Mandacaru é fonte para alimentação do gado na seca
Por resistir à estiagem, esta planta é uma opção para os criadores que não querem perder seus animais
Canindé Os agricultores deste município estão usando o mandacaru como fonte alternativa de alimentação do gado no atual quadro de seca na região. O Sítio Jacinto, de propriedade do pecuarista Lauro Paz Sobrinho, no distrito de Targinos, zona rural de Canindé, tem hoje apenas 35 cabeças que ainda resistem à longa estiagem.
Agricultor corta mandacaru em Canindé
Em meio à vegetação sem cor da caatinga, o verde que ainda chama a atenção vem das cactáceas, espécies adaptadas ao clima quase desértico da região. O mandacaru, por exemplo, suporta até três anos sem chuva. As plantas espinhosas podem ser ótima fonte de alimento para os animais, uma vez tratadas para o manejo adequado.
Há um dito popular no sertão que o mandacaru "não dá sombra nem encosto", mas neste momento crítico de estiagem vem tendo um papel muito importante para matar a fome dos animais. Em Canindé, agricultores estão fazendo grande esforço para alimentar o gado. A planta precisa ser cortada e queimada para eliminar os espinhos. Com o período prolongado de estiagem, a técnica vem sendo usada pelos vaqueiros do sertão.
A cada 15 dias, os filhos do criador Lauro Paes enfrentam um dia de trabalho sob sol forte para conseguir o alimento dos animais. Eles saem de casa ainda na madrugada acompanhados de três animais e seguem destino ao Assentamento Jacurutu, onde fazem a colheita do mandacaru. Seis pessoas se revezam no trabalho. Três cortam a planta e mais três carregam em lombos de animais para a estrada carroçável, de onde um caminhão leva até o destino final. São 52 quilômetros entre idas e vindas a cada quinzena.
O transporte só é possível em lombos de animais
Preocupação
Ari Neto Abreu Paz, que coordena a luta diária, diz que existe uma preocupação muito grande em preservar essa espécie. "Nós cortamos o mandacaru, mas ao mesmo tempo fazemos o replantio, porque no futuro mais gente vai precisar dessa alternativa".
A convivência com a seca é algo fora do comum. Existe todo um processo para garantir a alimentação do gado. A primeira é o corte. Depois os cactos são colocados em animais, que seguem meio a caatinga esturricada pelo sol. Depois é feita a retirada com espetos feitos de ferro para não ferir as mãos dos trabalhadores. Após essa sequência, é tirado dos lombos dos burros, colocado ao chão e depois jogado na carroceria de um caminhão até passar pelo processo da queima, trituração e servido nas tinas, adicionado a capim e um pouco de resíduo. Por cada dia de trabalho, um agricultor recebe R$ 30,00 e o frete do carro sai por valor de até R$ 140,00.
"É muito triste, mas a nossa grande alternativa nesse momento é o mandacaru, porque o milho que veio da Companhia Nacional de Abastecimento foi apenas 20 sacas e não deu para segurar a alimentação de nosso rebanho", explica Lauro Paz. "O curioso é que o mandacaru simboliza a seca do sertão, ele está presente nos campos áridos das fazendas ainda sem proporcionar sombra nem encosto, embora não seja nenhum ´filé´ o agricultor ainda prefere ter o trabalho de fazer o difícil processamento para não perder o rebanho. Existe uma variedade de mandacaru sem espinhos, também usada na alimentação de animais, mas pouco comum", lembra Alfredo Paz, um defensor da natureza e que orienta os irmãos a não deixar que a planta entre em estado de extinção.
O alimento sacia a fome do gado FOTO: ANTÔNIO CARLOS ALVES
"A cada mandacaru cortado, nós plantamos um. Assim a natureza vai permanecer intacta e, no futuro, outras gerações irão fazer o mesmo que estamos fazendo hoje", ressalta.
A água chega de uma cacimba feita no leito do Rio Jacinto. Passa por dois processos. Primeiro é levada até uma caixa numa distância de 300 metros e, em seguida, jogada para um reservatório de 2.300 litros, que a partir daí é colocada em depósitos que matam a sede animal.
Segundo o gerente da Ematerce, Centro de Atendimento ao Cliente de Canindé, Domingos Sávio, o mandacaru resiste à seca, mesmo das mais fortes, pois se trata de uma planta úmida que pode alimentar e hidratar o animal. "Neste período de estiagem é muito comum palestras e debates para solucionar os efeitos da seca, um sábio estudioso do problema disse que a seca nunca vai acabar no sertão, o que é preciso é saber conviver com a estiagem prolongada e a convivência com a seca consiste em mais perfuração de poços, estoque de alimentos usando a técnica da silagem, plantio de palma e mandacaru, preferencialmente as espécies sem espinhos", frisou.
Domingos Sávio explica que o mandacaru é uma cactácea de grande importância para a sustentabilidade e conservação da biodiversidade do bioma caatinga. Seus frutos são uma das principais fontes de alimento para pássaros e animais silvestres da caatinga. Essa cactácea ocorre nas áreas mais secas da região semiárida do Nordeste, em solos rasos, em cima de rochas e se multiplica regularmente, cobrindo extensas áreas da caatinga.
Estudo
Sua distribuição ocorre principalmente nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Bahia. Poucos estudos têm sido realizados em relação ao desenvolvimento dessas cactáceas e, principalmente, quanto à sua densidade e utilização pelos agricultores. "Neste sentido, foi realizada uma pesquisa com o objetivo de determinar o crescimento do mandacaru (Cereus jamacaru P. DC) em condições de sequeiro na caatinga até os dez anos. O estudo foi realizado no período de agosto de 2001 a agosto de 2011 em uma área de caatinga na Estação Experimental da Embrapa semiárido no município de Petrolina, PE", diz.
Segundo ele, a altura média das plantas no primeiro e no décimo ano foi de 0,52 e 1,94 m, respectivamente. O diâmetro basal e a circunferência do caule ao nível do solo foram de 8,0 e 16,58 cm, respectivamente. Se considerar a produção por hectare no espaçamento de 1m entre plantas e 1,5m entre as fileiras terá 1.500 plantas/ha que proporcionariam uma produção de 33.705kg de fitomassa verde e 5.775kg de fitomassa seca aos dez anos de crescimento. Para os técnicos, com os resultados obtidos pode-se deduzir que o plantio do mandacaru no período de pouca ocorrência de chuvas na região apresenta bons índices de sobrevivência; o crescimento do mandacaru nos primeiros anos é muito lento; aos dez anos de crescimento a produção de fitomassa verde e seca do mandacaru pode contribuir como uma boa alternativa para os pequenos agricultores alimentarem seus animais na seca.
"Com todas essas vantagens, vejo com os bons se criar Unidades de Teste de Demonstração do mandacaru no Ceará, principalmente nessas áreas de semiárido, que coloco como exemplo Canindé´´, disse Sávio.
ANTÔNIO CARLOS ALVES
COLABORADOR