Especialistas revelam preocupação com possível alta de casos de dengue em meio a pandemia de Covid

33 cidades cearenses têm infestação predial considerada média ou alta do mosquito Aedes aegypti, Sobreposição de Covid e dengue permanece como alerta no período da quadra chuvosa no Ceará

Escrito por Nícolas Paulino, nicolas.paulino@svm.com.br

Metro
Legenda: Sem entrada de agentes de endemias nas residências para evitar contaminação por Covid, população deve aderir aos cuidados com espaços abertos.
Foto: Fabiane de Paula

Atualmente, 33 cidades cearenses têm infestação predial considerada média ou alta do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue. Por mais que as notificações da doença tenham caído 57% no Estado, até o momento, especialistas em arboviroses revelam preocupação com os próximos meses pela possibilidade de aumento nas contaminações durante a pandemia da Covid.

A analista contábil Josiane Lima, 47, teve de enfrentar as duas enfermidades neste ano. Em janeiro, teve um quadro quase assintomático de Covid. Mas, a doença deixou fragilidades psicológicas pela dúvida, já que amigos de trabalho e a filha também foram contaminados.

Não sei se foi de mim porque não dá pra rastrear. Também tive receio de piorar e precisar de atendimento mais sério, de respirador, mas graças a Deus cumpri minha quarentena e voltei a trabalhar”
Josiane Lima
Analista contábil

Já na última semana, Josiane passou a sentir calafrios e dores no corpo. Contudo, resistiu a procurar atendimento por conhecer as dificuldades atuais da rede de saúde. No hospital, exames detectaram queda no número de plaquetas e a confirmação da dengue.

"Fui porque não aguentava mais, mas fiquei muito temerosa por ter de ficar. Tem uma ala em que todo mundo estava com uma pulseira vermelha, mas por mais que seja separada e por mais que tenham cuidado... não tem como explicar direito”, preocupa-se.

Hoje, a analista termina sua recuperação em casa.

Dados da plataforma IntegraSUS, gerida pela Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), mostram que 4.172 casos de dengue foram notificados no Ceará em 2021, até o dia 5 de abril. No ano passado, até o dia 6 de abril, haviam sido 9.485. A redução foi de 57,6% entre os dois períodos.

Segundo Raquel Magalhães, orientadora da Célula de Vigilância Epidemiológica da Sesa, ainda é precoce cravar a redução porque o pico de sazonalidade das arboviroses se dá principalmente nos meses de abril e maio. 

O baixo número de registros pode estar associado à baixa circulação viral de dengue, como também ao receio das pessoas doentes por arboviroses buscarem o serviço de saúde em meio a pandemia”
Raquel Magalhães
Orientadora da Sesa

Conforme o IntegraSUS, a única região de saúde do Ceará com aumento expressivo nas notificações em relação ao ano passado foi a de Sobral, mas Raquel explica que as incidências em todas as áreas “permanecem dentro dos parâmetros esperados, com baixas incidências e baixo risco de epidemia”.

Evitar internações

Em Fortaleza, onde a analista contábil Josiane Lima reside no Parque Santa Maria, na Grande Messejana, a queda também foi expressiva. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), as primeiras 13 semanas de 2021 registraram queda de 73,5% nos casos confirmados de dengue: foram 497, contra 1.874 no mesmo período de 2020.

Bairros como Barra do Ceará, Pirambu e Álvaro Weyne concentram a maior parte dos casos. Mesmo com a redução, a SMS recomenda cautela.

Agora é que nós vamos entrar no período mais crítico, quando historicamente temos o avanço de casos de dengue na cidade de Fortaleza: os meses de abril e maio, onde você atinge um pico quer seja com epidemia ou sem epidemia”.
Nélio Morais
Coordenador de vigilância em saúde de Fortaleza

O objetivo da prevenção é justamente evitar internações por formas graves da dengue, num momento em que as redes de saúde pública e privada estão quase esgotadas pelo atendimento a pacientes com Covid-19. A ocupação geral de leitos de UTI para a doença pandêmica, por exemplo, estava em 93%, na noite desse sábado (10).

“O controle da dengue e demais arboviroses é imprescindível neste momento delicado que vivemos em relação à pandemia, uma vez que diminuindo o número de pessoas acometidas pelas demais doenças, teremos impacto direto na diminuição da sobrecarga das ações e serviços de saúde, que no momento estão atuando no limite operacional”, reforça Raquel Magalhães, da Sesa.

Infestação predial

Segundo o IntegraSUS, a Capital apresenta cenário de baixa incidência da dengue. No entanto, quatro cidades têm alta incidência (Viçosa do Ceará, Iracema, Pereiro e Quixeré) e, outras 11, média: Maranguape, Massapê, Aratuba, Itatira, Boa Viagem, Palhano, Limoeiro do Norte, Tauá, Várzea Alegre, Campos Sales e Brejo Santo.

A situação é melhor que a de 2020, quando sete cidades tinham alta incidência e 29 estavam na categoria média, incluindo Fortaleza. À época, a região de saúde da Capital registrou 5.571 notificações; neste ano, foram 2.011, uma diminuição de 64%.

Legenda: Recipientes com água parada devem ser observados e limpos para evitar crescimento de larvas do mosquito.
Foto: Fabiane de Paula

Uma das estratégias para prevenir a disseminação da dengue e outras arboviroses é a medição do índice de infestação predial (IIP), que reflete o percentual de imóveis com a presença de larvas do Aedes aegypti.

No primeiro ciclo de 2021, ao todo, três cidades cearenses tiveram IIP considerado alto, e outras 30 estão na categoria média. Em comparação, no primeiro ciclo de 2020, seis municípios tinham índice alto e, 54, médio.

Confira a lista atualizada abaixo:

Alto IIP

  • Choró
  • Canindé
  • Ipaporanga

Médio IIP

  • Mucambo
  • Ipaumirim
  • Farias Brito
  • Araripe
  • Ipu
  • Brejo Santo
  • Assare
  • Mauriti
  • Barbalha
  • Quixadá
  • Caucaia
  • Lavras da Mangabeira
  • Granjeiro
  • Altaneira
  • Iguatu
  • Potengi
  • Baixio
  • Icó
  • Ipueiras
  • Orós
  • Campos Sales
  • Viçosa do Ceará
  • Ibiapina
  • Senador Pompeu
  • Varjota
  • Boa Viagem
  • Meruoca
  • Reriutaba
  • Nova Olinda
  • Uruburetama

Em fevereiro deste ano, a Sesa divulgou o Plano Estadual Integrado em Saúde para Enfrentamento das Arboviroses, recomendando condutas para prevenir a ocorrência de possíveis epidemias de dengue, chikungunya e zika causadas pelo Aedes aegypti.

O documento recomenda, além de estratégias de educação e comunicação, o monitoramento de notificações, por meio da vigilância epidemiológica, e a priorização de controle vetorial em áreas de maior risco, com a eliminação dos criadouros do mosquito. 

Cuidados extras

A analista Josiane Lima confessa que “nunca” deu a devida atenção para a dengue, embora conte que o quintal de casa seja limpo e organizado. “Temos muito cuidado. Pode ter sido de algum vizinho, mas, assim como a Covid, é muito difícil rastrear”, diz.

“A dengue é uma doença gravíssima. O paciente pode entrar em estado de choque de forma muito rápida porque é uma doença extremamente aguda”, ressalta Nélio Morais, da SMS de Fortaleza.

A orientadora da Sesa, Raquel Magalhães, lembra que as ações de controle devem ser permanentes e ocorrer durante todo o ano. Por isso, defende o estímulo ao autocuidado da população sobre a prevenção a criadouros.

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