Tremembés relatam ameaças após criação de barreira sanitária na entrada de aldeia em Itapipoca

Ceará é o estado brasileiro com mais casos suspeitos da doença em indígenas. O Ministério da Saúde considera que populações indígenas são mais vulneráveis à Covid-19.

Legenda: Desde o início do mês, a Aldeia Tremembé da Barra do Mundaú já vinha espalhando faixas para avisar que não estão recebendo visitantes
Foto: Foto: Matheus Tremembé

Para evitar a entrada de visitantes durante a pandemia, o povo Tremembé da Barra do Mundaú, em Itapipoca, iniciou uma barreira sanitária na entrada da aldeia, na última sexta-feira (1). Com o monitoramento, realizado dia e noite por grupos com poucas pessoas que se revezam para evitar aglomerações, os indígenas alegam estar sofrendo ameaças de não aldeados que tentam entrar no território. A decisão foi anunciada em comunicado na noite de quinta-feira (30).

“Temos enfrentado resistência por parte de pessoas, especialmente não indígenas, que se recusam a usar equipamentos de proteção pessoal. Temos recebido, frequentemente, ameaças e agressões verbais. Estamos oficializando a documentação para que possamos encaminhar junto aos órgãos competentes", diz a liderança indígena Adriana Tremembé. “A gente está fazendo o monitoramento no sentido de fortalecer essa prevenção. Muitas pessoas estão se revoltando, querem jogar a moto por cima da gente, com violência verbal”, lamenta.

No sábado (2), uma viatura da Polícia Militar permaneceu durante a noite no local. Adriana Tremembé avalia que como a decisão de criar a barreira foi tomada no final da semana, isso dificultou a comunicação com os órgãos oficiais.  

Preocupação

Mateus Tremembé avalia que a medida (de implantar a barreira) é necessária dado o aumento de casos em Itapipoca. Até a noite de ontem (3), o Município somava 90 casos confirmados e quatro óbitos pela doença. “A chegada do coronavírus na região gerou grandes preocupações em nossas aldeias, então foi decidido com unanimidade a criação de barreiras sanitárias na entrada de nossas aldeias buscando evitar a entrada de estranhos e de pessoas infectadas”. 

A decisão também determina que o indígena que precisar sair da aldeia deve usar máscara. “Não está autorizada a entrada de nenhum visitante que não seja domiciliado neste território e que não esteja a serviço dentro dos serviços essenciais, conforme decreto do Governo do Estado. Precisamos proteger a vida dos nossos parentes!”, pontua o comunicado. “Vamos acreditar que tudo isso vai passar e logo iremos poder nos encontrar de novo”.

Funai

A Fundação Nacional do Índio (Funai) informou ao Sistema Verdes Mares, no início de abril, que “suspendeu a concessão de novas autorizações de entrada nas Terras Indígenas e segue o monitoramento das aldeias no Brasil, em parceria com a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), por meio da rede de atuação de ambos os órgãos públicos”. O órgão disse, também, que trabalha na orientação e difusão de informações junto às aldeias indígenas. 

Tentamos contato com a Funai nesta segunda-feira (4) questionando sua atuação para garantir a segurança do Povo Tremembé, assim como as ações para fazer cumprir o isolamento social nas aldeias, mas não obtivemos retorno até o fechamento.

O Ministério da Saúde considera que populações indígenas são mais vulneráveis à Covid-19. Tentamos contato por telefone com a Prefeitura de Itapipoca, às 16h29 de hoje, mas não fomos atendidos.