Bem e mal permeiam mito Lampião
Localizada no sertão do Pajeú, a cidade de Serra Talhada, 80 mil habitantes, ainda não assumiu a identidade do seu filho mais famoso: Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, que nasceu no Sítio Passagem das Pedras, a 45 quilômetros da sede do Município, no ano de 1897. Dezesseis anos depois da realização do plebiscito em que a população decidiu pela instalação de uma estátua do “Rei do Cangaço” em praça pública, nenhum dos sucessivos prefeitos construiu o monumento. O argumento é de que faltaram recursos. Hoje, a cidade vive a dicotomia do bem contra o mal, razão contra a emoção. Para uns, Virgulino foi uma espécie de “Hobin Hood” do Nordeste, que tomava dos ricos para dar aos pobres. Para outros, ele foi um bandido cruel, que não defendeu nenhuma causa social. Mas todos querem tirar proveito do fluxo turístico que o mito gera no Município.
Antônio Vicelmo
enviado a Serra Talhada
O atual prefeito, Carlos Evandro Pereira diz que tem interesse na construção da estátua. Segundo o secretário de Indústria e Comércio, Mário Olímpio, já existe um projeto que foi enviado ao Ministério da Cultura — a princípio, orçado em R$ 2 milhões. Mas o secretário lembra que a proposta não se resume apenas na construção da estátua que teria 40 metros de altura e seria colocada no topo da serra que dá nome à cidade. É preciso infra-estrutura de apoio, com a construção de restaurante, museu e acesso. “No total, seriam gastos cerca de R$ 20 milhões”, calcula o secretário.
O prefeito tem motivos para pessoais para construir a estátua. Ele é “lampiônico”, denominação dada àqueles que gostam da história do cangaço. Além da afinidade com a saga cangaceira, o chefe do Executivo pertence a mesma árvore genealógica do Sinhô Pereira, o precursor de Lampião. Ainda assim, o projeto não saiu do papel.
Mesmo com a dicotomia entre ver Lampião como bandido ou como herói, segmentos diversos buscam formas de obter ganhos com o potencial turístico do lugar. “A consolidação de Serra Talhada como pólo turístico depende não somente de hotéis e restaurantes, se faz necessário um trabalho de conscientização da população”. A afirmação é do presidente da Fundação Casa da Cultura, Tarcísio Rodrigues, autor do plebiscito que, em 1991, mostrou a preferência da comunidade de Serra Talhada pela estátua de Lampião. Na época, foi registrada uma maioria de 72%, mas votaram apenas seis mil eleitores dos cerca de 50 mil habitantes do Município.
“Se o plebiscito fosse realizado hoje, o quadro era outro”, diz Rodrigues, acrescentando que hoje a população tem consciência da importância histórica de Lampião. Ele explica que o turismo que pretende desenvolver em Serra Talhada é o da linha ecológica e cultural, que depende, e muito, das ações culturais do Município. Por enquanto, o fluxo turístico ocorre apenas no mês de julho, aniversário de morte de Lampião, quando são programados exposições debates, palestras e apresentações folclóricas.