Avenida Santos Dumont avança sem preservação histórica

Com mais de dois séculos de existência, a avenida reserva poucas edificações que marcaram a história de Fortaleza. Segundo especialistas, a maior parte dos casarões foi demolida ou transformada em comércio

Legenda: Imagem atual da Avenida Santos Dumont, no Bairro Aldeota, sem marcas do passado
Foto: Foto: Paulo Alberto

O avanço da Avenida Santos Dumont acompanhou o crescimento de Fortaleza por mais de dois séculos. O caminho que une o mar ao Centro da cidade já transportou histórias pelas margens do asfalto, que antes foi pedra e terra batida. Hoje, o que resta da memória da Capital em volta da avenida é escasso, e a tarefa de perpetuá-la recai sobre livros, fotos e a fala de quem viveu a época ou se dedica a pesquisá-la.

A preservação do valor histórico da via é um dos desejos de Eliézer Rodrigues, expressos no livro "A avenida Santos Dumont no contexto da cidade". A obra mais recente do autor e jornalista será lançada nesta quarta-feira (13), às 19h, no Tribunal Regional do Trabalho, e discute o passado e as transformações da avenida, dos bairros e demais aspectos urbanos que a cercam.

"O que eu percebo é que, dos tempos antigos, muitas casas foram derrubadas, poucas foram preservadas. Eu sempre tive um interesse pela preservação do patrimônio histórico do Ceará, porque é a minha terra. Mas não existe, com tanto fervor, uma determinação pública nem particular para manter essas construções, da forma como a gente vê em outras cidades", lamenta o autor.

A avenida, segundo ele, era possivelmente a rua mais importante na época, em um bairro que, embora quase desabitado, abrigava "grandes colégios", como a Escola Normal - Colégio Justiniano de Serpa, inaugurado em março de 1884, o Colégio da Imaculada Conceição, e o prédio onde funciona o Colégio Militar, também do século XIX.

Rodrigues cita o Castelo do Plácido como a maior perda de patrimônio ligada à Avenida Santos Dumont. A estrutura imponente foi erguida pelo comerciante e empresário Plácido de Carvalho, em meados de 1920. A residência cumpriu uma promessa feita por Carvalho à italiana Maria Pierina Rossi, que conheceu durante uma viagem à Europa.

Nuances

A condição imposta por Pierina para se casar com o comerciante e mudar-se para o Brasil seria a construção de um castelo. Dito e feito. "Ele comprou a planta de um castelo italiano, trouxe para Fortaleza e mandou construir", explica Rodrigues. O imóvel ocupava o espaço onde hoje se encontra a Central de Artesanato do Ceará (CeArt), na Praça Luíza Távora.

O Castelo do Plácido foi demolido na década de 1970, após o terreno ser vendido para um grupo. Em seu lugar, seria estabelecido um supermercado, o que nunca aconteceu. "O que eu percebi foi essa transformação, que é lamentável. A partir do cruzamento com a Avenida Desembargador Moreira, já é uma Santos Dumont nova, até a Praia do Futuro. Antes desse trecho, você observa que ainda têm prédios antigos. Não estão no formato original, mas há nuances de que existiu uma construção antiga", diz.

Para o professor de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), Sebastião Rogério da Ponte, pouco há para se preservar das memórias que cercam a Avenida Santos Dumont. "O que se tem para conservar são os poucos casarões que restam. Os palacetes e bangalôs que existiam na Aldeota foram demolidos ou transformados em pequenos comércios. Deve-se preservar o que heroicamente resistiu".

A continuidade da via foi sendo construída a partir da ocupação da região Leste de Fortaleza, que só veio a se tornar um bairro com casas numerosas a partir da década de 1930, de acordo com o professor e autor do livro Fortaleza Belle Époque. "Houve esse movimento, sobretudo, por parte das elites, que migraram de bairros como a Jacarecanga. Foi a mesma época em que começaram a se utilizar do mar como forma de lazer. É aí que aparecem as casas boas e elegantes próximas às praias, além dos bangalôs e palacetes da Aldeota", relata Sebastião da Ponte.

Com isso, se fez necessária a extensão do Centro ao Leste, visto que muitos dos moradores de casas construídas na região ainda trabalhavam na parte central da cidade. A avenida chegou definitivamente à Praia do Futuro na década de 1970, segundo Eliézer Rodrigues, e chegou a ter outros nomes, como Rua do Colégio, em referência ao Colégio da Imaculada Conceição.

Percurso

"Não existe um marco de quando a Santos Dumont foi inaugurada, mas as pessoas começaram a morar no entorno dela a partir do século XIX. Um fato marcante desse período foi a implantação dos bondes puxados a burro. Esses bondes só circulavam no Centro, e em 1896 foi feita uma linha para a Aldeota", detalha Rodrigues. Ele ressalta que a própria Aldeota já assumiu outros nomes, como Outeiro e bairro Santos Dumont.

A aposentada Siglinda Barroso não chegou a vivenciar os tempos de Outeiro, mas lembra-se bem do percurso que traçava após o fim das aulas no Colégio da Imaculada Conceição, em direção à sua casa na Avenida Santos Dumont, na altura do bairro Aldeota. "Eu e minhas irmãs vínhamos a pé, desfrutando as casas. Parávamos na casa de uma colega para conversar, depois seguíamos para outra. Conhecíamos os vizinhos da casa da frente, do lado. Era um ambiente muito familiar", conta, com nostalgia.

Para ela, pouco se destacava no imóvel que foi ocupado por sua família entre a década de 1950 e o ano de 1971, exceto um fator: a casa serviu como residência oficial de seu pai, o então governador José Parsifal Barroso. "O único destaque dela foi porque nós éramos cinco irmãos e não cabíamos no palácio que tinha no Centro, então fomos morar na casa", revela Siglinda.

Hoje, a moradora do Meireles tenta se adaptar a uma nova realidade em meio à saudade das vivências ligadas ao bairro e à avenida. "A casa foi vendida há muitos anos, e o aspecto dela não é nada mais como era antes. A minha juventude foi toda lá. Ainda traz muitas boas recordações".

Binários

As modificações mais visíveis na Santos Dumont dos dias atuais se dão sobre a malha viária. Em 2014, foi implantado o binário das avenidas Santos Dumont e Dom Luís. Com a intervenção, a primeira via passou a funcionar no sentido inverso (Centro/Papicu), a partir da Rua Tibúrcio Cavalcante até o novo túnel. Foram colocadas três faixas para veículo, uma faixa preferencial para ônibus e uma ciclofaixa.

Já em abril de 2019, um desvio de trânsito foi implantado para a continuação do binário da Av. Santos Dumont. A intervenção começa no trecho compreendido entre o Túnel Barros Pinho - Santos Dumont sob Via Expressa - até a Rua Dr. Francisco Matos. A Rua Desembargador Lauro Nogueira seria a via alternativa ao bairro Aldeota. Com a extensão do binário já implantado em 2014 pela Prefeitura, propõe-se solucionar um dos problemas de fluxo no tráfego intenso da via.

Em sua obra mais recente, Eliézer Carvalho descreve que "a principal motivação para a extensão do binário reside no prolongamento desses benefícios ao trecho leste da Avenida Santos Dumont, que auxilia a ligação com a região sudeste da cidade".

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Redação 23 de Setembro de 2020