Para além da TV, redes sociais impulsionam campeões de votos

Candidatos de partidos sem muito tempo de propaganda no horário eleitoral gratuito tiveram votações expressivas pelo País, inclusive no Ceará. Especialistas avaliam o uso de redes sociais durante a campanha deste ano

A presença de candidatos nas redes sociais na eleição deste ano expôs um fenômeno singular: partidos e coligações com grande tempo de rádio e TV não conseguiram eleger nomes conhecidos e que tentaram reeleição, enquanto outros - até então pequenos - apostaram nas redes sociais e foram fenômeno eleitoral.

O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), por exemplo, teve apenas oito segundos de propaganda na TV no primeiro turno e saiu vitorioso da disputa. No Ceará, o youtuber André Fernandes, 20 anos, também filiado ao PSL, foi o mais votado para ocupar vaga na Assembleia Legislativa.

De acordo com especialistas, a eleição mostrou que é preciso atentar para diferenças no uso de redes sociais em campanhas majoritárias e proporcionais. "As disputas demandam diferentes gramáticas de comunicação nas redes. Nas eleições proporcionais, o candidato não tem a necessidade de conquistar a maioria dos votos, mas somente uma parcela necessária à sua eleição", observa o cientista político Felipe Hermann, doutorando em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

"Com isso, pode concentrar a estratégia eleitoral a determinado perfil de eleitor e, assim, ter um efeito positivo, pois pode reunir em uma mesma rede um conjunto de pessoas que partilham da mesma visão de mundo", acrescenta.

Na análise de Mariella Mian, pesquisadora de redes sociais e política na Universidade Federal do ABC (UFABC), um drástico efeito desse novo fazer político, porém, refere-se às desinformações. "Não gosto muito do termo 'fake news', pois não se tratam de notícias necessariamente falsas, mas, sim, de uma distorção de realidades, manipulação de imagens, notícias requentadas, vídeos com trechos que, isolados do contexto geral, se transformam em discursos extremistas".

Enquanto o desempenho no Facebook pode ser medido pelo número de reações, comentários e compartilhamentos na página de um candidato, as menções no Twitter são um termômetro de visibilidade, a partir do número de vezes em que expressões com o nome dos postulantes podem ser encontradas.

Movimentação

A dinâmica das redes sociais durante a eleição foi acompanhada por pesquisadores da UFABC, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Por meio de softwares específicos, foram filtrados os principais temas relacionados à disputa e extraídas as publicações mais compartilhadas no Facebook e no Twitter.

Na semana de 30 de setembro a 7 de outubro, anterior ao primeiro turno, entre os dez posts mais compartilhados no Facebook, oito estavam relacionados a Jair Bolsonaro. Já entre os 10 posts mais compartilhados no Twitter, cinco eram favoráveis ao eleito, que naquele período tinha oito segundos na TV.

"As redes sociais são ferramentas que ampliam a voz dos usuários e possuem um caráter de comunicação mais horizontalizado do que os meios de comunicação tradicionais", ressalta Mariella Mian. Segundo ela, contudo, alguns candidatos perderam a "oportunidade de utilizar as redes para estreitar relações" ao adotar "estratégias de marketing digital com preceitos éticos bastante questionáveis", como a utilização de robôs.

"Esse tipo de ação pode gerar a falsa sensação de que há um engajamento orgânico nas redes sobre determinado tema ou candidato e confundir a tomada de decisão".

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