A terra onde o tempo parou

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Em Cafundó, moradores não têm energia elétrica, estradas, água encanada e as casas são de taipa

Choró Na trilha da fome, um mergulho na geografia da miséria. É assim a viagem de três dias enfrentando sol, poeira, cansaço e aventura até chegar às comunidades de Cafundó e Escondido, localidades na cidade de Choró, no Sertão Central. Terra do esquecimento, dos lamentos, do abandono e da resignação. Para chegar, é preciso subir a serra de 200 metros de altura e conhecer de perto como vivem as famílias desses lugarejos.

Cafundó é a terra do nada. Aonde só se chega depois de 1h34 de caminhada subindo uma serra que, muita vezes, fica sem acesso. O caminho leva ao encontro de famílias que vivem muito abaixo do que se convencionou chamar de linha da pobreza. No lugar, somente a fé em um dia viver com dignidade.

Quando os mais velhos adoecem e precisam ir à cidade, descem carregados em uma rede, pelos filhos, netos e amigos mais próximos. A cena relembra como se o tempo ainda fosse dos eremitas. E para eles pode ser considerado assim. As crianças só vão às aulas três vezes por semana, porque não aguentam subir e descer o trajeto nos cinco dias letivos.

Marcelino Paulino da Silva, de 11 anos, é um deles. "É ruim. Para descer até que dá, pois é cedo, mas a volta, à tarde, é muito cansativo", diz. Ele garante que faz o percurso de volta para casa em 35 minutos.

O pequeno Paulino aproveita os dois dias de folga na aula para transportar água no lombo de um jegue de uma nascente para beber, cozinhar e tomar banho. Outro fator ajuda a compor o cenário do esquecimento: os adultos do lugar são analfabetos e as crianças lutam para mudar esse quadro, mesmo com tantas dificuldades.

Por todos os lados, a cena é bastante peculiar. A jovem Irismar Paulino da Silva, de 15 anos, carregava uma bacia com roupas. Ela seguia para mais um dia de trabalho. Deixou de estudar aos 14 anos porque arranjou um companheiro e precisa cuidar da casa.

O progresso ficou para trás. Cafundó é um lugar onde "antigamente" é um tempo que não passou. Não existe energia elétrica, estradas, água encanada e as casas são todas de taipa. "Aqui nunca vai poder circular um carro, uma moto, uma bicicleta e até animal precisa ser treinado para chegar até a comunidade", lamenta o morador Antônio Gomes de Sousa, 70 anos, que nunca calçou um sapato e nunca comeu arroz. "A nossa comida aqui, moço, é feijão e pão de milho, quando o inverno é bom. Caso contrário, é viver na força de Deus".

O sol e o calor dão às casas de taipa do Cafundó uma aridez sufocante. É a primeira vez que uma equipe de reportagem sobe a serra de Choró.

As crianças crescem com alimentação pobre em nutrientes: bebem garapa de limão ou chá de capim santo. A saga das famílias do Cafundó vai ganhar proporções maiores este ano. Vai para as telas do cinema. A comunidade foi filmada pelo diretor José Padilha, no documentário "Garapa", que retrata o drama do Brasil com fome.

SEM PROGRESSO
Moradores sofrem com o abandono

Choró As "Mulheres do Escondido". Assim são chamadas as filhas de Odílio Paulino da Silva, 73 anos, que moram acima de Cafundó, o ponto mais alto da serra de Choró. Fica a 600 metros acima do nível do mar. Ednilda Pereira da Silva, de 44 anos, ao lado de mais cinco mulheres, fazem as tarefas antes atribuídas aos homens.

Elas consertam cercas, limpam mato, cuidam do gado, cortam comida para os animais, remontam cercas de arames, tiram madeira na mata, consertam trilhas, transportam doentes em redes e ainda sobra tempo para pensar no futuro. Ednilda disse que não pretende deixar seus pais sozinhos no Escondido. "Enquanto eles estiverem aqui, estarei também", garante.

Paulino, que agora está em casa, recentemente teve que ser levado em uma rede para a localidade de Croatá e, depois, transportado de ambulância para Fortaleza. Ele sofre com problemas decorrentes da diabetes.

São exatos 16 quilômetros subindo serras para descobrir essa saga. Estradas vicinais não existem. Somente trilhas que, em determinados momentos, desaparecem e é necessário o auxílio do GPS para uma melhor localização. No Cafundó e no Escondido, o banho só é possível com o uso da cuia.

Outros dois moradores são Ernane Ferreira da Silva de 38 anos e sua mãe, Nilta Ferreira da Silva, de 71 anos. Ele acha o local tão isolado que fica admirado quando alguém de fora chega à localidade.

Na região existe essa sina: os homens fazem os serviços de casa e as mulheres, os serviços de campo. Do alto da serra do Escondido podemos observar as cidades de Canindé, Madalena, Choró, Quixadá e um pedaço do Quixeramobim.

Antônio Pereira da Silva, de 65 anos, chegou ao Escondido em 1958 e disse que só deixa o local para o cemitério. Já Emanuel Ferreira da Silva, de 37 anos, esteve no Rio Grande do Sul, mas voltou porque não gostou da vida agitada dos Pampas. "Bom é aqui, onde fica todo mundo junto", explica a razão da volta.

Mudanças

O prefeito da cidade de Choró, José Antônio, disse que tem se esforçado muito para mudar o quadro de vida das famílias que residem na linha da serra. "Já estive visitando a região e autorizei a instalação de um chafariz feito de anéis e agora mesmo enviei para o Escondido um professor que irá ficar a semana para dar aula às crianças que residem na região de Escondido e Guaribas. Quanto à questão de assistência à saúde, estamos providenciando a volta do agente comunitário de saúde Francisco Diniz, para acompanhar as famílias do alto da serra", confirmou o prefeito.

O problema de acesso está sendo pensando, porque a área é muito acidentada. A energia deverá chegar por meio de placa solar. Enquanto não chega o progresso em Cafundó e Escondido, o ponteiro do relógio parou no tempo do esquecimento e se recusa a passar.

Lembrança

A história de Choró lembra a do livro "Memorial de Maria Moura", de Rachel de Queiroz, que descreve o momento em que a protagonista e seu bando chegam à Serra dos Padres, terra idílica e que se acreditava isolada, sem presença humana. Mas lá eles encontram um pequeno rancho, onde vive uma viúva e seu filho que, por não haver padre num raio de quilômetros, não pôde ter um nome próprio de batismo e era chamado simplesmente de Pagão.

Desconhecido

Desconhecendo as coisas mais simples e banais, Maria Moura surpreende o menino com algo que lhe parece mágico: uma garapa de rapadura, a cujo sabor doce nunca degustado ele reage com um choro que comove a todos. Passado mais de um século em relação ao tempo da narrativa, em que a globalização e as instituições se arvoram da capacidade de alcançar a todos, surpreende o fato de existirem comunidades onde os poderes constituídos simplesmente não chegam. O abandono compreensível em épocas pretéritas torna-se, em nossos dias, motivo de questionamento.

Antônio Carlos Alves
Colaborador
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