Pesquisadores querem exumar corpo de heroína Bárbara de Alencar

O objetivo é fazer reconstituição gráfica de seu rosto. Cientistas pretendem fotografar os restos mortais e encaminhar para o renomado designer 3D Cícero Moraes, responsável pela reconstituição facial de Dom Pedro I

Vinte e dois anos após ter sido cogitada, por uma ONG de Pernambuco, a possibilidade de exumação do corpo da heroína pernambucana Bárbara de Alencar, um grupo de pesquisadores resgatou a ideia, mas a primeira tentativa não vingou, por resistência dos moradores da região. A equipe permanece no Crato, à espera de novo posicionamento da população.

O desejo antigo de cientistas, no entanto, tem motivações distintas. Em 1997, a ideia estava baseada no estado de abandono do túmulo da guerreira, sepultada em uma capela no distrito de Itaguá, no município de Campos Sales, na região do Cariri. A intenção, então, era exumar o corpo e levá-lo até sua cidade natal, em Exu, Pernambuco. Desta vez, o propósito é realizar uma reconstituição gráfica da face de Bárbara de Alencar.

Uma comissão de pesquisadores chegou a Campos Sales, ontem (25), para dar início aos trabalhos. Porém, por causa da confusão gerada na cidade, devido à surpresa com a notícia, a equipe desistiu de ir até a Capela de Nossa Senhora do Rosário, no distrito de Itaguá, onde Bárbara está sepultada.

A ideia da exumação partiu de membros do Instituto Cultural do Ceará (ICC), que entraram em contato com o advogado e pesquisador cearense José Luís Lira, o qual já participou de trabalhos semelhantes, como as reconstituições do rosto de Santa Paulina e Santa Maria Magdalena.

O presidente do ICC, Heitor Feitosa, justificou o pedido de exumação garantindo que "a partir daí, teremos uma ideia mais exata de como era a face de dona Bárbara. As imagens que conhecemos, até então, são pinturas imaginárias, que o (pintor) Oscar Alencar criou".

Boatos

A equipe que chegou ao Cariri é composta por advogados, pelo fotógrafo Allan Bastos e pela arqueóloga Heloísa Bitu. Diante da "confusão" gerada na cidade, o grupo teve de explicar, durante sessão extraordinária na Câmara de Vereadores de Campos Sales, como seria realizado todo o processo.

O temor de parte da população era de que o corpo de Bárbara de Alencar fosse retirado definitivamente do município, como fora cogitado em 1997.

"Houve um mal-entendido. Circulou um vídeo no qual uma pessoa diz que ira pegar os restos mortais e levar para outro lugar. Por isso, optamos por suspender os trabalhos por enquanto. Posteriormente, vamos lá fazer o reconhecimento dos restos mortais. Ressaltamos que nada será retirado. Seguiremos todos os protocolos científicos. Não há nada ilícito", afirma Lira.

Os vereadores, por maioria, aprovaram o trabalho. No entanto, julgaram ser importante a comunidade discutir internamente. "Pegamos autorização e testemunhas", afirma Luís Lira. Antes disso, a Diocese de Crato, que administra a Capela onde a heroína está sepultada, já havia sido comunicada, informalmente, da intenção de exumar o corpo. Uma carta de apresentação e a proposta foram enviadas pelos pesquisadores.

Apesar de destacar a autonomia da Diocese, o prefeito de Campos Sales, Moésio Loiola, garante que a Prefeitura não foi comunicada. "Há uma preocupação, reconheço. É um nome de peso do Cariri. Representa muito para Campos Sales. A cidade aprendeu a querer muito bem à memória de Bárbara de Alencar por toda luta dela", explica.

O gestor, no entanto, reconhece que a melhor forma de preservar a memória da heroína é desempenhando boas ações. "Não sou especialista, mas acho que a face dela é sua luta, o passado dela", disse.

Processo

Confirmado o procedimento, a urna contendo os restos mortais da pernambucana precisará ser aberta pela equipe. O primeiro passo é verificar se encontram o crânio - a partir do qual é feita a reconstituição - e se ele está em bom estado.

"Se tiver só a parte de cima, não é possível. Mas, até sem mandíbula já pode ser feito", detalha Luís, que reconhece ser "possível não encontrar mais nada no local". Ele adverte que a reprodução só pode se tornar realidade caso o crânio seja encontrado.

O próximo procedimento a ser realizado pelos pesquisadores seria fotografar o corpo e, em seguida, encaminhá-lo ao renomado designer 3D, o catarinense Cícero Moraes, responsável por reconstituições faciais famosas como as de Santo Antônio de Pádua, Dom Pedro I, poeta Francisco Petrarca e do cientista Giambattista Morgagni.

Para a remontagem facial são necessárias fotos de vários ângulos do crânio de Bárbara. A reconstrução do rosto é feita com um programa de computador. São utilizados dados estatísticos de espessura de pele para preencher o crânio e, às vezes, é feita a reconstituição dos músculos. Todo processo ocorre anonimamente e o trabalho só é divulgado por completo. O grupo não informou, no entanto, uma previsão de conclusão da reconstituição.

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