Chacina das Cajazeiras: Lembranças acompanham familiares das vítimas

Um dos maiores massacres da história da Segurança Pública do Estado do Ceará faz um ano neste domingo (27). De hoje até a próxima segunda-feira (28), o especial 'Cajazeiras: Histórias da Chacina' traz as memórias e consequências do crime. O tempo parece não ter passado para quem enfrenta as marcas do luto e convive com a insegurança.

Legenda: Ana Lúcia permanece na mesma casa onde morou com o filho Jefferson de Souza. Nas paredes, ficaram expostas as recordações.
Foto: Foto: Thiago Gadelha

O desconsolo de quem sofreu na madrugada do dia 27 de janeiro de 2018 é visto logo na chegada. Cada ente, quando ouve o nome do filho, primo, irmão ou companheiro assassinado na Chacina das Cajazeiras, em Fortaleza, se expressa de uma forma. Olhos arregalados, desconfiança, fôlego puxado. As lembranças são muitas e envolventes. Quem suportou seguir após a matança guardou dentro de si o luto e frustração de não ter proporcionado ao semelhante um fim diferente.

"Mãe sente mesmo as coisas, sabia?", questiona Ana Lúcia Souza, mãe de José Jefferson de Souza Ferreira, jovem morto aos 21 anos de idade, no 'Forró do Gago'. Um ano depois, todas as vezes que apaga a luz e deita para dormir, a dona de casa se vira para o lado esquerdo da cama, onde o filho costumava estar.

Todo dia a gente conversava. O Jefferson falava muito em me ajudar, que queria crescer no trabalho. Ele dormia comigo todo dia e dizia: mãe, nunca vou te abandonar. Mas que pena que o sonho acabou. Deus me dá força até hoje. Justiça? Só se for a de Deus mesmo. O que dizem é que só um era para ter morrido nesse forró, mas a gente sabe no que deu". 

Na noite do dia 26 de janeiro, por volta das 21h, Jefferson começou a se aprontar para sair. Lúcia lembra que o filho pediu R$ 10 emprestado para ir ao racha: "Eu sabia que não era para racha aquele dinheiro. O racha era sempre quarta e isso era uma sexta", falou. Ele não conseguiu o dinheiro com a mãe e fez uma segunda tentativa, desta vez com o pai.

"Encontrou com amigos dele na esquina e pediu dinheiro ao pai dele. Conseguiu os R$ 15 e foi para o forró. Ele disse: mãe, tô indo, mas eu volto logo. Isso já ia dar 23h. Quando passou da meia-noite, eu recebi a notícia de que teve muita bala nesse forró. Meu coração ficou logo palpitando. Fiquei desesperada. Veio um amigo dele e disse: o Jefferson levou um tiro na boca. Era verdade. Eu soube que ele tentou pular o muro quando começaram a atirar, mas não deu tempo. Não deu tempo nem socorrê-lo. Sabia que seis anos antes eu já tinha perdido um filho? É muito para um coração de mãe, né?", perguntou.

Angústia

As perguntas também acompanham Rosângela Oliveira, mãe de Brenda Oliveira de Menezes. O movimento do corpo de Rosângela é inquietante. As pernas não paravam de balançar e o olhar sempre atento a quem se aproximava da casa. Perdas seguidas de familiares também compõem a história da marmiteira.

Depois que Brenda, de 19 anos, foi assassinada no 'Forró do Gago', o marido entrou em depressão e morreu meses depois.

Para os outros: morreu. Acabou-se. Muita gente ainda acha que todo mundo que morreu ali no forró era vagabundo. Minha filha sonhava em fazer Enfermagem ou Medicina Veterinária. Ela gostava de cuidar dos outros. O pai dela não aguentou. Ele não teve a mesma força que eu... Em menos de um ano, eu perdi meu marido e uma filha".

Brenda costumava ir à festa na Rua Madre Tereza de Calcutá, mesmo contra a vontade da mãe: "Ela era muito teimosa. Minha outra menina foi quem recebeu a notícia pelo WhatsApp dizendo que ela estava lá morta. Só acreditei quando cheguei lá e vi"

Para Rosângela, não faltou Justiça no que envolve a investigação da chacina. Podem ser feitas dezenas de prisões, mas a menina e o esposo não voltam. O que a preocupa agora é se conseguirá dar a outra filha, de 17 anos, um destino diferente do que teve Brenda: "A dor fica, mas eu sei que preciso continuar. Tenho minha outra filha. Quero fazer pela mais nova o que eu não consegui fazer pela mais velha".

Distância

A saudade impôs a outras famílias que trocassem de endereço após a chacina. Na casa que Maíra Santos da Silva, 15, morava com a mãe, agora, ficam outros parentes. "Minha tia está vendendo essa casa. Depois que a Maíra morreu ela foi para o interior. Disse que não aguentava ficar aqui porque trazia muitas lembranças da filha. Nunca recebeu ajuda de ninguém de fora", contou uma familiar da adolescente vítima do massacre, sob a condição de não ter sua identidade revelada.

Maria Ferreira de Freitas teve história parecida com a da mãe de Maíra depois que o companheiro, Antônio Gilson Ribeiro Xavier, morreu. Durante dois anos, a rotina de Maria foi junto a Gilson, vendendo churrasquinho no bairro Barroso. Por telefone, ela lembra que no dia que o noivo morreu, estava dormindo.

"Bateram na minha porta e perguntaram se ele estava em casa. Quando eu disse que não, aí a mulher falou: então é verdade, é ele morto lá no chão", disse Maria Ferreira. Segundo ela, Gilson tinha saído há uma hora para passear pela vizinhança. Quando soube que o companheiro tinha sido alvejado no entorno do 'Forró do Gago' ela preferiu não ver o corpo.

"Passei um tempo ainda morando na nossa casa. Depois vim embora para o meu interior. A decisão foi por necessidade também. Não vendi mais churrasquinho. Quando precisei de alguma coisa foi a comunidade que me ajudou. Eles me davam cesta básica e perguntavam como eu estava. Passou um ano e a saudade é a mesma. Quero ficar pelo Interior mesmo que é onde eu tenho gente que seja por mim", declarou Maria.

Desafios

A defensora pública Gina Moura, responsável por coordenar o programa Rede Acolhe, assume que faltam políticas públicas eficazes para apoiar as famílias das vítimas. Gina lembra que cada crime de grande repercussão no Ceará tem características diferentes. No caso do que houve nas Cajazeiras, a percepção dela é que as maiores necessidades eram sociais e econômicas.

A leitura da Polícia é da guerra de facções. No que diz respeito ao nosso trabalho, o foco é a perspectiva da vítima. Cada chacina tem um perfil de demanda. Em todos agendamentos para atendimentos jurídicos, eles não vieram. Imperou o clima de medo, de descrédito nas instituições. É um desafio que a gente atravessa".

Também conforme Gina, com a chacina no 'Forró do Gago' foi percebido que "não existe uma retaguarda para essa realidade crescente da violência". A defensora questiona ainda que o trato com as pessoas deve ir além do acesso à Justiça: "Acaba que a pessoa se vê desamparada mesmo. É uma queixa necessária que essas pessoas fazem. Fomentar as políticas é uma forma de reivindicar direitos. Quando a gente esbarrou nessa ineficiência, a coisa ficou estagnada", acrescentou.