Ação pontual, faixa para moto em Fortaleza ajuda a reduzir acidentes em 30%

O resultado das faixas que priorizam os usuários de motos nas paradas em semáforos é real, segundo a Prefeitura. Mas medida não avança em questões estruturais do trânsito. Especialista enfatiza necessidade de foco em educação

Legenda: Previsão da Prefeitura é que todas as vias que forem requalificadas recebam as faixas para motos
Foto: Foto: Helene Santos

Implantadas nos últimos anos como parte da política de segurança viária de Fortaleza, as faixas de retenção exclusivas para motociclistas, embora adotadas como uma medida paliativa, têm dado resultado prático: a redução de 33,24% no número de acidentes entre veículos automotores nos cruzamentos que dispõem do dispositivo, segundo levantamento da Prefeitura.

Na análise foram consideradas as situações de 250 interseções semaforizadas durante 24 meses, em média, antes da implantação do projeto e de 12 meses após a medida. O número de ocorrências nesses locais passou de 367 para 245.

A iniciativa é capaz de reduzir danos a uma categoria que, historicamente, lidera as estatísticas fatais no trânsito. Mas em uma cidade que ultrapassa o número de 300 mil motocicletas nas ruas, segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-CE) até dezembro de 2019, sanar o problema que expõe seus usuários a situações de risco deve ter como direcionamento uma mudança estrutural e, nesse caso, o efeito da adoção de uma medida paliativa pode não se refletir diretamente na cultura de motociclistas.

Para o professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), Mário Ângelo Azevedo, é preciso prevenir - no âmbito educacional - comportamentos imprudentes como o excesso de velocidade e o não uso dos equipamentos de segurança, além de intensificar a fiscalização.

"Trabalhar a educação é um processo longo, ainda mais se forem com adultos. O ideal é educar as crianças para que não se transformem em condutores imprudentes. A motocicleta é um veículo prático, mas em um choque o usuário fica tão vulnerável quanto um pedestre e um ciclista".

De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), em seu artigo 192, motoristas e motociclistas devem manter uma distância segura lateral e frontal entre o seu veículo e os demais, sob pena de infração grave. O professor Mário Ângelo esclarece que o motociclista não é proibido de circular entre os carros, mas admite que em virtude das pistas estreitas, o pouco espaço acaba se tornando um risco.

Nesse contexto, a recomendação é ter prudência, acrescenta ele. "A princípio, as faixas de retenção aumentam aquele movimento entre os automóveis para se chegar até elas, mas se os acidentes estão reduzindo, me parece interessante a iniciativa. É preciso investir em campanhas e fiscalização. Além de causarem problemas às vítimas, os acidentes têm seus custos. O acidentado é atendido em hospital público, depois atendido pela Previdência Pública, então a sociedade como um todo divide as consequências", comenta o professor da UFC.

Impactos

Ainda como resultado prático das faixas de retenção, a redução de acidentes, segundo a Prefeitura, levando em consideração só os motociclistas como vítimas, chegou a 30,1%, passando de 243 para 174. Atualmente, 270 cruzamentos da Capital possuem a intervenção, que permite ao usuário da motocicleta a prioridade na saída do local, na abertura do semáforo.

O motociclista e educador de trânsito Fábio do Nascimento Ribeiro, admite a eficácia das faixas na redução de conflitos por espaço.

"Às vezes, os motociclistas paravam e os motoristas atrás avançavam um pouco até mesmo por não saber a distância. Na saída era mesmo complicado. Vamos torcer para essa queda de acidentes continuar".

Para ele, no entanto, o maior risco para a categoria está na falta de atenção no trânsito e no excesso de velocidade "Como educador de trânsito, eu converso muito sobre isso com meus alunos", comenta.

Ainda em fase de testes em algumas cidades brasileiras, segundo o superintendente da Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), Arcelino Lima, o uso das faixas de retenção está em fase de estudo para ser incluído no Código de Trânsito Brasileiro. A expectativa com a conclusão do estudo, acrescenta, é que seja formalizado ao Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) essa inclusão.

Conforme Arcelino, todas os cruzamentos com disponibilidade de implantação da medida a receberão. O processo acontece à medida que as vias passam por uma revitalização da sinalização. "Em 2019, nós renovamos a sinalização de quase todas as avenidas das Regionais II, I e do Centro. Qualquer que seja a via que vai passar por alguma mudança, nós vamos implantar essa medida. Passou a ser uma diretriz nossa".

O superintendente da AMC, explica que as vias Expedicionários, Bernardo Manuel, Raul Barbosa, Perimetral, Godofredo Maciel, Rogaciano Leite, Presidente Costa e Silva, José Hipólito, Jucelino Kubitcheck, Engenheiro Santana Jr e Chanceler Edson Queiroz receberão as faixas até o fim do 1º semestre de 2020.

Além da iniciativa, afirma, estão previstas para o primeiro semestre campanhas educativas com foco nos motociclistas, "para o uso do capacete, para a Lei Seca e para os limites de velocidade", explica.

Opinião: Respeito ao espaço
Theyse Viana, repórter

"Trânsito deveria ser lugar de convivência, e não disputa. No meu dia a dia como mulher motociclista, é esta última que vejo. Moto é, historicamente, o transporte motorizado mais vulnerável, e lógico que muito disso vem da imprudência dos pilotos - mas não só. Se de um lado as "áreas de espera" garantem segurança na largada, do outro muita educação, bom senso e respeito ainda hão de ser impostos a motoristas de carros e ônibus para que percorrer a cidade sobre duas rodas (inclusive bikes) não se torne desafio de sobrevivência. Ultrapassagens repentinas, "finos" tirados sem razão e setas que nunca se ligam não são atitudes exclusivas de motociclistas. Preconceito e ódio, na vida e no trânsito, não levam a destino algum".

 


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