Sertão norte receberá água da Ibiapaba

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Para garantir melhor aproveitamento da reserva hídrica do planalto da Ibiapaba, Governo do Estado lança novo projeto

Fortaleza. Moradores do sertão da zona norte do Estado do Ceará podem ter uma melhor expectativa de futuro quanto à disponibilidade de recursos hídricos. É que, em breve, o Governo do Estado, por meio da Secretaria dos Recursos Hídricos (SRH), abrirá concorrência para a contratação de empresa que será encarregada da elaboração do Projeto de Integração das Águas da Ibiapaba ao Sertão Norte, que faz parte do Eixo de Integração da Ibiapaba.

Para isso, haverá licitação para realizar o projeto de construção dos açudes Lontras e Inhuçu, de porte médio. Os reservatórios barrarão o Rio Inhuçu, que corre sobre a Serra da Ibiapaba. Além disso, o estudo prevê a edificação de um canal/túnel para passagem de água e de uma pequena Central Hidrelétrica, prevista para o sopé da serra. Esses reservatórios serão fontes que vão garantir a transferência de água para o abastecimento e beneficiar, direta e indiretamente, uma população de cerca de 150 mil habitantes de cerca de 14 municípios, dentre eles Croatá, Ipueiras, Nova Russas, Ararendá, Poranga e Ipaporanga, localizados no sertão da zona norte, uma das regiões mais carentes de recursos hídricos do Estado do Ceará.

O objetivo da obra é garantir um melhor aproveitamento das reservas hídricas que correm sobre o planalto da Ibiapaba, onde a média anual de chuvas é de 2 mil milímetros. No sertão, região mais vulnerável às secas situada no norte do Estado, a média histórica de pluviometria é pouco superior a 500 milímetros por ano.

Os estudos propostos visam à avaliação das alternativas para os barramentos dos recursos hídricos existentes e à preparação dos projetos construtivos, dos custos relativos à implantação das obras e das alternativas mais viáveis do ponto de vista técnico, econômico, social e também ambiental.

No momento, há o convênio entre o Governo do Estado e o Proágua Nacional — programa do Governo Federal com financiamento externo — destinado a assegurar os recursos financeiros para a elaboração do projeto na Ibiapaba. As fontes dos recursos financeiros para a construção da obra somente serão identificadas após a conclusão dos estudos.

Enquanto o Projeto de Integração das Águas da Ibiapaba ao Sertão Norte beneficia, prioritariamente, o sertão da zona norte, o Eixo de Integração da Ibiapaba prevê a construção de outros nove açudes na região norte, além de canais, túneis e/ou adutoras e outra usina hidrelétrica. Mais ao sul, o projeto beneficia também o Sertão dos Inhamuns. Atualmente, segundo informações da Secretaria de Recursos Hídricos, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) está construindo o Açude Fronteiras, na região de Crateús.

Cadastro de terras

O “Eixão da Ibiapaba”, no futuro, virá a ser um dos braços do Cinturão de Águas, que prevê a integração de todas as bacias hidrográficas do Ceará para melhorar a distribuição de água no Estado. A construção segue a filosofia de ampliar e melhorar o abastecimento de água para as comunidades do Interior cearense, por meio da construção de barragens capazes de suportar um período mais prolongado de estiagem durante o ano.

Nesta etapa inicial do Projeto de Integração das Águas da Ibiapaba ao Sertão Norte, os trabalhos dizem respeito, também, ao levantamento cadastral das terras a serem atingidas pelas implantações das obras e do plano de reassentamento das populações que serão deslocadas para dar lugar às bacias hidráulicas das duas novas barragens paralelas e interligadas por um túnel, do canal/túnel e da hidrelétrica.

Os referidos estudos deverão levar em consideração, sobretudo, a existência da Área de Proteção Ambiental (APA) da Ibiapaba, apresentando a extensão territorial da reserva ecológica; bem como, localizar as infra-estruturas existentes (linhas de transmissão, aquedutos e outras) e a necessidade de transferi-las de onde estão situadas atualmente.

Na opinião do consultor de Recursos Hídricos e ex-secretário Nacional de Infra-estrutura Hídrica, Hypérides Macedo, a execução do projeto de integração para o abastecimento das cidades “na cabeceira do Rio Acaraú” irá fazer com que o regime diferenciado de chuvas da Ibiapaba, em relação às outras regiões do Estado, e o potencial hídrico da região sejam melhor aproveitados.

DÉCADA DE 60

Construção de hidrelétrica é sonho antigo

Fortaleza. Pelo menos um item do Projeto de Integração das Águas da Ibiapaba ao Sertão Norte é mais antigo do que se possa imaginar. O ex-presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961) e o ex-governador Virgílio Távora, no primeiro mandato dele (1962-1966), já tinham interesse em construir uma hidrelétrica na zona norte, a fim de aproveitar o grande potencial energético da Bacia Hidrográfica do Rio Acaraú. A retrospectiva é feita pelo consultor de Recursos Hídricos e ex-secretário nacional de Infra-Estrutura Hídrica, Hypérides Macedo.

Já a política de melhor aproveitamento das bacias hidrográficas do Ceará tem raiz nas décadas de 80 e 90. Segundo Macedo, durante o primeiro governo Tasso Jereissati (1986-1990), foi elaborado o I Plano Estadual de Recursos Hídricos. O início da execução veio na gestão Ciro Gomes (1990-1994), com o Canal do Trabalhador. Com a volta de Jereissati ao poder, em 1994, o plano virou o Programa de Gerenciamento e Integração de Recursos Hídricos (Progerir), prevendo a interligação entre as bacias hidrográficas.

Referência

Na visão de Hypérides Macedo, a estratégia de interligar internamente as bacias de um Estado é uma das mais indicadas para combater a estiagem no Nordeste. O pioneirismo com que esse tipo de ação vem sendo executada faz do Estado uma referência na área de gestão de recursos hídricos em todo o Brasil.

Não à toa, enquanto Macedo esteve à frente da Secretaria Nacional do Ministério da Integração Nacional, entre 2003 e 2006, junto com os ex-ministros Ciro Gomes e Pedro Brito, o Governo Federal desenvolveu um programa de integração das bacias internas dos Estados do Nordeste. Atualmente, o ex-secretário é consultor de Recursos Hídricos dos Estados de Alagoas, Piauí, Rio Grande do Norte e Paraíba. Desses, apenas Alagoas já começou as obras. Os demais estão com os projetos prontos, mas à espera de financiamento, conforme informa o especialista.

“A integração de bacias é o mais importante e estruturante programa de combate à seca no Nordeste”, avalia o consultor. “O principal problema do Nordeste é que o índice de evaporação da água é três vezes maior que o de chuvas”, completa. A construção de canais e adutoras age contra esse fenômeno, na medida em que a perda de água por evaporação em um açude é de 30%, enquanto em um canal é de 2% e em uma adutora é zero. Macedo explica que a quantidade de precipitações na região é alta, mas há irregularidade temporal e espacial na distribuição delas. Além disso, o especialista aponta o solo rochoso e cristalino da região como outro problema, pois não retém a água.

Outra solução adotada é a transposição das águas do Rio São Francisco, que consiste em uma integração externa.

Mais informações:
Secretaria de Recursos Hídricos do Estado do Ceará
Av. Gal. Afonso Albuquerque
Lima 1, Cambeba, Fortaleza (CE)
(85) 3101.4007