No Ceará, 170 meninas são internadas todo ano, em média, por doenças ligadas à pobreza menstrual

Uso de alternativas ao absorvente, como jornais e panos, é uma das principais causas de infecções íntimas

Escrito por Theyse Viana e Nícolas Paulino, metro@svm.com.br

Metro
Absorvente
Legenda: Tabus ligados à menstruação freiam discussão urgente sobre democratizar acesso a absorventes
Foto: Shutterstock

Menstruar é um processo natural, mas nem sempre saudável para meninas, mulheres e para homens transexuais. A falta de recursos para obter itens de higiene nesse período – a pobreza menstrual – afeta a saúde de dezenas de cearenses anualmente, muitas vezes de forma irreversível.

No Ceará, de janeiro a julho deste ano, 62 meninas de 10 a 19 anos foram internadas por agravos de doenças inflamatórias pélvicas, as DIP. Por ano, são 170 internações do tipo, em média. Um dos motivos, como alertam ginecologistas, é o uso de alternativas ao absorvente – como papel higiênico, panos e até jornal.

A médica ginecologista Nathalia Posso explica que os absorventes menstruais são projetados para criar barreiras protetoras e impedir que as bactérias do sangue retornem ao trato genital, o que não é proporcionado pelas opções “caseiras”.

O sangue acumula, as bactérias se proliferam e geram as infecções, que podem levar a quadros graves de febre, dor pélvica, abscessos e até à infertilidade ou perda do útero.
Nathalia Posso
Ginecologista

Em 2018, o Ceará somou 187 internações por doenças inflamatórias pélvicas na faixa etária de 10 a 19 anos. No ano seguinte, foram 183, contra 141 em 2020. Os dados são do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), coletados pelo Diário do Nordeste.

Entre as doenças que causaram as 573 hospitalizações entre 2018 e 2021, estão parametrite e celulite pélvicas, pelviperitonite aguda e crônica feminina, aderências pelviperitonais e outras infecções na pelve.

Dor na parte baixa do abdômen (no “pé da barriga”), dor abdominal e nas costas, febre, fadiga e vômitos, corrimento vaginal, sangramento vaginal e dor ao urinar estão entre os principais sinais e sintomas da DIP.

Impactos da pobreza menstrual

O número alto de internações por DIP no Ceará “com certeza está relacionado com a má higiene e a manipulação inadequada do produto menstrual”, como avalia a ginecologista Mayna Moura.

A médica pontua que quando há uma higiene adequada da região íntima com água e sabão e uso de absorvente, a saúde se mantém regular – realidade inacessível para muitas mulheres, sobretudo as de baixa renda.

Meninas pobres, que moram em casas sem saneamento e não têm facilidade de acesso à água e produtos de higiene, têm um grau elevado de evasão escolar no período da menstruação, porque não têm absorvente ou a escola não tem um banheiro adequado.
Mayna Moura
Ginecologista

Os impactos sociais, então, reverberam em diversas dimensões. “Elas veem negativamente o ato de menstruar, porque gera essa repercussão negativa na vida, na saúde física e emocional. As famílias também sofrem, porque a menina que sai da escola por vergonha de estar menstruada vai depender economicamente de outras pessoas”, analisa Mayna.

Ana (nome fictício para preservar identidade), 15, estudante de uma escola estadual de Fortaleza, define os quatro dias de ciclo menstrual como "a pior semana do mês", período que já foi motivo para faltar às aulas "por diversas vezes", como ela mesma confessa.

"A minha (menstruação) vem muita, então preciso trocar o absorvente muito rápido. E não é barato, né? Teve um dia que eu não tinha, precisei usar papel e vazou na cadeira da escola. Foi horrível. Hoje, prefiro ficar em casa", relata.

Tabu da menstruação

Menstruação
Legenda: Falar do sangue que flui naturalmente, todo mês, dos corpos que têm útero – ou vê-lo em uma roupa ou cadeira manchada – ainda é tabu para uma sociedade que vê a menstruação como algo vergonhoso
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Falar do sangue que flui naturalmente, todo mês, dos corpos que têm útero – ou vê-lo em uma roupa ou cadeira manchada – ainda é tabu para uma sociedade que vê a menstruação como algo vergonhoso, como pontua a ginecologista Mayna Moura.

“É um tabu muito grande até entre nós mulheres mesmo. A gente tem vergonha de estar menstruada, de sair, trabalhar, fazer nossas atividades. O que precisamos entender é que é um fenômeno fisiológico”, reitera.

Para a médica, essa dificuldade prejudica inclusive a discussão urgente de se distribuir absorventes higiênicos – e tem o cenário agravado pela deficiência nas políticas de saneamento e saúde coletiva.

É de extrema importância que meninas e mulheres tenham acesso a esse item básico, pra se sentirem incluídas na sociedade. Além disso, muito mais do que dar um absorvente, seria importante proporcionar o mais básico: saneamento, água e produtos de higiene.

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