Estado aposta na mecanização para aumentar produção de mandioca no Ceará

Na última semana, o Ceará adquiriu três “Fábricas de Farinha Móveis”, com custo de produção e transporte mais baixo. Os termos de cessão do equipamento seguirão critérios de viabilidade técnica e operacional

Legenda: A produção de derivados da mandioca na Casa de Farinha, no Sítio Malhada, movimenta a comunidade durante todo o ano.
Foto: Arquivo Pessoal

Visando potencializar a produção de mandioca no Ceará, o governo do Estado adquiriu três “Fábricas de Farinha Móveis” como incremento tecnológico para a agricultura familiar. O modelo é patenteado por uma empresa de Sergipe e permite o atendimento de várias comunidades rurais ao mesmo tempo, além de garantir uma redução estimada em 70% da queima de lenha. As fábricas também funcionam com base na reutilização da água.

As três fábricas chegaram ao Estado na última sexta-feira (31). Segundo a Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA), os equipamentos serão puxados por veículos seguindo rotas de atuação. O modelo, segundo a Pasta, reduzirá os custos com transporte e produção dos pequenos agricultores. 

Conforme a SDA, os Municípios precisarão apresentar um projeto constatando a capacidade de produção para, a partir disso, definir as rotas de atuação das fábricas móveis. Este processo deve levar em consideração os polos de produção presentes no Estado, como a região do Cariri, com Salitre sendo reconhecida, por exemplo, como capital da mandioca do Ceará; além da região dos Inhamuns.

Legenda: As três Fábricas chegaram ao Estado na última sexta-feira (31). Segundo a Secretaria do Desenvolvimento Agrário, os equipamentos serão puxados por carretas seguindo rotas de atuação.
Foto: Divulgação/SDA

Realidade

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o plantio de mandioca na região Nordeste teve uma redução de mais de 20% entre 1990 e 2017. Ao longo da série histórica, a região concentra a maior área plantada do produto do País (representando mais de 57%).

Apesar disso, vem sofrendo redução ao longo dos anos, atingindo, em 2017, pouco mais de 37%. No Ceará, há uma tentativa de potencializar a produção com o processo de mecanização rural.

José Ferreira, coordenador da Casa de Farinha no Sítio Malhada, em Crato, no Cariri cearense, avalia que este processo de mecanização pode auxiliar na produção. Na comunidade, vivem 11 famílias - nem todas trabalhando na Casa de Farinha. “Já trabalhamos com alguns maquinários. Produzimos para consumo próprio e vendemos o excedente”, explica o produtor.

Segundo ele, são produzidos até 2,5 mil quilos de raíz por dia, que será processada para se transformar em goma ou farinha. Grande parte da venda vem da Expocrato, evento que ocorre no mês de julho mas que, neste ano, por conta da pandemia, precisou ser adiado. “A Casa de Farinha é um dos locais mais visitados. A gente consegue vender bastante. Para a comunidade foi uma perda”, lamenta. 

Para tentar mitigar os impactos, as vendas estão acontecendo na própria comunidade, aos sábados, para clientes vindos dos municípios de Crato e Juazeiro do Norte. “Hoje, a gente trabalha com uma média de oito pessoas na Casa e quatro no campo, com renda de R$ 40 por dia. Para a venda na Expocrato, a gente já chegou a ter 60 pessoas trabalhando”, finaliza Ferreira.

Legenda: Casa de Farinha no Sítio Malhada, em Crato, no Cariri cearense. Na comunidade, vivem 11 famílias - nem todas trabalhando na Casa de Farinha.
Foto: Arquivo Pessoal

Mudanças

O linguista e pesquisador Mário Junglas-Muniz, por sua vez, que desenvolveu uma tese de doutorado na qual se dedicou a registrar os termos utilizados na mandiocultura, acredita que o processo de mecanização ainda sofre resistência no Ceará. “O pequeno agricultor ainda não tem acesso à tecnologia. Ele continua no mesmo sistema. O conhecimento é aprendido com os avós, passado de pais para filhos”.

“No passado, se dava muito dinheiro. Hoje, o pequeno agricultor faz a farinhadas muito mais para um consumo próprio. O processo sempre contou com a participação de toda a família. Ali, na comunidade, todo mundo se envolve. Com as novas tecnologias, as pessoas passaram a adotar esse novo modelo, do serrador, do motor elétrico. Uma das coisas que a gente nota, é que cada dia está se acabando mais esse modo mais tradicional”.

A partir de questionários realizados com mais de 40 agricultores dos municípios de Cruz, Bela Cruz, Jijoca de Jericoacoara e Acaraú, o pesquisador desenvolveu, ainda, um glossário com mais de 1.500 palavras seguindo os estágios de produção: plantação, transporte, beneficiamento, comercialização e culinária. Com a pesquisa, Muniz conseguiu evidenciar as mudanças entre as chamadas Casas de Farinha e as Fábricas de Farinha (mais mecanizadas).

“As fábricas, geralmente, são das empresas grandes, que acabam comercializando com preços mais baixos. Embora os pequenos produtores desenvolvam uma farinha de mais qualidade, não conseguem competir com o preço mais baixo. A nossa farinha ainda sobrevive por conta dessas pessoas mais antigas, que têm esse costume do fazer a cultura da mandioca, principalmente no Norte e Nordeste”.

O pesquisador espera publicar o glossário em formato virtual, mais acessível, como forma de preservar essa cultura passada entre as gerações. “Ainda estou revisando algumas pesquisas que fiz, já que está tudo documentado”.

Demandas

Sobre a chegada das três "Fábricas de Farinha Móveis", a SDA disse, em nota, que o processo ainda será iniciado. "A Secretaria do Desenvolvimento Agrário está aberta para receber as demandas de comunidades rurais e municípios interessados em contar com a tecnologia". O órgão esclarece, ainda, que definirá os termos de cessão do equipamento seguindo critérios de viabilidade técnica e operacional. 

O investimento total foi de R$ 225 mil, enquanto a implantação de uma única casa de farinha convencional é avaliada em R$ 150 mil. O equipamento é capaz de realizar os processos de descascamento, trituração, prensagem, torragem e peneiramento. Quando montado sobre uma carreta, a estrutura do equipamento mede dois metros de largura e seis de comprimento.

"Dentre outros itens, serão levados em consideração o volume da produção local, a capacidade de organização das associações e cooperativas e, também, o objetivo de atender áreas onde, hoje, os mandiocultores não disponham do apoio de uma Casa de Farinha próxima".

O modelo começou a ser pensado ainda em 2018. Em um primeiro momento, foram cogitadas duas casas de farinha móveis, número ampliado para três. O modelo visa o atendimento às comunidades mais distantes dos centros urbanos. Em setembro daquele ano, o técnico Neyara Lage visitou o projeto no município de Lagarto, em Sergipe para conhecer a tecnologia. Em novembro, foi deito o anúncio do possível acordo.

Glossário da Mandioca (Fonte: Mário Junglas-Muniz)

  • Taipa: Forma de construção que usa a madeira derrubada da broca, tecida com cipó e rebocada com barro amassado, utilizada nas estruturas das paredes das habitações para os agricultores mais pobres;
  • Talo da mandioca: Ligamento comprido (linha) que se encontra na parte interna da mandioca, no miolo;
  • Tanger: Ação de tocar animais fazendo-os andar e/ou marchar com ou sem carga no trabalho de transporte dos produtos da mandiocultura;  
  • Cocho: Tipo de vasilha, geralmente, feito de madeira ou esculpido na madeira utilizado para colocar o alimento para os animais de transporte das mandiocas para o beneficiamento na casa de farinha;
  • Comboiar: Ato de guiar bando de animais que servem para transportar as mandiocas para o beneficiamento e/ou os produtos já beneficiados para armazenar e/ou para comercializar em feiras;
  • Covador: Pessoa que exerce a função de fazer as covas, com enxada ou enxadeco, para receber as mudas de maniva no terreno, concretizando, assim, a fase inicial do plantio;
  • Dar o ponto: Estado de cozimento em que os produtos (farinha, goma e borra) e subprodutos (tapiocas, beijus, grude, bolos, etc) da mandioca atigem consistência desejada para sua finalização;
  • Embira de palha: Tipo de tecido da palha de carnaúba usado para confecção de cordas, como alça em paneiros e outros utensílios produzidos pelo trabalhador rural para carregar mandiocas ou mudas da maniva;
  • Farinha de primeira: Farinha produzida com alta qualidade de modo a ser avaliada como muito boa e vendida bem mais cara. 
  • Lavadeira: Função da pessoa (geralmente mulher) que lava a goma e/ou a borra na manipueira acentada pondo-a para secar no jirau.

Veja lista completa na tese publicada em 2018.

Legenda: A fábrica de farinha móvel é capaz de ir até o plantio, evitando despesas e mão de obra.
Foto: Divulgação/SDA

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