Profissão é regulamentada

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Os vaqueiros possuem carteira assinada ou contrato de trabalho. Uma vitória para a categoria no Estado

Fortaleza Pouca gente sabe, mas o peão de vaquejada é uma profissão regulamentada pela Lei nº 10.220, de 11 de abril de 2001, sancionada pelo então presidente, Fernando Henrique Cardoso. Esta lei considera atleta profissional o peão de rodeio. "Entendem-se como provas de rodeios as montarias em bovinos e equinos, as vaquejadas e provas de laço, promovidas por entidades públicas ou privadas, além de outras atividades profissionais da modalidade organizadas pelos atletas e entidades dessa prática esportiva".

Esta lei institui normas gerais com relação à atividade de peão de rodeio ou vaquejada, equiparando-o com um atleta profissional. De acordo com o artigo 1º, "considera-se atleta profissional o peão de rodeio cuja atividade consiste na participação, mediante remuneração pactuada em contrato próprio, em provas de destreza no dorso de animais equinos ou bovinos, em torneios patrocinados por entidades públicas ou privadas".

Isso mostra a organização que a atividade da vaquejada está tendo e que, para o coordenador do I Circuito Brahma Fresh de Vaquejada e que também é juiz de provas, Tibério Lucena de D´Almeida Rijo, é de suma importância. "São milhares de empregos gerados. Buscamos o reconhecimento da profissionalização desse esporte. Por esta razão, isso é importante". Conforme ele, cerca de 99% dos vaqueiros profissionais tem carteira assinada ou contrato de trabalho que, caso seja rescindido, a empresa paga multa. "Geralmente, a empresa forma uma equipe de três vaqueiros, que correm nos grandes eventos. Cada profissional tem um cavalo para disputar".

O coordenador informa que o vaqueiro recebe salário mensal e ganha uma porcentagem sobre o prêmio da vaquejada que corre, caso ganhe. "O prêmio é para o empresário, mas o profissional recebe uma porcentagem, que varia de 10% a 50%. Fora isso, tem o salário. Existe vaqueiro que chega a ganhar R$ 1 mil por semana", diz ele. No Brasil, conforme Tibério, existem cerca de 400 vaqueiros profissionais.

A lei cita também como deve ser celebrado o contrato - obrigatoriamente por escrito - entre a entidade que promove as provas e o peão. Deve conter: I - a qualificação das partes contratantes; II - o prazo de vigência, que será, no mínimo, de quatro dias e, no máximo, de dois anos; III - o modo e a forma de remuneração, especificados o valor básico, os prêmios, as gratificações, e, quando houver, as bonificações, bem como o valor das luvas, se previamente convencionadas; IV - cláusula penal para as hipóteses de descumprimento ou rompimento unilateral do contrato.

Esse artigo mostra que é obrigatória a contratação, pelas entidades promotoras, de seguro de vida e de acidentes em favor do peão de rodeio, compreendendo indenizações por morte ou invalidez permanente no valor mínimo de R$ 100 mil, devendo este valor ser atualizado a cada período de 12 meses contados da publicação da lei. A apólice de seguro deverá, também, compreender o ressarcimento de todas as despesas médicas e hospitalares decorrentes de eventuais acidentes que o peão vier a sofrer no interstício de sua jornada normal de trabalho, independentemente da duração da eventual internação, dos medicamentos e das terapias que assim se fizerem necessários.

Tibério Lucena explica a diferença entre as categorias. A profissional é para aqueles que correm em grandes equipes; a amador são os patrões deles, os empresários, iniciantes, chefes de equipes; a intermediária está entre os dois, é bom, mas ainda não tem chance de disputar com o profissional.

Exemplo

Um exemplo de vaqueiro que virou empresário é Fábio Porcino, dono do Clube do Vaqueiro (CE) e Porcino Park Center (RN). Ele conta que aprendeu a gostar de vaquejada, ainda pequeno, com o seu pai. "Corro desde os 10 anos. Eu e meu pai vimos que a tendência era esse esporte crescer, então, inaugurei o clube em Mossoró há dez anos e, há um ano adquiri o Clube do Vaqueiro, que foi todo reformado para receber este Circuito Brahma Fresh, que já é um sucesso". Ele acrescenta que "muita gente vive disso, como os locutores".

Por mais que a maioria dos competidores seja homens, Tibério destaca a participação, cada vez mais ativa, das mulheres. "Existem muitas mulheres e são boas. Elas disputam diretamente com os homens".

Leilão de cavalos

Além da vaquejada e shows de forró, também será realizado um leilão de cavalos no sábado. Serão 30 animais, entre machos e fêmeas, da raça quarto de milha, da linhagem trabalho e corrida. De acordo com Tibério Lucena, esta raça e linhagem é a melhor para a vaquejada. "Atualmente, as fêmeas são as mais procuradas, tanto nos leilões quanto para correr nas vaquejadas", informa. O leilão é promovido pelos empresários Rafael Leal e Cláudio Rocha.

Evelane Barros
Subeditora do Regional


FORÇA DA MULHER
Vaqueira é exemplo de coragem nos sertões

Canindé
Quando o escritor Euclides da Cunha escreveu em seu livro "Os Sertões"´ que o sertanejo é, antes de tudo, um forte, nunca imaginou que nos Sertões de Canindé as mulheres poderiam mudar o cenário do campo, antes ocupado apenas por homens. Gibão, peitoral, perneiras, chapéu de couro, botas, luvas, arreios e cavalo. Tudo isso forma o figurino de Antônia Batista Abreu, de 42 anos, conhecida por Silene Vaqueira, sucessora de Dina Maria Martins, a segunda mulher mais importante da cultura popular no Brasil - o documento vem do Ministério da Cultura e está em mãos da mestra da Cultura.

Segundo o poeta popular Paulo Sérgio Alves, as mulheres estão ocupando o espaço em todos os setores, mas é na "vaqueirama" que vem o maior destaque. "Nesta terra brasileira, vive alegre a trabalhar, as destemidas vaqueiras, no Sertão do Ceará". Essa estrofe mostra o quanto as vaqueiras estão sendo respeitadas no Nordeste. Silene conta que seu grande sonho era ser vaqueira e chegou até a fazer uma promessa com São Francisco das Chagas para alcançar seu intento. Começou a montar aos 15 anos na localidade de Irapuá, Distrito de Varzante do Curu, a 60km da sede do Município. "Montava em cavalo, burro, jumento, carneiro e até em cabra. Meu sonho era um dia vestir uma roupa de couro e participar de vaquejadas´´, disse. Ela trabalha como merendeira em uma escola no Alto do Bonito e, todos os dias, ainda tem tempo para a lida com o gado. "Sinto-me a mulher mais feliz do mundo. A tarefa de lutar com cavalo e gado tornou-me forte e feliz", comemora Silene.

Ela participa de vaquejadas, missas, pega da novilha, festas de apartação, enfim, onde tem cavalo e gado, agora também tem mulher destemida no meio dos homens. "Tenho recebido o apoio da mestra da cultura Dina Maria Martins, hoje com 55 anos, e que está repassando toda a sua experiência para mim. Os próprios vaqueiros apoiam a minha trajetória", diz.

Segundo a vaqueira, a sua vida tem mudado muito depois que passou a fazer parte da Associação dos Vaqueiros e Boiadeiros dos Sertões de Canindé. "Aqui a vida só é ruim quando não chove no chão", brinca.

No próximo dia 8, Silene ao lado de Dina Martins, participará de uma missa na Igreja de Nossa Senhora das dores em comemoração aos 50 anos da Banda de Música do saudoso maestro J. Ratinho em Canindé. Depois da solenidade, as duas farão parte de uma cavalgada pelas ruas da cidade e depois de uma confraternização ao lado dos amigos vaqueiros.

Silene festejou aniversário de 42 anos no último dia 28. É assim a sina das mulheres vaqueiras no semiárido nordestino, onde está encravando o território dos sertões de Canindé, onde a figura da mulher no meio das vaquejadas, pega de boi, tornou-se figura principal das emoções, dos poemas e festa de apartação.

Silene disse que antes de sair para a escola, cuida do gado, das ovelhas, de seu burro de estimação e deixa as tarefas do dia prontas e quando retorna garante a segurança do seu rebanho colocando-os nos seus locais de pernoites.

Dina Maria Martins, 55 anos, ou simplesmente Dina Vaqueira, a mulher que se tornou referência no Brasil por ter dirigido uma Associação com mais de 200 homens nos Sertões de Canindé. Hoje, é mestra da Cultura e a segunda mulher mais influente na cultura popular do Brasil, segundo o Ministério da Cultura. Mesmo com todos esses adjetivos, não mudou seu jeito de vida. Anda a pé, ajuda as pessoas mais necessitadas, e ainda incentiva as colegas que sonham em entrar para a vida do gado. O grande exemplo está na vaqueira Silene, que sonhava em um dia poder ficar perto de sua fã, aboiar e participar de uma missa envolvendo vaqueiros. "Ser mestra da Cultura é isso. Repassar os nossos conhecimentos para outras gerações. Estou cumprindo o meu papel. O Governo do Estado me paga para fazer esse papel. Isso eu faço com carinho e muita fé".

Ela comemora a aprovação da lei de nº 14.520, de 8 de dezembro de 2009, que incluiu a missa do vaqueiro em Canindé no calendário oficial de eventos do Ceará e a lei nº 14.625, de 26 de fevereiro de 2010, que institui o Dia do Vaqueiro em todo o Estado, no dia 22 de agosto, Dia do Folclore. "Todas essas ideias partiram de Canindé e graças a Deus nossa luta foi reconhecida. As leis só irão fortalecer a nossa categoria". Segundo ela, este ano, serão comemorados os 40 anos de missa do vaqueiro em Canindé e uma grande festa será feita. Sem perder a vaidade entre os 260 homens vaqueiros de Canindé, Dina diz que as mulheres estão provando que o lugar delas é no sertão, derrubando boi, cuidando do rebanho e montando a cavalo.

Fique por dentro
Destaques nacionais

Na vaquejada, é difícil apontar o melhor do País. Segundo os especialistas da área, que organizam e acompanham as competições, existem alguns destaques, entre eles: Celso Vitório (AL), Alex Araújo (RN), Paulinho de Tatu (RN), Tiano de Tatu (RN), Alexandro Suassuna (PB), Adjailson Paiva (PE), Sandro Severino (PE), Iran (CE), Sidnei Batista (PE), Robertão (BA), Gilson Sampaio (PE), Antônio Tobias (PB), Renato Tobias (PB).

MAIS INFORMAÇÕES
Clube do Vaqueiro (CE)
Porcino Park Center (RN)
Fábio Porcino
(84) 9915.5254
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