História de Jesus leva teatro para o sertão

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Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: Com a participação da comunidade, atores populares fazem da vida de Jesus uma profissão de fé
Foto: Melquíades Júnior

O Grupo Anjos da Arte realiza a Paixão de Cristo como o primeiro evento anual no município de Morada Nova

Morada Nova. Os bastidores para a encenação de uma Paixão de Cristo são um espetáculo à parte. A peça teatral integra o calendário religioso, até ecumênico, e participar/assistir é como um afago na consciência de quem “pecou” no Carnaval. No Vale do Jaguaribe, Quixeré, Morada Nova e Aracati são os municípios com as mais grandiosas encenações. Sem querer querendo, uma poça d’água formada pelas chuvas em Quixeré é a contribuição do céu para o cenário do Rio Jordão, onde Jesus foi batizado. Atores, que viram produtores, batem nas portas do comércio já com cara de pidão. Depois do realismo dos últimos filmes sobre o tema, a onda dos “moradanovenses” é sofrimento com o máximo de realismo.

“Chocados”, espectadores desmaiam, bêbados invadem cena e tentam tirar a roupa do Cristo, outros dizem que é “coisa de satanás”, mas o espetáculo teatral reúne católicos, evangélicos e umbandistas. Quem produz a “Paixão” não faz por dinheiro, “só” por amor e fé.

Com as devidas proporções, é um sofrimento para retratar outro sofrimento. Comunidades do Interior pouco afeitas a espetáculos culturais não podem dizer que ainda não assistiram a uma peça de teatro se acompanham as encenações da Paixão de Cristo. O grupo Anjos da Arte, de Morada Nova, já encena há cinco anos. Começou no patamar da igreja, mas para os evangélicos não pensarem que é o padre quem está produzindo, mudou-se para o campo de futebol. Ensaiam à noite, produzem os acessórios de madrugada. O estádio municipal não tem luz própria, então improvisam com dois fortes refletores incandescentes.

A encenação da paixão de cristo começa com a paixão pelo teatro. E o espetáculo cristão surge como o grande desafio de jovens como José Ferreira, 26 anos, de Morada Nova, diretor do grupo Anjos da Arte. Nesse período, coordena 150 pessoas, entre atores e figurantes. Entre fevereiro e março não pensa noutra coisa. Em sua casa, que já é pequena, o quarto da frente foi reservado para guardar o material, entre figurino e acessórios de cena. Cartazes de borracha transformam-se nas brilhosas armaduras dos soldados do Império Romano. O trabalho artesanal começa após o ensaio teatral, que vai até as 22h. Confeccionando o material, a equipe de produção madruga até o sono não ter mais jeito.

O “Jesus” é outro amante do teatro. Vendedor de loja de eletrodomésticos, Marcelo Freitas tem o fardo e o prazer do papel principal. Como está em praticamente todas as cenas, haja fala para decorar. Lê o “script” de manhã cedo, antes de ir para o trabalho, e no intervalo do almoço. Quando anoitece, o destino é o estádio municipal, que quando estiver com o campo de futebol com quatro palcos de ferro — para as 22 cenas — leva as mãos à cabeça dos que criticam, até no rádio, a encenação naquele lugar.

“Tem gente aqui que acha que tem interferência política, só porque temos apoio da Prefeitura Municipal, por meio da Secretaria de Cultura”, comenta José Ferreira, que agradece, principalmente, ao setor privado. “Antes era mais complicado, mas hoje os comerciantes dão com prazer a cota que a gente pede, de 150 reais”. Também o Banco do Nordeste está financiando.

“A gente não ganha dinheiro nenhum com isso, ganha é muita dor de cabeça, mas a gente faz por prazer”, resume José Ferreira, que integrou até a filha Sara Emili, de sete meses, ao elenco.

Mais informações: Grupo Anjos da Arte, no município de Morada Nova. Encenação da Paixão de Cristo acontece dias 20 e 21 deste mês. (88) 8809.6882

MELQUÍADES JÚNIOR
Colaborador