Beleza de Vanessa Vidal silencia preconceitos
Segundo lugar no concurso para miss Brasil, ela colocou na ordem do dia a inclusão como caminho para a paz
“A falta de um dos sentidos nunca me impediu de crescer, evoluir amar e ser feliz”. A afirmação é de Vanessa Vidal, 25 anos, que literalmente roubou a cena no concurso para Miss Brasil 2008. Deficiente auditiva, oralizada e estudante de duas faculdades, nela até mesmo a diferença concorre para despertar atenções.
E o protótipo de isolamento ou tristeza, esperado em quem não recebeu o dom de ouvir, cai por terra. E não só pela beleza, mas também pela simpatia, inteligência, alegria e meiguice. E, ainda, pela firmeza com a qual demonstra defender a luta pela acessibilidade para as minorias.
“Fiquei muito feliz, e também a comunidade surda do Brasil, pois é mais uma grande conquista de inclusão social”, lembra. Embora já tenha conquistado o título de Miss Ceará, os desafios de Vanessa não param aí. Ela se prepara para participar do concurso Miss Brasil Beleza Internacional, que será no Japão, no mês de outubro.
Vôos mais altos
Novos vôos não estão descartados. “Quem sabe, ser atriz ou entrar para a política, pois trabalho com pessoas com deficiência”, anuncia, explicando já fazer parte de um grupo de voluntários. “Abraço mesmo a causa dos deficientes”. Esse é um dos motivos do sentimento de vitória que a invadiu com as colocações em concurso de beleza. “Precisamos viver em harmonia e em paz”.
Natural de Fortaleza, Vanessa tem boas lembranças da infância, isso graças ao carinho e apoio da minha família. “Principalmente minha mãe, que tudo fez e faz para o meu crescimento. Fui uma criança amada”. Enfatiza terem vindo da mãe Eudóxia Lima os estímulos fundamentais nos estudos.
Contudo, considera que enfrentou dificuldades devido à surdez, apesar de ter freqüentado escolas especiais e recebido um importante acompanhamento fonoaudiológico. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) — “a minha língua oficial” — ela só pôde aprender aos 13 anos. “Houve muito esforço, mas sou oralizada”, lembra, com orgulho. “Tenho uma boa leitura labial, sou bilíngüe, falo em Libras e em Português, então tenho uma comunicação plena”, afirma.
O primeiro trabalho foi como modelo e, embora não relate, enfrentou preconceitos. “A vida não é fácil, principalmente quando se tem alguma limitação (...), mas sempre lutei pelo meus ideais, pelos meus sonhos”, depõe.
Informa que, hoje, sua agenda está agitada, um pouco sem tempo até para as coisas do coração, mas já namorou rapazes surdos e também ouvintes.
FIQUE POR DENTRO
Surdez: o que prevê a legislação brasileira
O Decreto Lei Nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, disciplina o apoio ao uso e difusão da Libras (Língua Brasileira dos Sinais). E seu artigo 26, determina que o poder público, as empresas concessionárias de serviços públicos e os órgãos da administração pública federal, direta e indireta, devem garantir às pessoas surdas o tratamento diferenciado, por meio do uso e difusão de Libras e da tradução e interpretação de Libras. O parágrafo primeiro desse artigo diz que as instituições acima devem dispor de, pelo menos, cinco por cento de servidores, funcionários e empregados capacitados para o uso e interpretação da Libras.
Dentre outras coisas, o decreto lei prevê, no artigo 29, que o Distrito Federal, os Estados e os Municípios, no âmbito de suas competências, definirão os instrumentos para a efetiva implantação e o controle do uso e difusão de Libras e de sua tradução e interpretação.
VIDA EM NOVA FASE
“Hoje, estou mostrando que sou capaz”, diz servidor da UFC
O primeiro servidor surdo da Universidade Federal do Ceará, Fábio Luiz Benício Maia Nogueira, não esconde seu orgulho em ter ingressado na UFC.
“Hoje, estou mostrando a todos que realmente sou capaz, como qualquer um”, dispara. A satisfação não é para menos. Como servidor da Pró-Reitoria de Planejamento da instituição desde junho de 2006, Fábio Luiz diz ter entrado em uma nova fase da vida, de muitas aprendizagens no ambiente de trabalho, onde executa serviços administrativos.
Mas nem sempre foi assim. Até ser aprovado em concurso público para a UFC, procurou vários empregos. As dificuldades para ingresso no mercado de trabalho deixavam-no profundamente insatisfeito.
“Nós, surdos, podemos ter uma vida normal como qualquer um”, enfatiza, explicando que a surdez ainda é tabu na sociedade. E informação é a maior arma para derrubar as barreiras do preconceito e evitar que a população deficiente seja excluída e marginalizada.
Sem acomodação
A perda de um dos cinco sentidos não fez Fábio Luiz se acomodar. Aos 29 anos, casado, utiliza a Língua Brasileira de Sinais, faz leitura labial, é graduado em Administração de Empresas pela Faculdade Unice e tem pós-graduação em Administração Financeira pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA).
Muitas das barreiras para inclusão, sugere, precisam ser desmistificadas. No mercado de trabalho, devem prevalecer a personalidade de quem se está empregando, a qualificação e a inteligência. “Defeitos ou limitações todos têm”, pondera.
Segundo ele, muitos quando olham para alguém diferente, seja qual for a deficiência, logo pensam em dó, incapacidade, limitações ou até mesmo sentem desprezo.
“A sociedade precisa ter mais conhecimentos sobre o potencial que essa pessoa pode desenvolver se tiver oportunidade”, reitera ele.
A superação das barreiras depende de atitudes isoladas, mas também de vontade política e, principalmente, humanitária, frisa.
“Assim, os programas existentes e outros futuros obterão resultados positivos e o deficiente ter a sua cidadania preservada, viver em clima de harmonia e paz”, enfatiza.
Com um histórico de superação, Fábio não pára de transpor barreiras. Embora a surdez contribua para desenvolver qualidades como concentração e sensibilidade, considera de grande valia ao exercício de suas funções se pudesse contar, em seu ambiente de trabalho, com um intérprete de Libras (Língua Brasileira dos Sinais). Lutador incansável, ele já fez ofício ao reitor da Universidade Federal apresentando sua reivindicação.
Mais batalhas virão, entretanto, como qualquer outro cidadão comum, Fábio não se furtará de enfrentar as dificuldades e buscar soluções.
FORÇA INTERIOR
Psicóloga aprende com a adversidade
“A sociedade é preconceituosa e sem nenhum preparo para receber uma pessoa com limitações físicas”, observa Bárbara Valões de Oliveira, 26 anos, paraplégica e psicóloga.
Apesar da frase, Bárbara nem de longe é amarga, desolada ou triste, pelo contrário. Exemplo de grandeza espiritual e de amor à vida, a jovem declara: “Sou feliz, muito mais que há quatro anos, pois tenho o privilégio de conviver com pessoas ricas, ricas de amor, de carinho, de respeito ao próximo e isso me dá forças para lutar por aqueles que não conseguiram chegar até aqui”.
A dimensão dessa força é ainda maior considerando os desafios que já enfrentou e vem enfrentando, desde 20 de março de 2004, quando sofreu uma queda a uma altura de dois metros e meio. O acidente foi acompanhado de uma remoção incorreta, que a deixou paraplégica devido a uma lesão na medula. Na época, ela foi submetida a uma cirurgia para que as vértebras fossem posicionadas novamente e recebeu duas placas de titânio e oito parafusos. A partir daí, sua vida tomou outro rumo.
“Sinto, ainda hoje, uma dor chamada neuropática e, por conta disso, tomo uma série de medicamentos para aliviar e poder viver com qualidade”, diz. Recorda que, três meses após o acidente, se internou em um hospital de reabilitação. “Diante desse mundo novo, em que me deparei, uma nova Bárbara também estava em construção...”, reflete.
Foram meses sem poder alimentar-me, vestir-me, pentear-me e sentar-se por falta de equilíbrio no tronco. Quando saiu do hospital, buscou recompor o equilíbrio psíquico abalado pelo sofrimento. Também, logo, se deparou com o despreparo da sociedade em conviver com as diferenças.
Ainda cursava faculdade na UFC e convencer a todos que gostaria de continuar o curso de Psicologia, mesmo acamada, foi o seu primeiro desafio. “Não perdi um só semestre, uma só cadeira...”. Mas, quatro meses após o acidente, já nos bancos da universidade, se deparou com um obstáculo: a acessibilidade. Faltavam vagas adaptadas no estacionamento para carro — que transportam deficientes —, banheiros e rampas. “Comecei uma luta solitária para ter o direito de assistir às aulas com dignidade”.
Hoje, depois de muitos percalços, a psicóloga Bárbara faz atendimento clínico com base na Gestalt Terapia, participa ativamente de um Grupo de Acessibilidade Humana, integra a Associação Elos de Vida ... . “Convivo com a adversidade e amadureço com ela”.
Mozarly Almeida
Repórter