Católicos e umbandistas louvam Cosme e Damião

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A mistura de culturas faz do Brasil uma democracia religiosa, a exemplo das crenças em Cosme e Damião

Limoeiro do Norte. Celebração religiosa, história de dois mundos, várias crenças, dois irmãos, inúmeros relatos e a mesma fé e devoção. Num dos maiores exemplos de sincretismo religioso, uma herança colonial entre negros e brancos, comemoram-se os santos Cosme e Damião hoje e amanhã em centenas de igrejas e terreiros de Umbanda e Candomblé do País. Tradição forte nos Estados do Rio de Janeiro e da Bahia, no Ceará apenas o município de Pereiro é padroado pelos “santos gêmeos”, que foram médicos e são cultuados também em terreiros de Umbanda em cidades como Limoeiro, Aracati e Fortaleza. É o orixá dedicado às crianças, numa celebração que mais parece festa infantil.

Em um Estado como o Ceará — afeito à devoção de santas, à exceção de São José, Santo Antônio e São Pedro — não existe a mesma facilidade de se encontrar imagens dos santos Cosme e Damião. Dois homens com roupas iguais, tendo numa das mãos uma pena e na outra um livro ou um cajado. Mas em praticamente todo município é possível encontrar irmãos com tais nomes, numa clara herança de devoção, notadamente quando a graça pedida pelas mães é a saúde dos filhos. “Vem gente de vários Estados”, conta o padre Domenico Zocchi, do município de Pereiro, situado no Vale do Jaguaribe.

Fé cristã

No Ceará, a devoção ultrapassa os dois séculos, tanto pela Igreja Católica quanto pelos centros de Umbanda. Segundo aquela, os irmãos gêmeos foram médicos educados pela fé cristã, num tempo em que a religião era condenada pelo Império Romano. Formados bispos, “curando” pessoas e pregando a fé cristã na Europa, foram mortos a mando do imperador Diocleciano. São as mais variadas versões sobre o martírio — afogados, mas salvos por anjos; jogados no fogo, mas não se queimaram; atacados por pedras, que voltavam — até que, por fim, foram degolados.

Com história de cura e milagres que teriam intermediado, Cosme e Damião são considerados padroeiros dos farmacêuticos, dos médicos cirurgiões e das faculdades de Medicina — daí algumas farmácias no Interior terem esse nome. Conforme o monsenhor João Olímpio, vigário de Limoeiro do Norte, são santos muito queridos pelos inúmeros fiéis católicos.

Muito cultuados nas religiões afro-brasileiras, como Batuque, Candomblé e Xangô do Nordeste, é nos centros de Umbanda que se encontram as maiores festividades. “É o orixá que protege as crianças”, afirma Pai Salviano, de um terreiro umbandista em Limoeiro do Norte. Na Umbanda, são associados aos “ibejis”, gêmeos amigos das crianças e auxiliadores na cura de doença e no atendimento de vários pedidos, geralmente tendo em troca doces, bolos e refrigerantes. O nome Cosme significa “o enfeitado”; Damião é “o popular”.

Os ibejis ou erês (seguidores de Cosme e Damião) incorporam nos pais-de-santo e “fazem uma verdadeira festa, correm de um lado para o outro, dão cambalhotas, não deixam ninguém quieto. A criança bola no chão, pode ser um pai-de-santo de 80 anos”, afirma Pai Salviano, que não tem muito costume de cultuá-los, “mas vamos deixar pra comemorar no próximo domingo”, garante.

Ibeji e Bejada, na acepção da Umbanda, são os orixás infantis da “linha dos erês”, das sete linhas entre Yemanjá, Oxossi, Xangô e Oxum, Ogum, Preto Velho e Exu. Erês comumente incorporados nos centros de Umbanda, conforme Pai Salviano, são Chiquinho do Maranhão, Tapuia, Joãozinho do Pé do Morro, Caboclinho das Matas, Menina Carrapeta e Esmeraldina, entre outros. No Candomblé, Cosme e Damião são filhos de Xangô e Iansã, e são celebrados na festa do “Caruru”, quando um verdadeiro banquete com frutas, doces e guloseimas é distribuído para crianças de rua.

Pela forte raiz da colonização e presença do negro, Bahia e Rio de Janeiro são, de longe, os maiores centros de devoção. A Igreja de São Cosme e São Damião, no Bairro da Liberdade, em Salvador (BA), será de missas durante todo o sábado.

Embora o calendário da Igreja Católica reserve o dia 26 de setembro como o Dia de São Cosme e São Damião — uma forma de diferenciar dos ritos africanos, a tradição popular cristã e as religiões afro-brasileiras comemoram os “santos gêmeos” geralmente no dia 27, um dia depois que os festejos no Brasil. As igrejas são enfeitadas em cores, e os terreiros (gongás) ricos de bolos, tortas, refrigerantes e bombons, para oferenda aos “ibejis” e saciar a fome das crianças da comunidade nos terreiros.

Melquíades Júnior
Colaborador


FIQUE POR DENTRO

Bênção e agradecimento para os santos gêmeos

A oração de São Cosme e São Damião reza o seguinte: ´Amados São Cosme e São Damião/ Em nome do Todo-Poderoso/ Eu busco em vós a bênção e o amor / Com a capacidade de renovar e regenerar/ Com o poder de aniquilar qualquer efeito negativo/ De causas decorrentes/ Do passado e presente/ Imploro pela perfeita reparação/ Do meu corpo e dos meus filhos (coloca o nome dos filhos)/ E de minha família/ Agora e sempre/ Desejando que a luz dos santos gêmeos/ Esteja em meu coração!/ Vitalize meu lar/ A cada dia/ Trazendo-me paz, saúde e tranqüilidade/ Amados São Cosme e Damião/ Eu prometo que/ Alcançando a graça/ Não os esquecerei jamais!/ Assim seja/ Salve São Cosme e Damião/ Amém!´

Agradecimento: Ao alcançar a graça, fazer um bolo ou oferecer uma festa às crianças de rua, orfanatos ou creches.

SAÚDE

'São santos muito queridos, principalmente nas promessas dedicadas à obtenção da saúde´
Monsenhor João Olímpio
Vigário de Limoeiro do Norte

'Eles são os nossos orixás da alegria, da paz e da união, protegem e curam todas as crianças´
Pai Salviano
Umbadista de Limoeiro

PADROEIRO

Pereiro celebra festa há 210 anos

Pereiro. A Igreja mais antiga no Brasil foi erguida em 1530, em homenagem aos santos Cosme e Damião, no município de Iguaraçu, em Pernambuco. Lá, os festejos seculares tiveram início desde a semana passada, assim como na Igreja de São Cosme e São Damião, em Pereiro, na região jaguaribana do Ceará, o município do Estado que tem os santos gêmeos como padroeiros.

Conforme o pároco local, o italiano Domenico Zocchi, a festa acontece em Pereiro há 210 anos, desde que a Igreja Matriz foi construída, em 1798, pelo povoado formado por fugitivos da seca de 1777. Há 28 anos celebrando missa na cidade, Padre Domenico comemora o sucesso da festa de Cosme e Damião. “Vem muita gente de Mossoró, São Miguel e Pau-dos-Ferros, cidades do Rio Grande do Norte bem próximas, e também de outros estados como São Paulo”, diz.

Miscigenação

Os santos dos médicos, farmacêuticos, cabeleireiros, barbeiros, doceiras e orixás das crianças são celebrados principalmente amanhã em todo o País, em uma adocicada e colorida prova da miscigenação étnica, sincretismo religioso e da brasilidade. A festa a São Cosme e São Damião em Pereiro acontece por dez dias, culminando amanhã. “Não é o mesmo dia do calendário litúrgico, que coloca o dia 26, mas é uma tradição popular de muito tempo ser no dia 27, por isso não muda”, conta o padre responsável pela celebração, Donemico Zocchi.

Neste sábado, as comemorações se encerram com procissão às 16h, missa à noite a ser celebrada pelo bispo dom José Haring, da Diocese de Limoeiro do Norte. Em seguida, haverá um tradicional leilão popular de porco, galinha, sacões de grãos (arroz, feijão, etc.) e objetos, resultado das prendas colhidas durante esta semana em diversas doações dos integrantes da comunidade.

Mais informações:
Paróquia do município de Pereiro
(88) 3527.1114
Pai Salviano, pai-de-santo do município de Limoeiro do Norte
(88) 3423.2633
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