“Essa segunda onda está sendo mais rápida e devastadora”, diz enfermeira cearense que atua em Manaus

A profissional de saúde cearense, que enfrentou a primeira e segunda onda na capital amazonense, destaca a situação de terror vivida no momento de colapso do sistema de saúde.

Legenda: A enfermeira cearense atua diretamente na linha de frente contra a Covid-19 desde março de 2020, mas enfatiza que a segunda onda foi a mais devastadora e deixou o rastro de exaustão física e psicológica nos profissionais.
Foto: Arquivo Pessoal

O forte alerta para o perigo de uma segunda onda de Covid-19 partiu do norte do País, o Estado do Amazonas foi o primeiro a ver o sistema de saúde colapsar com a alta demanda de pacientes causada pelo novo coronavírus. A cearense Leiriane Mesquita, que atua em Manaus há 5 anos, definiu a segunda onda que atingiu a capital amazonense como “mais rápida e devastadora” e destacou o papel das confraternizações de fim de ano em impulsionar a nova onda.   

 

De acordo com a enfermeira Leiriane Mesquita, apesar do Amazonas também ter sido destaque na primeira onda, onde imagens de covas coletivas sendo abertas no Estado viralizaram, em comparação com o que viveu durante a primeira onda de Covid-19, a segunda onda chegou muito mais forte. “Os pacientes não agravavam tão rápido e essa segunda onda não. Essa segunda onda está sendo mais rápida, mais devastadora”, conta. Além disso, ela também destaca a mudança do perfil do enfermo. “Antes tínhamos pacientes jovens? Sim. Mas agora é muito mais e são pacientes jovens agravando, e não se sabe o motivo. Parece que é uma nova doença”, completa.  

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A enfermeira que ainda não recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19, enfrentou a primeira e está enfrentando a segunda onda atuando no Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), onde médicos chegaram a fazer campanha para arrecadar cilindros de oxigênio, no Hospital e Pronto Socorro Dr. Aristóteles Platão Bezerra de Araújo, que teve pacientes transferidos para Goiás por falta de oxigênio, e no Instituto de Saúde da Criança do Amazonas (ICAM).  

Terror inesquecível 

Depois de 31 de dezembro, o fluxo de pacientes infectados pelo vírus Sars-Cov-2 aumentou em 90%, impedindo, inclusive, que a equipe prestasse assistência integral aos pacientes. Segundo a enfermeira, o caos se instalou na segunda semana de janeiro. “O dia 14 vai ser inesquecível para a população de Manaus”, enfatiza Leiriane.  

Com déficit de oxigênio e alta demanda de contaminados pelo novo coronavírus, a luta dos profissionais para salvar vidas foi descrita como a “maior até aquele momento”. “Eram pacientes te olhando, te pedindo ajuda, pegando na tua mãe e não poder fazer nada. O que você podia fazer você fez e não pode fazer mais nada, porque não tem oxigênio para ofertar. Aquela correria no hospital e você sem saber o que fazer, porque você já fez o que podia, mas não tinha o essencial que é o oxigênio”, relembra a enfermeira emocionada.  

Apesar de ter passado mais de 10 dias da noite de 13 para 14 de janeiro, descrita como “inesquecível”, a enfermeira enfatiza que a situação não está mais fácil. “Os profissionais saíram devastados. Não só os profissionais que viveram na pele, porque foi muito difícil, e não está sendo fácil, porque cada dia é um dia”, afirma.  

Confraternizações de fim de ano x segunda onda 

Segundo a profissional de saúde, o desrespeito às normas de segurança sanitárias e as confraternizações de fim de ano tiveram papel essencial no agravamento da pandemia.  

“Mais precisamente uma semana antes do Natal, começaram a chegar muitos casos de Covid. Como? Já estava bem flexibilizado o comércio e os bares. E na verdade, estava todo mundo achando que o Covid tinha passado. E quando chegou logo depois do Natal, duplicou a entrada de pacientes, eram muitos. Alguns pacientes já chegavam passando muito mal, com todos os sintomas. Não era mais aqueles pacientes que chegavam com um sintoma de tosse, sintoma de febre. Foram pacientes já chegando nas últimas dos sintomas e isso causando um fluxo maior de internações”, destaca. 

O Ceará também tem passado por alta de casos do novo coronavírus após as confraternizações do fim de ano. O estado registrou um aumento de 121,7% no número de casos confirmados de Covid-19. Os dados compreendem a semana epidemiológica de 10 a 16 de janeiro na comparação com os sete dias anteriores.  

De acordo com o IntegraSUS, plataforma gerida pela Secretaria de Saúde do Ceará (Sesa), atualizado as 17h03 desde domingo (24), o Estado registra 363.967 casos confirmados da infecção e soma 10.332 óbitos pela doença. A taxa de letalidade da Covid-19 em solo cearense é de 2,9%. 

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O que fica da experiência 

“Nossa experiência é que hoje nós passamos por um momento de muita exaustão, muito medo, de muito choro”, observa Leiriane. Além disso, ela acredita que também fica o exemplo para que outros estados não cheguem ao mesmo ponto. “Se for aglomerar, saiba que você pode não sentir nada, mas não propague o vírus. Esse vírus não é brincadeira, ele está aí e está mais vivo do que nunca. Infelizmente as pessoas não estão levando a sério. Estamos perdendo muitas pessoas, muitos amores, muitos sonhos estão sendo ceifados por essa doença”, conclui.  

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