Lockdown funciona? Países que adotaram regra reabrem economia com bons índices no setor

Países que viveram isolamento rígido para conter a Covid-19, como Nova Zelândia, Vietnã, Portugal e Reino Unido, dão exemplo ao retomar atividades econômicas

Sala de aula de Portugal, um dos países que adotou o lockdown em grande escala e retomou as aulas presenciais.
Legenda: Em Portugal, o ensino básico retornou às aulas presenciais
Foto: Patricia de Melo Moreira / AFP

Fortaleza chega, nesta sexta-feira (19), a duas semanas de vigência do atual decreto de isolamento social rígido, o lockdown. Ainda em meio ao combate a novo pico de contaminações pela Covid-19, ainda não há como medir os resultados da medida. O exemplo de outros países que também adotaram a regra, no entanto, dá indícios da efetividade da medida tanto para a saúde como para economia.

Líderes de todo o mundo, nesse período de pandemia de Covid-19, estiveram atentos às mudanças nos indicadores epidemiológicos e financeiros para garantir segurança sanitária e suporte financeiro. Por causa disso, países como Portugal, Reino Unido, Nova Zelândia e Vietnã viveram um ano de alternância de aperto e afrouxo em relação às medidas de isolamento em âmbito nacional. 

O resultado disso é que, agora, essas nações reabrem suas atividades econômicas com possibilidade de recuperar os danos econômicos e sociais intensificados durante o pior período da crise.

Todos esses países recorreram, em algum momento de 2020 e deste começo de 2021, ao lockdown em todo território ou em áreas estratégicas. Além disso, adotaram planejamento de testagens em massa e campanhas de estímulo e defesa às medidas de contenção do vírus.

Confira a estratégia dos países

Nova Zelândia

Considerado um dos países que melhor lidam com a pandemia, a Nova Zelândia registrou pouco mais de 2 mil casos e 26 mortes pela Covid-19 desde o ano passado. A nação liderada por Jacinda Ardern adota um rigoroso sistema de rastreamento de casos que, quando confirmados, podem fazer com que cidades inteiras passem por um lockdown de curto período.

Foi o que aconteceu com Auckland, a maior cidade da Nova Zelândia, que passou por um rígido isolamento de sete dias, com início em 27 de fevereiro. Durante esse período, apenas o setor essencial funcionou na cidade de quase 2 milhões de moradores.

Nova Zelândia
Legenda: A Nova Zelândia adotou rapidamente medidas de contenção e um programa eficiente de testagem e rastreamento de casos
Foto: AFP

Esta foi uma medida adotada no âmbito municipal que faz parte do protocolo do país. No entanto, no âmbito nacional, existem normas quanto ao limite de aglomerações (máximo de 100 pessoas) e à obrigatoriedade do uso de máscaras.

Por causa da rápida adoção de medidas de contenção e de um programa eficiente de testagem e rastreamento de casos, a Nova Zelândia pôde retornar à quase normalidade já em junho de 2020, com o fim do isolamento geral e a retomada das atividades não-essenciais, como arenas esportivas, shows e celebrações de casamento, por exemplo.

Isso fez com que o país saísse da recessão provocada pela pandemia, de acordo com dados oficiais liberados em dezembro pelo Ministério da Economia neozelandês. No período entre julho e setembro, imediatamente posterior à reabertura do comércio, houve crescimento recorde do Produto Interno Bruto (PIB),  de 14%. No trimestre anterior, houve queda de 11% no PIB. 

Vietnã

O país asiático é um dos mais bem sucedidos na condução da pandemia em todo o mundo. Vizinho da China, onde a Covid-19 surgiu, a nação habitada por 95 milhões de pessoas foi uma das primeiras a notificar o Sars-Cov-2 e a adotar medidas restritivas.

Logo de início, o país, que tem como principal atividade econômica o turismo, fechou suas fronteiras e colocou todos os que estavam no território, naquele momento, em quarentena, em instalações do governo. Além disso, fechou escolas e suspendeu voos vindos dos países com situações mais críticas nos primeiros meses de pandemia.

Ao longo de todo o ano de 2020 e começo de 2021, o Vietnã realizou um rastreamento de contatos com infectados pelo coronavírus e um planejamento estratégico de testagens, além de campanhas claras em favor das medidas de contenção.

Vietnã
Legenda: Vietnã tornou-se exemplo de ação contra pandemia
Foto: AFP

Ao identificar o princípio de surto da Covid-19 em alguma localidade interna, o país submetia a região a isolamento social rígido. Agora, inicia a sua campanha de imunização com um saldo de 2,5 mil casos e 35 mortes por Covid-19, um dos menores índices do mundo.

Com tudo isso, desde maio do ano passado, o Vietnã retomou com força as suas atividades econômicas. Não à toa, foi a economia que mais se fortaleceu na Ásia, no agregado de 2020, com aumento do PIB em 2,9%, superando o crescimento da China (2,3%) no período. Os dados fazem parte de um levantamento feito pela CNBC, portal especializado em negócios do grupo de comunicação estadunidense NBC.

Portugal

Desde segunda-feira (15), Portugal passa por uma flexibilização do lockdown instituído no país há dois meses. De acordo com o planejamento anunciado pelo primeiro-ministro, António Costa, creches, escolas e universidades farão uma abertura gradual até abril, o que se sustentará com testagem de alunos e profissionais da educação.

Ainda nesta primeira fase, reabrem pequenos estabelecimentos, salões de beleza, livrarias, bibliotecas e lojas de automóveis. Até maio, o governo liberará o funcionamento de estabelecimentos de até 200 m², restaurantes, equipamentos culturais e de lazer e academias de ginástica. Além disso, serão liberadas celebrações como casamentos e batizados, mas com número reduzido de convidados.

Apesar de não apresentar os melhores índices de contenção da pandemia (o país tem mais de 815 mil casos e quase 17 mil mortes por Covid-19), Portugal está conseguindo diminuir drasticamente os índices de infecções e óbitos pela doença desde o começo de 2021.

Esse plano de reabertura, inclusive, foi possível graças à identificação dessa tendência de piora da pandemia desde o fim do ano passado e a rápida adoção de medidas de contenção. Apesar da retomada não garantir uma restauração econômica, o país deve contar com a ajuda do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), criado pela União Europeia para diminuir os impactos causados pela pandemia aos estados-membros. Se aprovado, Portugal terá acesso a mais de 16 bilhões de euros.

Reino Unido

Uma das regiões mais atingidas pela pandemia desde que ela chegou à Europa, o Reino Unido registra um montante de 4.274.579 de casos e 125.831 mortes por Covid-19.

Por isso, os países britânicos correm para cumprir o calendário de vacinação contra o vírus e avaliam adoção de medidas de isolamento sempre que os índices da doença pioram na região. 

Assim como Portugal, o Reino Unido passou por um lockdown de dois meses, desde o início de janeiro de 2021, e agora promove uma reabertura parcial de sua economia. Durante esse período, o número de casos de Covid-19 na Inglaterra caiu 78%. Combinada a isso, a vacinação nos países britânicos reduziu em 94% o número de internações na Escócia.

A medida mais rígida contrasta com o início da pandemia nos países britânicos. O governo de Boris Johnson foi fortemente criticado por demorar a responder ao aumento de casos no território, o que causou uma avalanche de mortes na região.

O cenário fez com que o primeiro-ministro mudasse de postura, em março de 2020, e anunciasse que o Serviço Nacional de Saúde corria sério risco de “colapso”. 

Isso debilitou fortemente a economia do Reino Unido, que sofreu retração de 9,9% em 2020, a maior desde o pós-guerra. No entanto, à medida que o lockdown bem executado é atenuado, espera-se uma “recuperação vigorosa da economia”, de acordo com Dean Turner, economista do UBS Global Wealth Management.

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