Março tem mais mortes por Covid em UPAs no Ceará do que soma dos últimos 7 meses de pandemia

Em 16 dias, já são mais de 270 óbitos pela doença nas Unidades de Pronto Atendimento cearenses, cenário com tendência de piora em relação ao pico da crise em 2020

UPA Fortaleza
Legenda: Fortaleza tem 12 das mais de 30 Unidades de Pronto Atendimento do Ceará
Foto: Natinho Rodrigues

Menos de um ano após a confirmação da primeira morte por Covid-19 no Ceará, a doença continua abreviando vidas de forma avassaladora: em 16 dias, março já registrou 277 óbitos por coronavírus só nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) do Estado, número maior do que o contabilizado nos últimos sete meses juntos – e quase o triplo do mês passado.

Entre agosto de 2020 e fevereiro deste ano, foram confirmadas 276 mortes pela virose pandêmica nesses estabelecimentos de saúde. No período, o pior mês foi o passado, com 96 vidas perdidas. Os dados do Integra SUS, da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), atualizados até 14h04 desta quarta-feira (17).

A quinzena entre 1º e 15 de março de 2021, aliás, foi a segunda com mais óbitos de toda a pandemia, com 254 registros nesses equipamentos. O número só fica atrás do contabilizado entre 15 e 31 de maio do ano passado, que teve alarmantes 288 mortes pela doença nas UPAs. Naquele mês inteiro, foram 510 cearenses ceifados pela Covid nas unidades.

UPAs sobrecarregadas

Em Fortaleza, nove UPAs já somaram 42.162 atendimentos por síndromes gripais somente entre janeiro e 16 de março de 2021. Do total, 23.370 – mais de 55% – foram relacionados ao coronavírus, segundo dados do Integra SUS. Nos filtros, plataforma não menciona "Covid", e sim o vírus pandêmico.

No mesmo período, 1.134 pacientes precisaram ser transferidos a leitos de maior complexidade em outros hospitais, dos quais 824 tinham diagnóstico de coronavírus – uma proporção de sete a cada dez pessoas.

Os números se referem às unidades dos bairros Autran Nunes, Canindezinho, Conjunto Ceará, Cristo Redentor, Itaperi, Jangurussu, José Walter, Messejana e Praia do Futuro. A capital conta, além dessas, com mais três UPAs, mas os dados delas não constam na plataforma da Sesa.

A médica Caroline Gurgel, epidemiologista e virologista, aponta que “não há mais como escoar a quantidade de pessoas que procuram atendimento”, porque todos os hospitais estão “lotados e voltados para a Covid”. O cenário, então, incide diretamente sobre as UPAs.

“Os hospitais não estão mais conseguindo atender à demanda. Então, a UPA, que era uma porta de entrada, se tornou uma solução pra permanência do paciente. É uma bola de neve negativa no combate à pandemia, as UPAs não têm capacidade para lidar com pacientes gravíssimos durante tantos dias”, avalia.

Aumento de leitos de UTI

Leito Covid
Foto: Helene Santos

O Diário do Nordeste questionou a Sesa e a Secretaria de Saúde de Fortaleza (SMS) sobre que impactos a sobrecarga dos hospitais pode gerar nas UPAs, quais os possíveis fatores para o aumento expressivo no número de óbitos nessas unidades e, por fim, se elas foram dimensionadas para lidar com demandas grandes e graves como a Covid.

Centralizada na pasta estadual, a resposta enviada em nota informou apenas que foram criados “leitos de UTI nas UPAs da Praia do Futuro e Messejana, 60 leitos no total, para reforçar o atendimento de alta complexidade em Fortaleza”, e que “a Central de Regulação faz busca ativa por leitos, que são liberados por ordem de prioridade definida por critérios médicos”.

Até 14h de hoje (17), havia 636 pacientes nas 35 UPAs listadas no Integra SUS, dos quais 135 estavam em uso de ventilação mecânica e 257 com máscara de oxigênio. As unidades somam 819 leitos gerais, incluindo “de eixo vermelho”.

Na capital cearense, de acordo com a prefeitura, são 759 vagas exclusivas para tratamento de Covid, das quais 170 estão distribuídas em cinco unidades de pronto atendimento. Os quantitativos foram divulgados nessa terça (16).

Frear a onda de contágio

Na análise de Caroline Gurgel, a circulação massiva da nova variante do coronavírus no Ceará é o principal fator para a “explosão de internações e óbitos” presenciada tanto nas UPAs como nas demais unidades de saúde do Estado.

“A variante tem duas mutações, fazendo com que o processo inflamatório seja muito mais intenso. Por isso esse aumento. Quem já foi infectado pela cepa original, não tem anticorpos contra a nova cepa. A população está completamente vulnerável”, alerta.

Caroline recomenda que pacientes com sintomas gripais leves busquem realizar teste para diagnóstico da doença pandêmica e mantenham isolamento em casa. “Caso tenha sintomas de gravidade, aí, sim, é interessante procurar assistência. Porque o paciente que busca a UPA por casos leves e moderados às vezes pode se infectar por uma outra cepa mais grave”.

Nas últimas duas semanas, o Ceará tem registrado uma média de 44 óbitos e 1.947 novos casos diários de Covid-19. Os dias 2 a 5 de março, porém, se destacam negativamente na série: eles registraram, respectivamente, 4.002, 3.717, 3.521 e 3.406 novas infecções diárias confirmadas.

Quero receber conteúdos exclusivos da cidade de Fortaleza