Empreendedores mirins: saiba como funcionam os cursos para crianças e adolescentes

Foco é ensinar habilidades comportamentais que podem ajudar a criança no futuro, independente da escolha profissional

criança em computador
Legenda: Foco dos cursos é desenvolver os jovens em pontos que normalmente não são tratados no ensino formal
Foto: Shutterstock

O mercado de trabalho passa por mudanças, incluindo novas formas de trabalhar e foco no empreendorismo. De acordo com o Mapa de Empresas, do Ministério da Economia, o número de Microempreendedores Individuais (MEI) cresceu 8,4% em 2020 em relação a 2019, uma solução para conseguir renda em meio a um cenário de desemprego.  

Diante das mudanças, pais têm buscado somar outras habilidades para além do ensino formal ao ensinamento dos filhos, dando outros meios para uma futura carreira profissional. 

Na MBA Kids Brasil, que oferece cursos de empreendedorismo para crianças de 7 a 17 anos, o número de alunos cresceu 110% em 2021 em relação a 2020. Hoje, já são 218 matriculados.  

Para além do ensino formal 

A fundadora da MBA Kids Brasil, Maria Isabel Macegosso, conta que a ideia de criar um curso sobre empreendedorismo para crianças veio da vontade de acrescentar outros ensinos aos pequenos, incluindo assuntos que normalmente não entram na grade curricular das escolas brasileiras. 

Lá na Europa se fala de dinheiro, empreendedorismo, liderança [nas escolas]. Aqui no Brasil não se fala muito sobre isso, mas pensando no nosso ideal maior decidimos trazer. 
Maria Isabel Macegosso
Fundadora da MBA Kids Brasil

O curso apresenta de forma lúdica conceitos do mundo dos negócios, como lucro, dívida e fluxo de caixa. O objetivo também é trabalhar o desenvolvimento de habilidades comportamentais, como liderança, comunicação, autoconfiança, empatia e escuta ativa. 

A Escola Acelera tem o mesmo propósito. Segundo o co-fundador e diretor da instituição, Hugo Anselmo, o propósito é formar os jovens para as mudanças que estão ocorrendo no mundo profissional. Para ele, o curso surgiu de uma necessidade de mercado diante de escolas que são mais conteudistas. 

“A gente tem ambição de criar habilidades empreendedoras nos jovens que vão impactar o mundo. A educação que prepara os jovens para o futuro”, diz. 

O ensino é complementar às aulas formais. Ambas escolas ministram aulas com carga horária de apenas uma vez na semana.  

Desenvolvimento de projetos 

Ambas iniciativas trabalham o ensino do empreendedorismo com faixas etárias, apresentando conteúdos de complexidades diferentes de acordo com a idade dos alunos.  

Para além da teoria, a ideia é colocar os conhecimentos de forma prática na vida das crianças. Tanto na MBA Kids Brasil como na Escola Acelera os estudantes elaboram projetos que podem futuramente se tornarem negócios. 

“A gente tem o foco meramente educacional. A gente dá liberdade para se as crianças quiserem criar negócios, mas a gente tá mais preocupado que eles aprendam os processos. Não somos uma aceleradora de startups, fazemos a formação desses jovens”, reitera Hugo. 

Alguns projetos elaborados nas instituições de ensino chegam a sair do papel. Segundo as escolas, a divisão de lucros é feita apenas internamente pelas famílias. 

Mudanças comportamentais 

A professora Cristine De Angelis conta que percebeu mudanças em seu filho Vitor, de 11 anos, quando ele começou a frequentar as aulas na MBA Kids Brasil. Ele já é aluno da escola há quase um ano. 

A maneira do meu filho falar com a gente mudou. Ele consegue expressar coisas de uma forma diferente usando aquelas palavras. Coisa que eu aprendi adulta ele está vendo em uma linguagem lógica
Cristine De Angelis
professora e mãe de aluno

A mãe considera importante inserir conhecimentos relacionados ao empreendedorismo na vida das crianças, mesmo que elas não tenham que seguir esse rumo profissional no futuro. 

“De tudo que eu leio, eu acho que essa parte de empreendedorismo vem desde a criança pequena. A gente trabalha para a criança sonhar e sonhar é o primeiro passo para empreender. Desde criança pode trabalhar os sonhos, isso já faz parte do empreendedorismo”, diz. 

Filha da designer gráfico Dilci Moreira, Sofia, de 12 anos, já está há dois anos e meio matriculada na Escola Acelera. A mãe buscou a instituição de ensino para complementar a educação da filha. 

Dilci percebe que a menina conseguiu superar a timidez e aprender a falar em público. “Essa semana que passou ela estava com falta de estar no presencial, ela me disse que tem saudade de apresentar um trabalho. Antes ela era tímida e agora ela com saudade. Foi bem legal para mim ver que o desenvolvimento dela já chegou a esse ponto”, relata. 

Empreendedorismo mirim é legal? 

Apesar de o empreendedorismo ser uma profissão, o juiz do trabalho e professor Otávio Calvet delimita que a atividade não é considerada trabalho infantil se trabalhada com foco na educação. 

“A ideia não é que a criança já apresente resultados financeiros, é ensinar os valores do empreendedorismo. Como um incentivo a uma atividade educativa. Sempre aliando com outros interesses, manter o ensino normal, ter tempo livre para socializar. É importante que a infância não seja absorvida por uma atividade que pode ser considerada profissional em um sentido amplo”, resume. 

Caso os negócios iniciados por uma criança tomem um cunho profissional no sentido de obtenção de lucros, pode ser necessário obter autorização de um juiz do trabalho para que o jovem possa exercer a função.  

“Se a criança tem a autorização, é uma atividade fiscalizada e regularizada. Se trouxer lucro, é importante que o lucro fique com o menor sob a administração de seu responsável”, explica.   

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