Cineteatro São Luiz narra os hábitos e a história da Capital

Um dos principais e mais belos atores do Centro costura gerações e tece memórias entre as Fortalezas antiga e atual

Escrito por
Theyse Viana - Repórter producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 11:59)

O traço das letras é firme, quase desenhado, tamanho o capricho: "1958. S. Luiz: Trapézio, colorido, com Burt Lancaster e Gina Lollobrigida." O título e a brevíssima ficha técnica do primeiro filme a que a professora Maria Dulce Pinto, 75, assistiu no Cineteatro São Luiz tatuam em azul, até hoje, as páginas já amarelas do caderno de recordações, cujas linhas iniciais foram escritas em março daquele ano, na semana de inauguração do equipamento - que completa, hoje, 60 anos como um dos mais importantes para a história e para a identidade de Fortaleza.

O caderno-relicário não permite engano: apenas em 1958, entre as telas dos cines Samburá, Diogo e São Luiz, todos na Capital, 52 películas entranharam-se no vasto repertório cultural e na memória da "cinéfila de carteirinha" - 27 deles vistos das poltronas vermelhas do maior cinema do País, à época. "Eu tenho uma relação afetiva com o São Luiz, ele fez parte da minha juventude. Foi lá onde assisti aos excelentes filmes daquele tempo. Se a programação mudasse três vezes por semana, nas três eu ia pra lá. Todos os filmes da semana da inauguração eu assisti!", exclama Dulce, descrevendo o furor com que os fortalezenses receberam a nova sala de cinema, erguida em pleno coração da Praça do Ferreira.

A primeira obra exibida no telão do grandioso recém-nascido, como relembra o historiador Miguel Ângelo Azevedo, o Nirez; foi "Suplício de uma saudade", em sessão restrita a autoridades da época. Só depois, o público que lotaria o cinema durante todo o resto da semana pode ocupar o espaço para assistir a "Anastácia, a princesa esquecida". "O São Luiz encontrou Fortaleza com alguns cinemas no Centro, mas também com a espera ansiosa do povo por ele, que vinha sendo construído há mais de 20 anos. A inauguração foi um acontecimento estrondoso na cidade", recobra Nirez.

Azar

Os dois primeiros anos de funcionamento foram tempos áureos para o cine, com "filas que dobravam o quarteirão" - período de um brilho que ainda cintila em olhos empolgados de lembrança. "Ele passou a ser um ponto de encontro da sociedade. Muitas pessoas ainda moravam no Centro, a Aldeota era mais central, e não a distante que vemos hoje. A gente mandava fazer vestido novo pra ir ver filme! Alguns usavam até luvas", envaidece-se Dulce, compartilhando de uma memória tão dela quanto da aposentada Maria de Lourdes Vieira - que por 44 dos 76 anos de idade cuidou do São Luiz como quem cuida de casa.

"Quando cheguei lá, em 1960, o prédio ainda nem estava todo construído. Eu me sentia privilegiada por trabalhar num local lindo daquele, limpava e trocava cada pedrinha daqueles lustres com todo o cuidado do mundo. Minha vida foi dedicada ao cinema", relata a ex-funcionária, que iniciou como espectadora, passou a auxiliar de escritório e chegou à gerência geral, cargo em que se aposentou, em 2004. "Antes de trabalhar lá, eu ia todo domingo com vestido 'melindrosa'. Depois, saía pra tomar sorvete na loja de variedades. As moças eram todas vestidas de saia de pregas, blusa branca, sapatos, meias brancas, porte bem elegante", descreve, com uma saudade que cerra os olhos e a transporta à Fortaleza antiga em que os homens só podiam ir ao cinema de paletó e gravata.

"Não havia shoppings na cidade, então o divertimento era vir, olhar as vitrines, tomar um sorvete... Alguns acham isso provinciano, mas não é exatamente o que fazemos hoje?", compara Nirez, lamentando, porém, a "decadência" pela qual o cinema sexagenário passou. "O azar do São Luiz foi ter sido inaugurado dois anos antes de ser criada a TV Ceará. Com a televisão, os cinemas foram perdendo público, até se extinguirem".

Para a professora Dulce, que investiu a juventude nas poltronas do cineteatro, e, hoje, só frequenta cinemas de shoppings; o São Luiz segue vivo, mas os tempos atuais não têm tanto encanto. "Hoje é uma dificuldade da gente ir pro Centro, não tem onde estacionar, é perigoso. O cinema não tem a magia que tinha na minha época. Era um evento! Você planejava, vivia, paquerava, via pessoas...", enumera - negando, entretanto, o rótulo de saudosista.

Renovação

Se uma geração inteira viu a tela do São Luiz se iluminar pela primeira vez nos anos 1950, décadas depois, em 2015, outra presenciaria o renascimento do espaço. Isso porque após ser adquirido pelo Governo do Estado, em 2011, o prédio ficou desativado, passou por restauração e foi reaberto apenas quatro anos depois - trajetória contada em documentário, álbum de figurinhas e exposição de fotos e documentos pelos jornalistas Paulo Cardoso e Ana Luiza Soares.

"O primeiro filme que vi foi no São Luiz, acompanhado do meu pai. Era O Quarteto Fantástico. Eu lembro que a gente foi de ônibus, a fila era enorme, dobrava a esquina da praça. Aquilo foi muito marcante pra mim", relata Paulo, 22, cuja maior surpresa foi ver que o amor pelo São Luiz era compartilhado por tantos - e ignorado por tantos outros. "Não imaginávamos o que ele significava para a vida de tantas pessoas. Foi o principal cinema da nossa cidade, e ainda assim muita gente da periferia não conhece. Percebemos como a cultura ainda é tão inacessível", lamenta, rememorando as reações que presenciou no Cuca Mondubim, em Fortaleza, ao expor a história sexagenária do cineteatro - tombado como patrimônio histórico e cultural pelo Governo do Estado em 1991.

 

"Quem é e qual é o lugar do São Luiz hoje?"

As colunas imponentes emolduram o telão e as cortinas quase sempre abertas no palco. Nas paredes listradas, dourado, azul, rosa e esses tons que sopram ares de riqueza abraçam as 1.050 poltronas vermelhas, sob um teto-obra de arte. Não é difícil sentir orgulho por tê-lo assim, tão belo há seis décadas, ainda que coberto por camadas de reformas e demãos de tinta. Somente no ano passado, R$ 4,6 milhões foram investidos no cine, administrado pela Secretaria de Cultura do Ceará (Secult).

Segundo a diretora do cineteatro, Rachel Gadelha, "foi preciso muito trabalho" após a reabertura para reaver a "identidade" do equipamento. "Fomos em busca do passado para entender a vocação do local, mas sabendo que deveríamos ressignificá-lo. Quem é e qual é o lugar do São Luiz hoje?", questiona, retoricamente, a gestora, apontando a inclusão de todos os públicos como desafio constante.

O cinema construído por Luiz Severiano Ribeiro em Fortaleza como "o maior do País" trouxe à cidade, à época, o sentimento de pertença pela sétima arte - mas, ainda hoje, acessá-la ainda não é privilégio de todos. "A democratização e a pluralidade são projetos de médio e longo prazos. Até atrair o próprio Centro, lojistas que venham no fim do expediente e voltem com as suas famílias, é um trabalho de conquista", reconhece, pontuando, ainda, os projetos incluídos na programação para "trazer crianças, jovens e idosos de bairros distantes".

"As atrações são para quem gosta de arte e quem ainda não sabe que gosta. O São Luiz foi porta de entrada e contato com a arte para muitas gerações, e é preciso que continue cumprindo essa missão. O sonho da gente é que o São Luiz se torne tão necessário e importante para a cidade que nunca mais seja preciso fechar", projeta a diretora, definindo o cineteatro como "elemento humanizador do Centro". "Domingo à noite, o Centro não tinha nada. Agora, esses dias têm sido maravilhosos no São Luiz. Isso cria hábitos, ocupa espaços públicos e fornece novos usos à cidade", comemora.

Nesta segunda-feira, o cineteatro promove uma programação especial de aniversário, com apresentações musicais e exibição de filme a partir das 12h30. As atividades são gratuitas e seguem até amanhã (27).