Aos 83 anos, Hotel Excelsior guarda a memória da Capital de outro tempo

O primeiro arranha-céu de Fortaleza, um dos protagonistas do Natal de Luz do Ceará, foi construído em 1931

Legenda: Em outubro deste ano, completaram-se 50 anos do fechamento do prédio como hotel. Imóvel abriga hoje a sede do consulado da Hungria no Ceará
Foto: Fotos: Lucas de Menezes

Um dos cenários principais do Natal de Luz do Ceará, que começou na sexta-feira, dia 28, por abrigar em seus janelões as crianças que cantam os hinos de Natal, o Hotel Excelsior é o edifício mais antigo ainda de pé na capital cearense.

O primeiro "arranha-céu" de Fortaleza foi inaugurado no último dia de 1931, como marco de um novo tempo que chegava à capital alencarina. Além de ser pioneiro com seus sete andares e um terraço, também foi um dos primeiros hotéis da cidade, em um tempo que Fortaleza ainda não tinha descoberto vocação para o turismo.

Em outubro deste ano, completaram-se 50 anos do fechamento definitivo do prédio como hotel, fato que se deu em 1964. Nos seus 33 anos de funcionamento, recebeu autoridades, artistas do cinema e cantores nacionalmente conhecidos, conforme os registros do pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez.

Entre os hóspedes do estabelecimento, estiveram, por exemplo, o presidente Juscelino Kubitschek e o cineasta Orson Welles. No seu terraço, funcionou por muitos anos o American Bar, cenário de recepções de festas da sociedade, por sua vista privilegiada, já que aquele era o maior prédio da cidade de Fortaleza de então. Também era equipado com salão de beleza e barbearia, para comodidade de seus hóspedes.

O prédio foi erigido no cruzamento das ruas Major Facundo e Guilherme Rocha, onde antes estivera o casarão do comendador Machado, o único da cidade a ter três pavimentos, de acordo com o livro "História Urbana e Imobiliária de Fortaleza - biografia sintética de uma cidade", dos jornalistas Cláudia Albuquerque e Lira Neto.

O Hotel Excelsior é também anterior à própria Coluna da Hora, um dos símbolos de Fortaleza, localizada na Praça do Ferreira, que só se ergueria dois anos depois, em 1933.

Ainda segundo o livro de Lira Neto e Cláudia Albuquerque, o primeiro passo dado para a verticalização da cidade se deu após a inauguração do hotel. "Com o Excelsior Hotel, Fortaleza ensaiava seus primeiros e discretos movimentos de verticalização, fenômeno que teria prosseguimento nos anos seguintes, com uma série de novos edifícios erguidos no Centro, a exemplo do prédio dos Correios e Telégrafos, em 1934 e do Edifício Parente, em 1936".

A expansão desordenada de Fortaleza também teve início nos anos 1930. "Ao mesmo tempo que apontava para o alto, a capital cearense se dilatava ainda mais no sentido horizontal. Um observador situado à janela do último andar do Excelsior divisaria, para qualquer direção que olhasse, a massa dos telhados que se estendia ao longe. Uma série de bairros brotara ao redor do Centro, a perder de vista", pontuam os autores.

Mudanças

Para o arquiteto e historiador Álbio Sales, durante as mais de três décadas de funcionamento do Excelsior, Fortaleza tornou-se outra cidade. Mais ampla, mais comercial e também com mais contradições. "Na década de 1930, Fortaleza ainda era aquela da virada do século. Tudo se concentrava na parte central. As residências das famílias mais abastadas estavam nos Boulevards Dom Manuel, Imperador e Tristão Gonçalves. Depois, com a expansão do comércio, a elite se muda para sítios mais distantes, como o Jacarecanga e o Benfica", pontua.

O Excelsior também é o último representante da arquitetura eclética. "Em 1931, a arquitetura dominante ainda era a eclética, nos padrões da Belle Époque. A modernidade só chegaria por aqui em 1950 e 1960. E a França só vai diminuir um pouco sua influência após o fim da Segunda Guerra, com o advento do cinema, exaltando os costumes americanos", destaca o arquiteto Álbio Sales.

Já em 1964, Fortaleza era outra. "Apesar de ainda não existir a Faculdade de Arquitetura, alguns desenhistas, formados fora do Ceará, assinavam projetos, como Mainha e Neudson Braga. O comércio também começava a se descentralizar, expandindo-se para locais como Avenida Bezerra de Menezes e o Montese. A Aldeota passa a ser o novo local de morada para as famílias mais abastadas", rememora o historiador cearense.

Mitos e verdades

Ao contrário do que muitas vezes foi dito, o Hotel Excelsior não é o maior prédio em alvenaria do mundo. Quem afirma é o professor aposentado do curso de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará (UFC), Liberal de Castro. "O Excelsior Hotel começou a ser construído como um prédio de alvenaria de tijolos de três pavimentos por volta de 1928/1929. Às tantas, o proprietário, Plácido de Carvalho, entendeu de elevá-lo para oito. Houve alerta dos engenheiros sobre os perigos. Em consequência, o proprietário contratou o engenheiro Archias Medrado, o qual calculou uma estrutura de concreto armado complementar", ressalta o professor. A informação também é confirmada por Nirez, em seu livro "Cronologia Ilustrada de Fortaleza".

Além de o Excelsior não ser totalmente em alvenaria, mesmo se tivesse sido todo construído dessa forma, não seria o maior do mundo, nem mesmo naquela época. "Na Europa e nos Estados Unidos, há inúmeros prédios de alvenaria com oito ou mais andares. O edifício de alvenaria de tijolos mais alto do mundo é o Monadnock Block, na cidade de Chicago, EUA, com 17 pavimentos, construído em 1891. Certamente você já ouviu dizer que o Excelsior é o mais alto edifício do mundo construído de alvenaria de tijolos. Trata-se de um duplo equívoco, como se vê...", explica Liberal de Castro.

Imóvel já teve três proprietários

Durante os últimos 83 anos, o mais antigo "arranha-céu" de Fortaleza teve três proprietários. O primeiro foi Plácido de Carvalho. Dono de outros prédios importantes de Fortaleza no início do século XX, antes do Excelsior, construiu, em sociedade com Alfredo Salgado, o Cine Teatro Majestic Palace, com quatro andares, também na Praça do Ferreira. Entre os seus negócios, também estavam o Cine Moderno, a Fábrica de Cigarros São Sebastião, a Casa Palace e uma fábrica de mosaicos.

Um dos mais lembrados, entre os seus empreendimentos, é o castelo que construiu para morar com a esposa, a italiana Pierina Rossi, no Outeiro, hoje Aldeota, ainda na primeira década do século XX. Nos anos 1970, o imóvel foi demolido e hoje o terreno é ocupado pela Central de Artesanato Luiza Távora (Ceart).

O memorialista Marciano Lopes cita o castelo no livro "Divinas Damas", em capítulo dedicado a Pierina: "Ocupando o espaço de uma quadra entre as atuais ruas Santos Dumont e Costa Barros, Carlos Vasconcelos e Monsenhor Bruno, era uma construção fabulosa. Com cinco pavimentos, incluindo o térreo e a torre, ficava em meio a deslumbrante relvado e canteiros de flores".

Após a inauguração do prédio, o casal divide temporadas entre o castelo e o Excelsior. E é em um dos quartos do hotel que Plácido vem a falecer, em 5 de junho de 1935.

No ano seguinte, segundo Marciano Lopes, Pierina contrata o arquiteto húngaro Emilio Hinko para construir seis casas parecidas com o castelo, ao seu redor, na mesma quadra. Em 1938, após o término das obras, os dois se casam e não voltam a morar no castelo maior. Ela morre em 1957 e após seu falecimento, o hotel é arrendado.

O húngaro Emilio Hinko, após se tornar um arquiteto de sucesso, traz parte da família para o Ceará, já que a Hungria, após a adoção do regime comunista, passa a oferecer menos oportunidades de trabalho para o seu povo. E entre seus parentes, está o único herdeiro vivo do arquiteto no Brasil, o cônsul geral honorário da Hungria, Janos Fuzesi Junior, hoje proprietário do Hotel Excelsior.

Entre as lembranças, em seus 88 anos, está a data da chegada ao Brasil. "Chegamos aqui em 2 de janeiro de 1949. Eu, meu pai, minha mãe e minha avó viemos de Budapeste e fomos morar em um dos castelinhos da Avenida Santos Dumont", recorda.

Mais tarde, após o hotel ser fechado, a família mudou-se para lá. "Como nós morávamos todos juntos na casa da Santos Dumont, quando nos mudamos para o hotel, ficou mais confortável, cada um tinha o seu lugar. Foi aqui no Excelsior, depois do meu casamento com a Albaniza, que é cearense, que meus filhos, Irma e Janos, foram criados", fala, mostrando a foto do filho mais velho, criança, afixado na parede da sala de Janos.

Hoje, apenas o primeiro andar do prédio funciona, onde está a sede do consulado da Hungria, a administração das empresas da família e um restaurante. Ao lado da sala de Janos Fuzesi Junior, uma porta o separa de um quarto com banheiro, como antigas as suítes do hotel, com móveis em estilo colonial, em que o cônsul faz a sesta após o almoço, como que voltando ao tempo em que o hotel era considerado o mais luxuoso do Ceará.

Saiba mais

O Hotel foi fundado em 31 de dezembro de 1931.

Mobília veio da Europa. Entre os itens, lençóis e toalhas de mesa em linho irlandês, móveis e lustres no estilo Art-Nouveau e piano de cauda Donner para o salão de jantar.

No terraço, funcionou durante muito tempo o American Bar, cenário de elegantes recepções.

A aviadora Amélia Earhart, o cineasta Orson Welles e os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas estão entre os hóspedes ilustres.

Ao todo, tinha 120 apartamentos e 13 suítes.

Kelly Garcia
Repórter