Mulheres abraçam a marcenaria profissionalmente; veja 6 dicas para começar

Com madeira de reflorestamento, elas constroem móveis e objetos funcionais

Nebulosa Atelier
Legenda: Dejane (foto) abriu o Nebulosa Atelier com Rayanne em 21 de março de 2021
Foto: Fabiane de Paula

Às vezes você só tem a curiosidade, mas caso resolva colocar a mão na massa em algo artesanal, pode encontrar não apenas um hobby, como também uma profissão. É o caso das meninas que integram os projetos Nebulosa Atelier, Mulheres Resolvem e TNPallet, marceneiras que começaram construindo móveis e objetos para si e depois fizeram disso a principal fonte de renda.

Dejane Grrrl, 30, e Rayanne Alves, 28, encontraram-se neste propósito durante a pandemia de Covid-19, ainda que a afinidade já viesse de bem antes.

“Nós sempre gostamos muito de móveis de madeira e somos apaixonadas pelos mais rústicos. Como nem sempre foi fácil encontrar objetos nas medidas necessárias, a exemplo de caixas para armazenar LP’s e sofá de pallets, fazer os próprios móveis e organizar os ambientes, indiretamente nos conectaram à marcenaria”, partilham as integrantes do Nebulosa Atelier.

Quando adolescente, Raissa Silveira, 40, tinha a mesma inclinação para decorar o próprio espaço. O irmão tinha algumas ferramentas em casa e logo a jovem pensou que, se ele podia usar, ela também poderia.

“Na minha casa quase toda a mobília é feita por mim. E tenho móveis e trabalhos meus no lar de quase todos os amigos”, conta a fundadora do Mulheres Resolvem, que abraçou este projeto pessoal como profissão junto com a sócia e colaboradora Lia Nunes, 43, e também com Lia Ciarlini, 36.

Raissa, do Mulheres Resolvem
Legenda: Raissa deixou a vida de concurseira para se dedicar à marcenaria: "Fazer o que se gosta é muito recompensador"
Foto: Lia Ciarlini

As duplas encontraram em vídeos na internet boa parte das teorias necessárias para dar início aos novos negócios, mas atribuem ao exercício a melhor estratégia de aprendizado. E neste sentido, Thaynara Morais, 24, do TNPallet, comenta sentir-se privilegiada por ter o próprio companheiro, Tiago Pontes, como professor.

Trabalhos manuais como a marcenaria, a pessoa aprende na prática e  vai  se aperfeiçoando com os erros. É muito importante pesquisar várias referências diferentes e a partir daí criar seu próprio estilo de trabalho”, diz.
Thaynara Morais
Marceneira

Thaynara
Legenda: Thaynara divide as funções igualmente com o companheiro Tiago Pontes

Desafios e conquistas

O trabalho em sociedade com o companheiro não isentou Thaynara de sofrer com o machismo no mercado. “Sempre foi e ainda é muito presente. Inclusive quando converso com o cliente, passando orçamento ou algo do tipo, por muitas vezes, eles me tratam como uma atendente e não como uma marceneira. Deixam de comprar ou fechar a encomenda quando descobrem que tem uma mulher presente na produção”, expõe ela.

Até mesmo nas redes sociais, quando resolveu definitivamente mostrar seu trabalho nos stories e publicações, chegou a perder seguidores pelo fato de postar fotos e vídeos fabricando os produtos.

“Decidi enfrentrar as dificuldades mesmo assim, fazendo o que realmente gosto, ganhando o meu espaço pouco a pouco, intensificando as postagens comigo produzindo e mostrando que marcenaria também é local de mulher”, sentencia Thaynara.

Thaynara
Legenda: A primeira criação de Thaynara foi um porta-chaves: "Fiquei tão orgulhosa, parecia um filho meu"

Raissa, do Mulheres Resolvem, enfrentou desafios semelhantes. Logo que começou a trabalhar com isso e ir à madeireira para comprar material, perguntavam se ela era arquiteta ou então achavam que era decoradora de interiores. 

Todos se surpreendiam quando eu falava que eu mesma produzia. Acho que o machismo coloca a mulher como frágil, então é como se a gente não pudesse desempenhar papel que exija força, por exemplo. Costumo carregar os materiais e fazer toda a parte pesada, pois não quero reforçar papéis que estigmatizam as profissões de acordo com o gênero e consideram a mulher inadequada para desempenhar, como é o caso da marcenaria”, observa.
Raissa Silveira
Marceneira

Raissa
Legenda: Raissa diz não trabalhar nem concorrer com móveis planejados, mas com mobílias soltas
Foto: Lia Ciarlini

Ela percebe, porém, que estamos avançando nesse contexto. “E acredito também que devemos ser promotoras dessa mudança, de não nos submetermos aos rótulos e de exercermos a profissão e o papel que quisermos, sem nos preocupar com eles”, pontua.

As meninas da Nebulosa Atelier, por exemplo, ainda não sentiram esse tipo de resistência e recordam com emoção o sentimento de tocar as primeiras peças que desenvolveram.

Dejane, Nebulosa Atelier
Legenda: Dejane é autodidata. Ela aprendeu a técnica com vídeos da internet
Foto: Fabiane de Paula

“Nossa, foi uma sensação incrível! Ter em mãos algo que foi feito por você mesma nos revigora, dá vontade de gritar ao mundo: ‘Olha, sim, nós mulheres também podemos fazer!’”, afirmam.

Ferramentas e matéria-prima para começar

Importante ressaltar que todos os projetos citados até aqui trabalham com madeira pinus (de reflorestamento). No caso das Mulheres Resolvem, entram também os painéis de MDF, que, segundo elas, é o material mais utilizado tanto para fabricação de móveis planejados quanto para mobílias.

Para trabalhar essa madeira e dar forma a cada peça, Thaynara, da TNPallet, indica o uso equipamentos bem específicos, que são: serra de bancada para cortes, parafusadeira para acelerar a junção das peças, lixadeira para acabamento, e outras ferramentas menores, mas não menos importantes como: serrote, formão, chave de fenda e martelo.

Legenda: As ferramentas podem variar de acordo com a madeira
Foto: Fabiane de Paula

Dejane, do Nebulosas Atelier, acrescenta, por exemplo, o uso de esquadros e alicate. Mas ela ressalta que o material necessário varia de acordo com o tipo de matéria-prima que se utiliza.

Quem trabalha com madeira dura, por exemplo, vai precisar de outras ferramentas para corte, como serra de bancada ou serra meia esquadria. Então tem que ter em mente qual tipo de produto você quer fazer, e investir nisso. Até brinco que é uma tico tico na mão, lixadeira na outra e bora lá!”, resume.
Dejane Grrrl
Marceneira

Entre os produtos criados por ela, estão móveis de pequeno porte em geral, como prateleiras multiuso, caixas organizadoras, estantes, suportes para notebook e móveis infantis inspirados na pedagogia montessoriana, na qual a criança tem mais autonomia para acessar seus livros e brinquedos. 

Legenda: Produtos do Nebulosa Atelier
Foto: Fabiane de Paula

Também são feitas luminárias personalizadas, abridores de garrafa e produtos para pet, que, junto com as prateleiras, é o que mais tem saída. “Fabricamos comedouros elevados, nichos e camas para gatos”, exemplifica.

Já Thaynara, trabalha com porta-chaves, artigos decorativos, nichos, cabideiros, cama, guarda-roupas, araras, mas o que mais tem saída são os porta-temperos, escrivaninhas e suporte para notebook. 

Legenda: Produtos da TNPallet
Foto: Divulgação

Raissa faz racks, mesas de cabeceira, estantes, mesas de jantar, de escritório, bancos, prateleiras e o que a imaginação permitir.

“Os que têm mais procura atualmente são mobílias e mesas para home office. Mas também móveis para sala e quarto, como rack e mesa de cabeceira. Nosso propósito de negócio é fazer mobília de ideias nossas, dos nossos clientes ou pensadas em conjunto que tenham um preço justo”, destaca.

Legenda: Produtos Mulheres Resolvem
Foto: Lia Ciarlini

Dicas de cursos e canais no YouTube

Se os exemplos acima de te convenceram a experimentar um pouco desse universo, ficam então mais algumas sugestões das meninas para quem está começando:

  1. Assistir vídeos e dicas dos canais LumberJills, das marceneiras Letícia Piagentini e Fernanda Sanino; Mania de Decoração, da designer de interiores Raíssa Guerra; e Studio 1202;
  2. Fazer o curso on-line do Mundo Marcenaria, de marcenaria de interiores;
  3. Procurar entender a função de cada máquina antes de  comprá-la para não adquirir equipamentos que não atendam a necessidade. A marca mais cara nem sempre é o que você precisa no momento;
  4. Não seguir tudo que vê na internet,  buscando informações com profissionais confiáveis;
  5. Usar sempre EPI para proteger a principal máquina da marcenaria, que é você;
  6. Procurar pessoas que te inspirem, permanecendo ao redor de quem acredita em você

Mulheres Resolvem
Legenda: Da esquerda para a direita, Lia Nunes, Lia Ciarlini e Raissa Silveira do Mulheres Resolvem

No começo, pode ser difícil, é verdade. Mas com essa rede de apoio, não tem erro :)

Serviço

Nebulosa Atelier: @nebulosa.atelier

Mulheres Resolvem: @mulheresresolvem 

TN Pallet: @tnpallet




 

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