Penitentes vivem fé medieval

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Os grupos de Penitentes do Interior do Estado se destacam como figuras do imaginário popular

Crato Emoldurado pela Chapada do Araripe, cercado de fontes naturais e florestas nativas, a região do Cariri se tornou o palco do misticismo do Nordeste. Igrejas, seitas, profetas que pregam o fim do mundo, grupos de penitentes e tipos messiânicos ainda sobrevivem nas ruas e na zona rural da região, apesar do crescente ritmo de desenvolvimento e modernidade.

Da miscigenação das diversas culturas resultaram mitos lembrados nas lendas da caipora, do lobisomem, da mãe d´água, do carneiro de ouro, do pai da mata, da lagoa encantada e outros tantos que povoam o imaginário popular.

No rastro dos índios, dos colonizadores e, principalmente, das levas de romeiros que aportaram no Cariri, trazendo usos e costumes de suas terras, surgiram organizações religiosas com práticas medievais, entre as quais, os grupos de penitentes que se espalham em toda a região. O mais conhecido deles é o do Sítio Cabeceiras, município de Barbalha, que já apareceram até no programa Fantástico, da Rede Globo. Eles transformaram-se em um dos principais destaques na programação cultural da Festa de Santo Antônio, em Barbalha.

Descoberta

Recentemente, o Diário do Nordeste descobriu no município de Porteiras um grupo de penitentes que, até então, não se apresentava em público e nunca foi fotografado ou filmado. São agricultores rústicos que varam as madrugadas sertanejas, rezando e cantando nos cemitérios e nas cruzes de beira de estrada. Andam sempre reunidos, entoando cantochões. Mas no centro urbano, atravessam as ruas silenciosamente, parecendo fantasmas pela diferente figura que apresentam. Ao se aproximarem dos sítios, principalmente em trechos assinalados por crucifixos, as conhecidas cruzes das estradas do sertão, entoam o seu canto que é triste, lamentoso, como um gemido de alma perdida.

Esta teologia remonta aos frades cartuxos espanhóis do primeiro milênio do cristianismo. Permaneceu congelada no sertão do Nordeste, estimulada periodicamente por líderes místicos como o padre Ibiapina e o Padre Cícero Romão Batista, o "Padim Ciço", venerado como santo pelos nordestinos. A cruz do decurião dos penitentes de Porteiras, por exemplo, foi doada pelo Padre Cícero, segundo contam.

Caldeirão

Foi neste ambiente místico, rodeado de mistérios, que, além dos penitentes, floresceu uma das mais significativas ordens religiosas do Ceará: a Comunidade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, liderada pelo beato José Lourenço, um paraibano que chegou a Juazeiro, no fim do século XVIII, arrastando uma cruz como penitência.

No Caldeirão, cada família tinha sua casa. Os órfãos eram afilhados do beato. Na fazenda também havia um cemitério e uma igreja, construídos pelos próprios membros. A comunidade chegou a ter mais de mil habitantes. Com a grande seca do ano de 1932, esse número aumentou, pois lá chegaram muitos flagelados.

Má influência

Devido a muitos grupos de pessoas começarem a ir para o Caldeirão e deixarem seus trabalhos árduos, pois viam aquela sociedade como um paraíso, a classe dominante da época começou a temer aquilo que considerava ser uma má influência.

Em 1937, sem a proteção de Padre Cícero, que falecera em 1934, a fazenda foi invadida, destruída, e os sertanejos divididos, ressurgindo novamente pela mata em uma nova comunidade, que foi invadida novamente, no dia 11 de maio, quando então aconteceu um grande massacre, com o número oficial de 400 mortos. Foi a primeira ação de extermínio do Exército Brasileiro e Polícia Militar do Estado do Ceará. Acontecera o primeiro ataque aéreo da história do Brasil. De acordo com o reitor da Universidade Regional do Cariri (Urca), que também é sociólogo, Plácido Cidades Nuvens, "o místico é aquele que aspira a uma união pessoal ou a unidade com o Absoluto". Ele continua, afirmando que esse ´Absoluto´ pode ser chamado "de Deus, Cósmico, Mente Universal, Ser Supremo..."

CRENÇAS
Lendas constroem a tradição

Crato Uma das lendas mais conhecidas na região é a da Pedra da Batateira que, segundo a tradição popular, um dia vai rolar e das entranhas da Serra do Araripe brotarão verdadeiros rios que inundarão Crato, Juazeiro e Barbalha. Esta maldição, deixada pelos índios Cariris, quando foram expulsos de suas terras, ainda hoje amedronta os mais velhos. No Sítio Cabeceiras, em Barbalha, reduto dos penitentes, corre a história de Vicente "Finim", o mais famoso lobisomem da região.

Estas crenças religiosas vem de longe. Conta-se que a Serra do Horto, onde foi erguida a estátua do Padre Cícero, era um centro de pajelança dos índios Cariris. O pesquisador Alemberg Quindins, presidente do Memorial do Homem Kariri e da Fundação Casa Grande, revela que, ali, eram promovidos rituais de curas, magias, feitiços. O historiador Armando Lopes Rafael diz que a Cachoeira de Missão Velha é vista como um local "encantado". Na cachoeira existe a Pedra da Glória, de onde a voz humana é projetada com sons metálicos. Dizem que essa pedra era o local escolhido pelos silvícolas para suas cerimônias místicas. Falava-se na existência de passagens subterrâneas que, partindo do local, levariam a castelos encantados, cheios de tesouros.

Ali é comum encontrar despachos de macumba nas rochas misteriosas da Cachoeira. O mesmo ocorre nas encruzilhadas das estradas e veredas da Floresta Nacional do Araripe. As mesmas crendices cercam o Boqueirão, em Lavras da Mangabeira, e a Pedra Branca, de Porteiras, onde os moradores das proximidades costumam ver um carneiro de ouro e barulho de talhes vindos das entranhas das pedras.

Sem dúvida, a formação do indivíduo é sempre produto do meio em que vive. E, quando consideramos este meio, não é apenas de ordem social, mas religiosa, civil, amorosa, sentimental e educacional, a relação do homem com a natureza se torna mais forte. Sentimentos, aspirações e devaneios integram a formação de qualquer indivíduo e, como não poderia deixar de ser, influem em suas ações, seus pensamentos e as motivações que funcionam como fio condutor do futuro deste indivíduo.

Quem sabe, vem daí esta interação - que perdura até os dias de hoje - entre o Homem Cariri e a terra que lhe serve de habitat, questiona Rafael, citando mais dois fatores importantes. "Aqui foi plasmada uma cultura ´sui generis´, formada por duas correntes. A primeira é remanescente das manifestações culturais dos índios Cariri. A segunda, que se fundiu com a primeira, teve origem na Península Ibérica e foi trazida pelo colonizador branco. Desta última conservamos as festas do pau da bandeira, que abrem as novenas dos padroeiros das cidades do Cariri. Uma coisa uniu essas duas correntes: a simbiose com a terra, que influenciou e modificou os costumes importados", conta.

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Antônio Vicelmo
Repórter