Covid-19 modifica rotina dos profissionais de serviços auxiliares nos hospitais de Fortaleza

Entre medos, dificuldades e abdicações, relatos apontam o cumprimento cuidadoso das medidas de proteção e a escolha de distanciamento voluntário de familiares do grupo de risco

Legenda: Francisca Everlânia Barbosa precisou se distanciar da família e a filha de 9 anos tem dificuldade em entender o afastamento necessário.

Desde o início do isolamento social, no dia 20 de março, cearenses viram suas rotinas mudarem subitamente, precisando adaptar o antigo estilo de vida para o ambiente doméstico. No entanto, nem todos podem estar no conforto do próprio lar durante esse período de quarentena. Para além de médicos, enfermeiros e técnicos de saúde, há o trabalho de outros profissionais, que muitas vezes passam despercebidos. Vigilantes, auxiliares de limpeza e responsáveis pela rouparia, diariamente cumprem serviços, tão essenciais como os de saúde, para o funcionamento de hospitais.

Lilian Alves Rodrigues, 49 anos, por exemplo, acorda todo dia às 4h40 para chegar na Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Meac) e cumprir o turno de 6h às 18h como vigilante. Há quatro anos trabalhando no local, é a primeira vez que segue tantos protocolos de proteção.

Luvas, máscaras, álcool gel e distanciamento social se tornaram as novas medidas de cuidado de sua rotina. O cotidiano agora é outro e o medo da circulação do vírus entre ela e os transeuntes é constante.

 

Para evitar colocar os parentes em risco, Lilian tem vivido sem as presenças que antes lhe aguardavam no retorno de casa. A mãe Francisca, 73; a avó Maria, 93, e o filho Lucas, 11, precisaram se mudar para a fazenda de familiares, no Maranguape, quando a vigilante retornou ao serviço na MEAC, no começo de maio. Desde então, a saudade virou sentimento constante. 

“Eu me sinto triste por saber que eles estão longe de mim. A gente se sente angustiada, mas ao mesmo tempo eu fico feliz porque há um lugar para que eles possam se proteger até que isso tudo passe”, compartilha.

Na portaria, aponta que consegue dar informações à distância sem constrangimento porque as pessoas sabem que é necessário. Apesar de seguir os protocolos de cuidado, sente falta da realidade pré-pandemia. “Nunca imaginei, de jeito nenhum, ter que me manter longe das pessoas dessa forma”, declara Lilian. 

Legenda: Lilian, à esquerda, e Michelle, atuam como vigilante e auxiliar de enxoval, respectivamente

Saudades

A auxiliar de limpeza do Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes, Francisca Everlânia Barbosa, 37 anos, assim como Lilian, precisou se distanciar da família, antes tão próxima de si. A filha de 9 anos, Luiza Thaylla, tem dificuldade em entender o afastamento necessário.

“Às vezes ela chega para mim e diz ‘mamãe, porque você não pode me beijar?’. Ela me pede um abraço e eu não posso dar. Não posso beijar, como fazia. Isso dói muito. Eu sinto muita falta do abraço e do beijo dela”. 

Desde o início da pandemia, Francisca explica que sua vida mudou completamente e o medo de levar o vírus para casa a fez tomar medidas de segurança ainda mais cuidadosas, tanto no ambiente do lar, quanto de trabalho.

“É um cuidado dobrado. Cuidado na hora de vestir os equipamentos, na hora de fazer a limpeza, de esterilizar uma cama”, afirma. Em casa, esteriliza a sandália, toma banho no quintal e utiliza sempre um borrifador com cloro. 

A surpresa da mudança veio em primeiro momento como medo. “Eu não vou mentir, lá quando começou da pandemia, eu fiquei amedrontada, eu pensei ‘não vou ficar mais aqui não, senhor’”, mas depois a calma veio e conseguiu se organizar para continuar o serviço de limpeza, essencial para qualquer unidade de saúde.

Cuidados 

A gerente adjunta do setorial de enxoval do Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes, Michelle Maria da silva, 42 anos, relata que o ritmo de trabalho aumento mais ainda após os casos da Covid-19. A equipe é responsável por distribuir e coletar as peças do enxoval utilizado no hospital para que uma empresa terceirizada faça a lavagem.

Nos corredores hospitalares, utiliza sempre o avental, a máscara e o gorro no cabelo, para garantir a segurança dos profissionais que atuam nesse serviço.  “Se eu dissesse para você que não tenho medo, estaria mentindo, pois também estamos na linha de frente, né? Trabalho em hospital, mas tomo todos os cuidados possíveis para não me expor”, comenta Michelle.

Apesar de todos as dificuldades enfrentadas cotidianamente no combate à pandemia, a gerente do setorial declara que nunca pensou em desistir. “Pelo contrário, me deixou mais aguçada ainda, com a vontade de trabalhar e poder ajudar um todo, até porque nós aqui no HM, nós somos uma equipe, nós estamos nos mesmo barco e procuramos sempre trabalhar juntos”, finaliza.



Redação 03 de Julho de 2020