar macroscopicamente, isto é, não dá para identificar pelo cheiro ou pela cor, de olhar e achar que o peixe tá estragado e assim descartar a possibilidade de ingestão. Isso é um problema, porque a princípio ninguém sabe como fazer a prevenção primária”, destaca a infectologista.

Quais são os sintomas da doença?

“Os sintomas podem acontecer muito perto da ingestão do peixe, entre duas horas até um dia depois ou um pouco mais. A pessoa começa a ter dor no corpo, febre, pode ter náuseas também e o que chama a atenção é a urina escura, porque essa toxina acomete o músculo, então a célula muscular se rompe e libera a mioglobina, que vai dar a cor escura da urina. E dependendo da quantidade de lesão muscular [rabdomiólise] pode até levar a lesão do rim”, conforme a médica.

Quais são os peixes que causam a doença da urina preta?

“Vários peixes já foram identificados como suspeitos de terem sido responsáveis pela doença. Nos casos de Recife, atualmente, o tambaqui é que tá sendo acusado. Mas a gente já teve casos com outras espécies de peixe. Existe a hipótese de que a contaminação seja no armazenamento ou no transporte dos animais”, esclarece Mônica Façanha. 

De acordo com a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), os dois casos suspeitos no Estado estão ligados à ingestão da espécie de peixe arabaiana ou “olho de boi”.
 

Já no estudo divulgado pela Eurosurveillance, a doença geralmente envolve o consumo de peixes de água doce. Dentre 15 casos reportados na pesquisa, 14 haviam ingerido peixe cozido das espécies “olho de boi’ (Seriola spp) ou “badejo” (Mycteroperca spp). A equipe de pesquisadores trabalha ainda com a hipótese de que a causa mais provável da doença seja uma toxina presente na cadeia alimentar aquática.

Como se prevenir desta síndrome?

“Nesse momento, o que se pode fazer é comer menos peixe, tentar evitar grandes quantidades de pescado para conter a ingestão da toxina, caso ela esteja presente. Se for comer, que seja o mais fresco possível para evitar exatamente os problemas no armazenamento ou no transporte. Não tem uma definição muito clara do que se pode fazer, porque a gente não consegue identificar o problema antes de ingerir”, pontua a docente da UFC.

Segundo o infectologista Antônio Bandeira, em entrevista à Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a toxina presente nos peixes e crustáceos infectados é estável ao calor. Desse modo, “não adianta ferver, fritar ou cozinhar o peixe contaminado”.

Como é transmitida a Doença de Haff e quais os seus principais riscos?

Segundo a médica Mônica Façanha, a doença é transmitida exclusivamente pelo consumo de peixes ou crustáceos contaminados, não sendo uma doença contagiosa entre humanos. Além disso, a enfermidade pode gerar várias complicações, mas a mais frequente e perigosa é a insuficiência renal.

O que as pessoas devem fazer quando notarem a urina escura ou quando suspeitarem da doença?

“Elas precisam procurar o atendimento médico, porque é preciso ver qual é a intensidade desse acometimento. E aí vai precisar de muita hidratação para a proteção do rim. O tratamento é basicamente hidratar e manter as funções dos órgãos vitais”, finaliza a especialista.

*Mônica Façanha possui graduação em Medicina pela Universidade Federal do Ceará, mestrado em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutorado em Farmacologia pela Universidade Federal do Ceará.

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