Enem 2019: Para ex-alunos, apoio em escolas públicas gera acesso à universidade

Estudantes de instituições cuja realidade é, muitas vezes, adversa, percorrem árduos caminhos para conseguir uma vaga na universidade. Entre 2015 e 2018, rede estadual duplicou o número de alunos que entraram no Ensino Superior

Escrito por Thatiany Nascimento, thatiany.nascimento@svm.com.br

Metro
Legenda: A universitária Frances Rodrigues é ex-estudante da rede estadual e após ingressar no Ensino Superior retornou à escola para auxiliar outros alunos
Foto: HELENE SANTOS

Não basta só sonhar com o acesso à universidade, nem acreditar que somente o esforço particular, embora fundamental, abre as portas para o ensino superior. Faltando menos de um mês para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ex-alunos de escolas públicas do Ceará que, hoje, estão em universidades, após fazerem o exame, avaliam que a meta não seria alcançada sem as garantias concretas que as escolas podem e devem dar nesse processo. Se a condição financeira é um gargalo, a estrutura das instituições outro e as necessidades são muitas, assegurar suporte com aulões, reforços escolares e até apoio financeiro, é fundamental no caminho rumo à conquista da vaga. 

No Ceará, entre 2015 e 2018, o número de alunos da rede estadual que ingressaram no ensino superior dobrou. Em 2015, foram 10.035. Em 2018, essa quantidade subiu para 20.207. Um número que não é tão expressivo se considerado apenas o aspecto quantitativo na totalidade de candidatos do Enem. Mas é um índice que tem crescido de forma relevante e influenciado quem estuda em escolas cuja realidade e a disposição de recursos são, muitas vezes, difíceis. 

Percurso

Ser a primeira pessoa da família a entrar na universidade. Situação vivida pela universitária Frances Rodrigues, moradora de Fortaleza, que reflete, ao mesmo tempo, a histórica falta de oportunidade e um grande mérito. Os pais da estudante não conseguiram finalizar o Ensino Médio. E até o mesmo período educacional, Frances sempre estudou em escolas particulares do Bairro Ellery. As mensalidades, lembra, eram pagas com muito esforço. “Foram todas com desconto ou bolsa por conta das minhas notas boas”, afirma. 

294 mil candidatos do Ceará irão fazer Enem. Segundo o Inep, em 2019, dos mais de 5 milhões de candidatos inscritos, 5,8% são do Ceará

Nos anos finais, Frances ingressou na Escola de Ensino Fundamental e Médio (EEFM) Dr. César Cals e descobriu o que queria fazer no futuro: ensinar. Então, aprimorou a escrita de redação por meio de projetos da rede estadual como o “Enem Não Tira Férias”, em que os alunos revisam conteúdos no período de férias. Em 2018, aos 17 anos, Frances conseguiu nota para ser aprovada no curso de Letras-Português/Inglês na Universidade Federal do Ceará (UFC). 

Um ano depois, já cursando a graduação veio um convite irrecusável: voltar para a Escola César Cals como tutora de redação. “Eu procurei uma ex-professora de Português e disse que se ela quisesse eu poderia ajudar a corrigir algumas redações. Ela falou com a coordenadora para eu ir trabalhar na escola, em um projeto redação nota 1000, dentro do programa Minha Escola é da Comunidade. Eu fiquei com medo porque eu achava que não estava preparada porque ainda estou no começo do curso, mas eles acreditaram no meu potencial”, destaca.

Dificuldades

O caminho de Frances é semelhante ao de Iuri Tavares, morador da comunidade Poço da Draga. Ele também é ex-aluno da rede estadual e, hoje, com 22 anos, cursa Ciências Biológicas na UFC, sendo o primeiro da família a ingressar no Ensino Superior. A mãe de Iuri é vendedora ambulante de comida, e o pai já faleceu. 

No percurso, Iuri sempre estudou em escola pública e, em casa, nem “sequer tinha mesa de estudos, nem um quarto que provesse um ambiente silencioso para estudar”. No Ensino Médio, na Escola Clóvis Beviláqua, teve uma preparação bastante intensa para o Enem. “Tínhamos aulões, alguns interdisciplinares, em que dois professores planejavam a aula e faziam com que a gente conseguisse ter uma visão daquele conteúdo relacionado com a vivência”. O último ano de seu Ensino Médio foi 2016, quando as escolas da rede estadual vivenciaram uma greve.

726 escolas integram a rede estadual do Ceará. Conforme a Seduc, todas essas instituições têm ações de incentivo à entrada no Ensino Superior

“Foi um ano bastante difícil porque além de a gente ter que estudar, teve que se engajar politicamente. Meus colegas começaram a revezar e produzir aulas para não ficarmos com o desfalque. Determinados alunos que tinha um notório saber, acabavam dando o conteúdo como reforço”. 

Em 2017, Iuri iniciou a faculdade. Hoje, no 5º semestre, relata que para se manter na instituição conta com apoio financeiro de R$ 400 de uma bolsa da iniciação à docência. “É a política de assistência social que tem me permitido continuar”, completa. 

Para a ex-aluna da Escola Castelo Branco, também da rede pública estadual em Fortaleza, Vitória Santos, o ingresso para cursar Direito na Universidade Federal Rural do Semi-Árido, em Mossoró (RN), é um sonho concretizado após muito estudo e ações motivadoras. Dentre elas, as “Feijoaulas” realizadas por professores, gincanas e olimpíadas na escola. “Meu sonho sempre foi fazer Direito. Sempre quis a área criminal, ser delegada. No Castelo Branco, quem quer, tem todo apoio. Tenho professores que me ajudaram até demais. Até mais do que eu merecia”, reconhece.

Legenda: Iuri Tavares há dois cursa Ciências Biológicas no campus do Pici da UFC
Foto: JOSÉ LEOMAR

Hoje, Vitória cursa o primeiro semestre na instituição localizada no Estado vizinho e divide aluguel com uma colega. Para se manter na universidade, ela tenta uma bolsa. “Meus pais sempre me apoiaram. Pra eles, é algo que nunca foi acessível. Nunca passava pela cabeça deles. E o que eu digo é que não é pra desistir, desanimar. Essa coisa de não ter dinheiro é muito difícil. Muita gente para de estudar para trabalhar. Apesar das condições precárias, tem internet, livro, vai atrás. Porque é difícil a realidade de cada um, mas temos que tentar”. 

Incentivos

A assessora especial do gabinete da Secretaria da Educação (Seduc), Maria Elizabete Araújo, explica que a Pasta tem duas grandes ações estratégicas relacionadas ao acesso e à permanência de alunos no Ensino Superior. Uma delas é o programa “Enem chego junto, chego bem”, que envolve as 726 escolas da rede estadual e tem ações que vão desde a garantia da documentação para os estudantes se inscreverem na prova à preparação efetiva para o exame com aulões, reforço, entre outros. 

A segunda estratégia é a Bolsa do Programa Avance, iniciada em 2017. O incentivo financeiro, destaca, concede R$ 468,50 durante um ano aos ex-alunos de escolas públicas que ingressaram no Ensino Superior. O edital para concorrer a bolsa é lançado anualmente. Ao todo, 2 mil candidatos são beneficiados. “Muita gente ingressava e não conseguia se manter, a gente enxergou nisso mais uma tarefa para apoiar esse jovens para eles se estruturarem”, garante. 

Provas

O Enem 2019 acontecerá nos dias 3 e 11 de novembro. No primeiro domingo, será a aplicação das provas de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Redação e Ciências Humanas. No segundo, serão as provas de Ciências da Natureza e Matemática. Ao todo são 180 questões e uma redação

Cronograma

Os inscritos para o Enem 2019 poderão conferir os locais de prova a partir de quarta-feira (16). O endereço e o número da sala ficarão no sistema junto com a liberação do Cartão de Confirmação da inscrição

Acesso

O Enem viabiliza o acesso à educação superior, por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e do Programa Universidade para Todos (ProUni). O exame também possibilita financiamento por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies)

 

 

 

 

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