Postura de Bolsonaro leva insegurança à população, diz Tasso 

Em entrevista, o parlamentar faz críticas ao comportamento do presidente, elogia medidas técnicas e aponta emprego como grande desafio pós-crise

Legenda: Segundo Tasso, o Governo Federal se divide entre o papel técnico que tem sido cumprido pelo Ministério da Saúde e o “comportamento errático do presidente e de alguns ministros”
Foto: Foto: Agência Senado

Com atuação forte em meio à crise do coronavírus, o senador cearense Tasso Jereissati (PSDB) considera que questões político-ideológicas têm prejudicado o Brasil na pandemia. Segundo ele, o Governo Federal se divide entre o papel técnico que tem sido cumprido pelo Ministério da Saúde e o “comportamento errático do presidente e de alguns ministros”. Na contramão, o líder tucano considera como positivas as ações do Governo do Estado no combate à pandemia de Covid-19. Em entrevista ao Diário do Nordeste, Tasso cobrou também o fim da polarização entre governadores e o presidente. Veja, a seguir, os principais trechos: 

O senhor tem, ao longo dessa crise, feito pronunciamentos fortes. Qual é a avaliação da atuação do Governo Federal?

Eu estou separando duas coisas: uma, o Governo; outra, o presidente (Jair Bolsonaro). Acho que o Governo, a partir do Ministério da Saúde, vem tendo uma atuação correta, muito técnica, seguindo as diretrizes das organizações mundiais de saúde, dos centros que fazem estudos da pandemia, enfim, tem sido extremamente técnico e correto até agora. Então, nesse ponto, diria que o Governo vai bem. Na economia, acho que se atrasou um pouco. Demorou a reagir às consequências econômicas da pandemia, principalmente as consequências do isolamento social, mas agora já tem tomado uma série de medidas corretas, que estão indo no rumo correto também. Sempre lembrando que é um problema novo e dinâmico, amanhã pode precisar de mais e, depois de amanhã, de menos. E, à parte disso, nós temos o presidente da República e alguns ministros, que estão em um comportamento errático, completamente desligados de qualquer conceito científico ou técnico, a partir de achismos e opiniões próprias, que deram, e estão dando ainda, uma série de inseguranças à população brasileira, sobre o seu comportamento, como devem fazer, o que vai acontecer. Nos últimos dias, ele (Bolsonaro) fez declaração mais conciliadora, e espero que continue assim. 

Há polêmicas entre o Parlamento e o Governo Federal. Isso envolve também estados e municípios que reclamam da demora das ações. Como tem sido o papel do Congresso nessa crise? 

A atuação do Congresso tem sido, para mim que tenho alguns anos de Congresso, surpreendentemente rápida. Todas as medidas que chegaram à mão do Congresso, nós votamos. Mesmo remotamente, por esse sistema novo. É uma experiência nova, eu mesmo estou aprendendo a lidar com isso, mas as coisas estão andando e estão sendo votadas. As medidas provisórias também, têm emendas, tem discussão, mas, dentro do prazo, estão sendo aprovadas. Algumas medidas estão realmente demorando a chegar, e outras são difíceis mesmo de chegar na ponta, por exemplo, a renda básica de R$ 600. Temos que compreender que é difícil você cadastrar todos aqueles que precisam, que não têm nenhum tipo de benefício, que não têm emprego, que não têm aposentadoria, não têm seguro-desemprego, não têm nada. Então isso é difícil, mas já começou a chegar. Nós temos que ter um pouco de paciência e, à medida em que as coisas vão se atrasando, é obrigação nossa, principalmente nós parlamentares, e aqui do Ceará, fazer pressão para que cheguem. Aqui na Saúde mesmo, tenho conversado com o secretário, que tem reclamado muito que determinados equipamentos não chegam ao Ceará, estão prometidos e não chegam ao Ceará, e nós, dentro da nossa possibilidade, lá no Senado, estamos fazendo pressão para que cheguem imediatamente. 

Quando o governador Camilo Santana baixou um decreto flexibilizando medidas para alguns setores, o senhor foi a primeira voz a se levantar contra. Como está sendo a atuação do Governo do Estado na crise? 

Felizmente, o governador voltou atrás em tempo. Porque, novamente, existe pressão de vários setores, com certeza, para que seja feita uma flexibilização. A gente pode até entender, porque eu, por exemplo, sou acionista de empresas que estão sofrendo muito e tem pequenos empresários também que estão sofrendo muito, com faturamento chegando perto de zero. Então, a gente entende essa angústia. No entanto, é preciso ter a compreensão de que nós temos que obedecer aquilo que o mundo inteiro está fazendo e que as autoridades sanitárias estão sugerindo. Aqui no Ceará, nós estamos vivendo um momento muito crítico. Agora que está chegando nos bairros de Fortaleza e no interior do Estado, justamente àquelas populações que são mais vulneráveis e não têm acesso a serviços privados. Então, esse é o momento mais difícil em que nós estamos entrando, da nossa crise, da expansão do vírus na nossa sociedade. \[...\] Nós temos que entender o momento que estamos vivendo, cada um trincar os dentes e aceitar que nós temos que viver esse momento de dificuldade. 

No conjunto de medidas que o governador tem adotado, o senhor tem sido favorável? 

Sim, sim. Eu publicamente fiz isso (reconheceu quando acertou). No momento em que ele reconsiderou a decisão dele (ainda sobre o decreto de flexibilização), eu elogiei, acho que foi bastante importante. E todo mundo erra, eu espero que não erre mais. Espero que siga as determinações. Nós temos um secretário de Saúde muito competente e que ele que dê a palavra final sobre a questão (de flexibilizar ou não questões como o isolamento). 

Antes da eleição do presidente Bolsonaro, PT e PSDB rivalizavam essa disputa pela Presidência. Diante de um caso tão grave, como os dois partidos têm se posicionado? 

Digo com certa satisfação que hoje, no Congresso Nacional, nós esquecemos os partidos. Não tem oposição, não tem situação, o problema é superar esse momento que estamos vivendo. Eu, pessoalmente, acho que é o momento mais difícil e mais grave que eu já vivi na minha vida pública. Com certeza é o mais grave. Nunca esperei viver momento como esse. E essa consciência está existindo nos partidos políticos. Se você olhar as últimas votações no Congresso Nacional, principalmente no Senado, onde eu atuo, nós estamos votando todos os partidos igualzinho. Igualzinho, sem nenhuma questão partidária, política ou ideológica. E espero que continue como está. 

Essa crise tem gerado especulações em todas as áreas. O senhor acha que essa pandemia tem impacto na eleição de 2020? Considera adiar o pleito? 

É difícil a gente dizer hoje. Acho que, falando em adiar, é cedo. Nós demoramos muito para conseguir e lutamos muito para conseguir a normalidade democrática. Acho que não dá para definir hoje se devemos ou não adiar as eleições. Porque também é muito sério a gente quebrar o ritmo normal eleitoral democrático. Eu não queria nunca mais ter esse ritmo quebrado. Mas acho que, se lá para junho, não tivermos ainda controlado devidamente esse vírus, aí nós temos que discutir o assunto, sem dúvida nenhuma. Mas, a princípio, eu gostaria que isso não acontecesse. 

O senhor foi relator da reforma da Previdência no Senado. O senhor acha que essa crise põe por terra esse esforço que foi feito com a reforma para a recuperação da economia? 

Ela não põe por terra a reforma. Ela põe por terra os ganhos da reforma neste ano. Porque todas as medidas que estão sendo tomadas vão elevar enormemente o déficit público. Há quem fale em R$ 500 bilhões de déficit público neste ano, quando se esperava ao redor de R$ 120 bilhões. Todas as medidas que estão sendo tomadas para aliviar esse sofrimento da população, proteger as empresas, são temporárias. Assim que o momento crítico da pandemia passar, essas medidas todas cessam, e vão ter, sem dúvida nenhuma, um impacto enorme neste ano, com esse déficit que já falei, mas, a partir do ano que vem, volta-se à normalidade e evidentemente vamos voltar ao patamar anterior, porque as medidas de contenção de gastos públicos, os esforços, vão ter que ser maiores ainda.

Quais são os pontos centrais que o Brasil e o Ceará vão ter que discutir depois que essa crise passar? 

A retomada do emprego vai ser a grande discussão que nós vamos ter que tomar. A retomada do investimento. E como fazer isso sem ter inflação, porque está sendo injetada uma quantidade de recursos tão grande na economia nesses dias, que existe também o perigo de que haja uma volta da inflação. Então vai ser um equilíbrio muito difícil, mas tenho muita esperança. A recuperação da economia vai ser mais rápida do que a gente está acreditando no momento.

Aproximações eleitorais

Questionado sobre possível aproximação eleitoral entre PSDB e PDT na Capital, Tasso Jereissati ressaltou que articulações tucanas estão a cargo de Luiz Pontes, presidente estadual do partido. “Estou vendo de longe. Quem está conduzindo isso é o presidente do partido, o Luiz Pontes. A princípio, lançamos o Carlos Matos (pré-candidato a prefeito) e estamos avaliando”.

Diálogo

Segundo Tasso, Luiz Pontes “tem conversado com vários outros partidos”. Ele disse acreditar que, até julho, se tudo se normalizar, o PSDB deve ter uma decisão mais clara. “Mas o nosso candidato, hoje, é o Carlos Matos”, apontou. O senador afirmou ter boa relação com o PDT, mas ponderou que visões sobre a cidade também devem pesar para uma definição: “isso tudo está sendo avaliado”.

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