Na CPI da Covid, Mayra Pinheiro reforça papel de escudo técnico do Governo, dizem analistas

Mesmo com contradições no depoimento, médica cearense foi firme na defesa do contestado "tratamento precoce"

Mayra Pinheiro
Legenda: Depoimento da médica cearense durou cerca de sete horas
Foto: Agência Senado

No depoimento que deu à CPI da Covid-19 nesta terça-feira (25), a médica cearense Mayra Pinheiro, secretária de gestão do trabalho e da educação do Ministério da Saúde, fez o que o Governo esperava dela. Apesar de ter exposto contradições da gestão em relação principalmente à crise em Manaus no início do ano e ao aplicativo TrateCov, manteve firme defesa do chamado “tratamento precoce” e se esquivou de perguntas que ensejavam críticas diretas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Entre os senadores cearenses, teve em Eduardo Girão (Podemos) um aliado durante a sessão e em Tasso Jereissati (PSDB) um crítico no que tange às divergências de recomendações médicas. 

O depoimento durou cerca de 7 horas, com Mayra sempre buscando demonstrar ar técnico nas respostas. Em diversos momentos, porém, teve posições questionadas pelos senadores. Tasso Jereissati, por exemplo, perguntou sobre a não recomendação de entidades médicas em relação à cloroquina e à hidroxicloroquina. “Você e a sua equipe de cinco médicos não acreditam na Sociedade Brasileira de Pediatria, Organização Mundial da Saúde ou Anvisa. Acreditam então em quais orientações?”, questionou o parlamentar. 

A participação da cearense na CPI foi um dos destaques do programa PontoPoder, da TV Diário, nesta terça. Assista:

A resposta de Mayra foi no sentido de ampliar o que se considera como tratamento precoce. “A primeira coisa que devemos fazer é salvar a vida das pessoas [...], e a gente não está falando só de cloroquina ou de hidroxicloroquina, estamos falando de outros 17 medicamentos”, respondeu a médica cearense. 

Tasso faria ainda uma segunda pergunta. Ele questionou a secretária sobre a cloroquina ser um medicamento antiviral ou não. Para continuar o assunto e encaminhar a pergunta, cedeu o tempo restante ao senador Otto Alencar (PSD-BA), que é médico e fez uma série de questionamentos à cearense sobre o manuseio desse tipo de medicamento. 

“Não existe evidência de que possa evitar o vírus. Não tem nenhum estudo para comprovar que é antiviral. Há como se aplicar uma medicação em um paciente sem antes fazer os estudos pré-clínicos ou in vitro?”, indagou.  

O senador buscou reforçar a tese questionando sobre medicações para tratar uma série de viroses, como sarampo, varíola, paralisia infantil e H1N1. Com a resposta negativa, reforçou a importância da vacinação. Em momento posterior, Mayra seria questionada pela senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) sobre o apelido “Capitã Cloroquina”. “Não sou oficial do Estado, sou médica. Prefiro ser chamada de Dra. Mayra Pinheiro”, respondeu. 

Elogios a Mayra, críticas ao Governo 

As interações do senador cearense Eduardo Girão (Podemos) com a secretária foram elogiosas e em corroboração aos argumentos dela. Girão elogiou a participação de Mayra e disse que a médica “deu um show” ao responder as perguntas dos senadores. Ele defendeu a tese de que os medicamentos utilizados para supostamente tratar precocemente pacientes com Covid-19 foram prejudicados porque houve uma “politização do tema”. 

Girão chegou a reclamar que Mayra havia sido destratada, referindo-se ao apelido “Capitã Cloroquina”, e tentou colocar pressão para que seus requerimentos para convocação de representantes de estados e municípios sejam aprovados nesta quarta-feira (26). “Espero que esse dia marque um divisor de águas para que a CPI possa se aprofundar em outros temas. Senadores utilizaram esses medicamentos. Por que negaram para a população?”, questionou. 

O senador do Podemos também sinalizou críticas a Jair Bolsonaro. “Discordo do presidente da República quando mostra o remédio, quando não usa máscaras. Mas foi por isso que os medicamentos foram demonizados”, pontuou. Girão protocolou requerimento para que a Presidência da República forneça informações sobre a visita de Bolsonaro aos municípios cearenses de Caucaia e Tianguá, no dia 26 de fevereiro. 

“O fato é que durante a estadia do presidente Jair Bolsonaro em solo cearense, houve registros de aglomerações e falta do uso de máscara, fato que contraria as melhores práticas sanitárias nesse momento de pandemia provocada pelo Sars-CoV-2”, diz trecho do documento. 

Contradições  

Durante o depoimento, Mayra negou que o aplicativo TrateCov, que prescrevia medicamentos do chamado “Kit Covid”, tenha sido alterado por hackers, contradizendo depoimento do ex-ministro Eduardo Pazuello, que havia alegado que o programa foi lançado de forma incompleta nas redes, após ter sido roubado e manipulado.  

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) fez críticas ao estudo que amparou a elaboração do TrateCov. “O estudo foi avaliado como de baixíssima credibilidade, métrica questionável e, mais ainda, o autor do estudo veio a público informar que jamais foi consultado pelo Ministério da Saúde e que nunca pensou em usar o aplicativo para receitar ou indicar medicamentos. Era apenas uma ferramenta para facilitar o isolamento”, explicou. 

Mayra respondeu: “O que aconteceu é que nós fizemos uma ferramenta que seria extremamente útil para a sociedade, como instrumento de trabalho e agilidade de diagnóstico, e ela foi usada indevidamente por uma pessoa que extraiu os dados da plataforma e fez simulações fora do contexto real”, justificou a médica. 

A cearense também disse aos senadores que o Ministério da Saúde foi informado sobre a falta de oxigênio em Manaus no dia 8 de janeiro, através de um e-mail da empresa White Martins repassado pela Secretaria Municipal de Saúde. Na semana passada, o ex-ministro Eduardo Pazuello havia dito à CPI que a Pasta teria sido informada somente no dia 10. 

Análise do depoimento

Para especialistas, apesar das contradições, o depoimento fortaleceu a imagem de Mayra Pinheiro como defensora técnica de bandeiras do Governo na pandemia. 

“O depoimento solidificou a imagem com a qual ela é conhecida na imprensa e em alguns meios políticos, de Capitã Cloroquina. Em nenhum momento ela voltou atrás no que diz respeito a recomendação, orientação, uso da cloroquina. Mayra se mostrou hoje como uma exímia missionária, soldada, capitã do governo Bolsonaro”, avalia o cientista político Emanuel Freitas, da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

O professor, por outro lado, busca esclarecer a confusão que se tenta fazer com o real significado de “tratamento precoce”. "O embate fica sendo em oferecer ou não tratamento precoce como se isso fosse ser atendimento precoce na rede pública e particular de saúde. A expressão virou sinônimo de cloroquina, e isso não é legal, porque o bolsonarismo fica dizendo que governadores e prefeitos querem negar esse tipo de atendimento”, pontua. 

Já a também cientista política e professora universitária, Carla Michele Quaresma, considera que Mayra Pinheiro teve um depoimento “muito tranquilo”. 

“Se nós considerarmos que a própria depoente não teve que lançar mão do seu instrumento para se manter em silêncio (habeas corpus preventivo concedido pelo STF), principalmente nas questões relativas à situação de Manaus, ela seguiu uma linha que já vem sendo adotada. Ela tem um perfil inegavelmente técnico, defendendo aquilo que ela acredita com muita veemência, mas nós observamos muitas contradições no discurso”, apontou. 

De acordo com a cientista política, apesar do desempenho “tranquilo”, há pontos do depoimento que podem ser explorados pela oposição. 

“Em relação aos estudos que, segundo ela, demonstram muita eficácia de alguns medicamentos pra tratar precocemente a doença, mas ela não cita as fontes, não fala sobre as metodologias desses estudos. A própria questão relativa a Manaus, ela fala que esteve lá, mas não conseguiu ainda assim identificar o que seria o caos decorrente da ausência de oxigênio. Houve contradições que obviamente comprometem”, avalia Carla Michele. 

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