´Zé Baixim dos discos´ é atração no Cariri

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José Porfírio Queiroz, mas conhecido como "Zé Baixim dos discos", fez fama em Juazeiro por vender e colecionar vinil

Juazeiro do Norte Entrar no estabelecimento de "Zé Baixim dos discos" é iniciar uma verdadeira viagem ao mundo musical. Só que tem uma diferença: nos tempos do vinil. Um passado não muito distante, mas que na velocidade das tecnologias, da era digital, parece estar mais longe do que se apresenta.

Num pequeno cômodo, no Bairro Franciscanos, em Juazeiro, as paredes estão tomadas por discos, de cima até embaixo. São compactos, daqueles onde se gravava uma música de cada lado, discos coloridos, uma extensa coleção de Roberto Carlos, distribuída na calçada. É o cartão de visita.

O preço anunciado é R$ 2,00. Nem o pirata supera. Jamais superou, nos tempos em que o vinil era supremo na praça.

Falar de raridade e já anunciar a personalidade de uma pessoa que tem dedicado, em quase quatro décadas, um trabalho desafiador dos modismos. José Porfírio Queiroz, Zé Baixim, experimentou algumas formas de comercializar os seus discos vinil. Começou com cinco.

Venda nas ruas

O produto debaixo do braço, em 1972, era oferecido nas ruas. "Isso não me fazia ter boa fama. Tinha gente que me chamava de maloqueiro", diz o comerciante e amante da música. E foi e é essa paixão pela música que fez com que continuasse as vendas.

Baixim decidiu ir para São Paulo. Quando retornou ao Juazeiro, trazia na bagagem 800 discos. Um volume significativo, para montar então sua primeira loja, na rua principal do comércio de Juazeiro, a São Pedro. Loja rasteira, como era designada a forma de venda dos informais dos discos, como hoje acontece com os vendedores piratas, nas ruas das cidades.

Foram 15 anos, até conquistar o seu espaço na Rua 24 de março. Um espaço herança do seu pai. Eram tantos os discos que merecia mesmo um lugar mais cômodo. "São mais de 12 mil", arrisca uma estimativa, olhando para as pilhas distribuídas pelo chão e as paredes.

Oferta e demanda

Para quem pensa que o produto falta no mercado, definitivamente para Zé Baixim isso não é problema. A oferta é maior do que a demanda. Todos os dias tem gente oferecendo material. São 200 a 300 discos por dia. Compra no monte. "É raro o dia que deixa de vir alguém oferecer discos", diz ele.

Nos tempos da velha ´radiola´ em quase desuso, ele tem logo duas. "O som é inigualável", diz. Em todos esse anos, ele considera que o seu produto obteve bem mais valor. "Já saí em jornais, as pessoas falam de mim", ressalta, lembrando os tempos em que era considerado um maloqueiro que andava com discos embaixo do braço. Para Baixim, foi o começo de uma trajetória comercial e musical promissora. E foi mesmo.

A sua loja, com avisos singulares em meio as imagens que se misturam, que se tornam quase invisíveis, tem recados do tipo "proibido fumar neste estabelecimento", é visitada por clientes não só de Juazeiro, mas muitos colecionadores da região. "Tem disco daqui que já foi até para o Japão. Estão espalhados no mundo", diz Zé, com um desprendimento de um vendedor que traz muito mais a fachada de um empreendedor de sonho.

Raridade

No som, um cantor para ele raríssimo, que nesses anos de empreendimento musical, não chegou a ver nenhum dos seus discos. Chama-se Carlos Nobre. A voz grave lembra a de Nelson Gonçalves. "Em mais de 30 anos, nunca consegui um disco dele", diz, soltando dessa vez o som do CD. É também uma alternativa para quem tem apenas o "compact disc". "Tem um rapaz que faz o trabalho direitinho. Copia a capa, e o som fica do discão", diz o vendedor.

Portando um LP de "Flash Brega", aciona o braço de sua radiola. É o cantor Walter Basso interpretando Castelo de Sonhos, que faz parte de uma procura incessante do poeta Chico do Cavaquinho, do município de Juazeiro do Norte.

Ele classifica a loja de Baixim dos discos não como uma amontoado. "Acho que aqui não é um depósito de lixo. É um verdadeiro tesouro. Vejo coisa de nosso tempo. Meu coração se abre", diz o poeta.

Elizângela Santos
Repórter

CLIENTELA FIEL
Loja é um empório da saudade

A loja do colecionador, para o poeta José Cícero, pode ser considerada um lugar romântico, tradicional à moda antiga

Aurora O professor e poeta, José Cícero, é um frequentador assíduo da "discoteca" de Zé Baixim. Escreveu artigo em que classifica o vendedor como o "último dos moicanos" do Cariri. Ele consegue descrever características do vendedor, o tipo sorridente, boa praça. Disposto mesmo a fazer diversas vezes ao dia uma viagem no tempo musical. E são histórias que se acumulam, a cada cliente que chega.

Ele vê o espaço simples de Zé Baixim, com romantismo. "É lugar nobre para uma atividade comercial quase extinta nos dias atuais diante da avalanche da modernidade tecnológica. Um verdadeiro empório da saudade, onde os amantes da música tradicional à moda antiga, podem adquirir vinis por preços irrisórios e até mesmo pechinchar", diz o poeta, que classifica a coleção como "verdadeiras raridades do cancioneiro musical de todos os tempos".

José Cícero é também colecionador de raridades há vários anos. Tem para mais de 2 mil discos. E lá em Baixim os seus olhos brilham, diante de uma mina, em que vale a pesquisa musical para se chegar a grandes descobertas musicais. Ou encontrar o que nem se sonha mais existir no mercado. "Há quem ainda o denomine simplesmente de sebo dos discos. Um clássico quartinho, estreito com duas portas no estilo rústico e antigo, repleto de velhos LPs, compacto discos pelas paredes e caixas de papelão. Além de pôsteres de artistas, como nos velhos tempos, espalhados por todos os lados", descreve.

O escritor também ressalta a boa qualidade dos discos de Baixim. Ele constata em alguns vinis um estado de conservação que impressiona. Mas há os que não valem tanto a pena nesse quesito. "Mas que no fundo representam um verdadeiro ato de resistência contra a chamada tecnologia digital. Discos usados, muitos deles com manuscritas mensagens de amor; dedicatórias dos seus antigos donos aos seus entes queridos. Presentes afetivos, cuja lembrança nos toca tanto quanto as canções que preservam nos seus riscados sonoros", observa.

O que José Cícero se admira é da memória de Zé Baixim, de saber todos os nomes dos artistas e a localização exata do disco solicitado pelo cliente em meio a tantas pilhas de discos. "Pedi um Bob Dylan, Amália Rodrigues, João do Vale e Rod Stuart. E depois, Trio Nortista, Charles Aznavour, Beatles, Maurício Reis, Nat King´ Cole", dentre outros. E ele foi direto ao ponto". E é lá, nesse espaço pequeno e simples, que se encontra Zé Baixim dos discos.

Público jovem

E não são só os adultos, gente da velha guarda, que visitam a loja de LPs. São adolescentes, crianças que frequentemente viajam nas pilhas de discos, bem organizadas, de Zé Baixim. A forma como tudo é arrumado é conforme o gênero musical. É da MPB, pop rock, internacional, aos ´hits parede´ de décadas pretéritas. "Os jovens conseguem diferenciar a sonoridade, a qualidade do som do CD para o LP. Tenho clientes assíduos nessa faixa etária", afirma. E têm até clientes especiais que chegaram até sua loja para adquirir raridades. O cantor e compositor Bartô Galeno é um deles.

E a paixão pela música é grande. "O povo fala que vendo sonho. O maior prazer de minha vida é poder negociar com música. Isso aqui é minha vida". É assim que o comerciante Zé Baixim defende o mundo que criou em torno de si, trabalhando a memória musical.

MAIS INFORMAÇÕES

Zé Baixim dos Discos
Rua 24 de Março, 03
Bairro Franciscanos
Juazeiro do Norte - CE