Chacina das Cajazeiras: "a vida nunca mais foi a mesma", diz sobrevivente após quatro anos do crime

O processo permanece em fase de depoimentos de testemunhas e dos réus. As próximas audiências estão programadas para os dias 17 e 21 de fevereiro deste ano

Escrito por Emanoela Campelo de Melo, emanoela.campelo@svm.com.br

Segurança
chacina das cajazeiras
Legenda: As vítimas foram alvejadas a tiros dentro e no entorno de um estabelecimento conhecido naquela época como 'Forró do Gago'
Foto: Cid Barbosa

Quais memórias persistem em quem sobrevive a uma chacina? Na rotina de Ana (nome fictício) não há um dia sequer em que ela não lembre o que viveu na madrugada de 27 de janeiro de 2018. Saiu para comemorar seu aniversário, na companhia dos amigos e findou a noite hospitalizada após o tiroteio no Forró do Gago e arredores. Até hoje, convive com uma bala alojada no corpo e teme ter o nome revelado, porque se sente perseguida  por criminosos e abandonada pelo Estado: "a vida nunca mais foi a mesma", diz.

Um dos maiores massacres já registrados no Ceará completa quatro anos nesta quinta-feira (27). A Chacina das Cajazeiras, como ficou conhecido o episódio com 14 mortes e nove feridos que sobreviveram, deixou marcas na comunidade, mostrou à Segurança Pública a ferocidade com a qual as facções criminosas estavam dispostas a agir em prol de tomar territórios para o tráfico, e até hoje, coloca em questão a celeridade do Sistema de Justiça brasileiro.

Quase 1.500 dias depois, o processo sobre o caso permanece em fase de instrução. Estão programadas audiências para ouvir testemunhas e réus por videoconferência para os próximos dias 17 e 21 de fevereiro de 2022, a partir das 8h30. 

Desde o último mês de novembro, a Justiça expede mandados para intimar testemunhas a comparecer virtualmente nos atos. Alguns voltam como não cumpridos alegando falecimento das pessoas que seriam ouvidas.

Enquanto isso, Ana frequenta emergências hospitalares acompanhada dos familiares, porque frequentemente ainda sente dores no local onde a bala ficou alojada. "Já acompanhei ela nos hospitais algumas vezes nos últimos meses. Um médico quis operar para tirar, mas ela não quer mais passar por cirurgia, diz que já passou por muita coisa ruim e que vai continuar com os ferros no corpo. De vez em quando até sangra", comenta a mãe.


"Hoje, o que a gente sente é como se estivéssemos jogados às baratas e sem saber se esse processo vai ter fim"
Mãe da jovem sobrevivente



O Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) destaca que são diversas movimentações ocorridas desde o recebimento da denúncia, tais como: pedidos de desmembramentos, renúncias de advogados e nomeação de defensores públicos, além de apresentação de defesas preliminares dos réus. As primeiras audiências aconteceram em 29 de outubro e 5 de novembro do ano passado.

"A tramitação do processo, dada a complexidade da causa, a multiplicidade de réus, de vítimas e de delitos apontados, segue em andamento na 2ª Vara do Júri de Fortaleza. O caso está inserido em iniciativas que visam acelerar o julgamento de processos, como o Programa Tempo de Justiça – sistema que acompanha homicídios, com autoria esclarecida - e o Masp - Movimento de Apoio ao Sistema Prisional – programa que busca priorizar e acelerar o julgamento de processos de réus multidenunciados, que respondam a seis ou mais processos criminais", comunicou o Tribunal por meio de nota.


ATUAL SITUAÇÃO DOS RÉUS

Em agosto de 2018, foram denunciados pela chacina: Auricélio Sousa Freitas, Ayalla Duarte Cavalcante, Deijair de Souza Silva, Ednardo dos Santos Lima, Fernando Alves Santana, Francisco de Assis Fernandes da Silva, Francisco Kelson Ferreira do Nascimento, João Paulo Felix Nogueira, Joel Anastácio de Freitas, Misael de Paula Moreira, Noé de Paula Moreira, Rennan Gabriel da Silva, Ruan Dantas da Silva, Victor Matos de Freitas e Zaqueu Oliveira Silva.

O nome de Rennan Gabriel da Silva não consta mais no andamento do processo. Rennan faleceu de tuberculose nos leitos do hospital São José, em Fortaleza, um ano após o crime. Já Deijair, Misael, Noé, e Zaqueu foram apontados na investigação como líderes da facção que ordenou o massacre.

Noé de Paula Moreira e Misael de Paula Moreira são os únicos presos que permanecem recolhidos em unidade penitenciária federal. Ayalla Duarte Cavalcante responde em liberdade e os demais estão em prisões estaduais, segundo o TJCE

Houve desmembramento do processo a partir do pedido da defesa de Deijair, representada pela advogada Paloma Gurgel. Atualmente, Deijair, o 'De Deus' está na unidade prisional de segurança máxima recém-inaugurada no Ceará. Para a defesa deste réu, já nas primeiras oitivas ficou percebido em determinados depoimentos que testemunhas foram induzidas.

A defesa de Deijair diz que aguarda agora a oitiva do delegado responsável por conduzir o inquérito para esclarecer a indução das testemunhas: "Há dentre os interrogados, vítimas que corroboram a tese de defesa, inclusive contrapondo as informações de uma das testemunhas ocultas, a única que citou Deijair, apenas de “ouvir dizer" que ele estaria envolvido na chacina" e que a prisão do seu cliente "é uma maquiagem para dar uma resposta imediata à sociedade" sobre o caso.