De Cid Gomes a Ernesto Araújo, relembre ministros que caíram após embates no Congresso

Cid Gomes, Abraham Weintraub, Paulo Guedes e Ricardo Vélez Rodríguez estão entre os ministros que participaram de bate-bocas com membros do Legislativo Federal. Alguns terminaram sendo demitidos

Escrito por Igor Cavalcante, igor.cavalcante@svm.com.br

Política
Cid Gomes discursa na Câmara dos Deputados, à época presidida por Eduardo Cunha
Legenda: Cid Gomes discursa na Câmara dos Deputados, à época presidida por Eduardo Cunha
Foto: Gustavo Lima / Câmara dos Deputados

Após mais de dois anos à frente do Ministério das Relações Exteriores, Ernesto Araújo anunciou o pedido de demissão nesta segunda-feira (29). Ao longo do período que ficou à frente da Pasta, ele se envolveu em diversas polêmicas e adotou uma postura diplomática de isolamento. Contudo, o estopim para a saída de Araújo foi o desgaste com parlamentares brasileiros. 

Bate-bocas entre ministros e parlamentares se tornaram mais comuns nos últimos dois anos e, em alguns casos, levaram o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) a escolher entre aliados de primeira ordem ou membros do Legislativo. A relação pouco amistosa entre os dois poderes criou o clima propício para elevar a temperatura em Brasília. 

Há também casos semelhantes em outras gestões. Um dos casos marcantes envolveu o então Ministro da Educação, Cid Gomes (PDT), e o (à época) presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (MDB). A disputa terminou com o pedido de demissão do pedetista. 

O Diário do Nordeste relembra alguns casos de disputa entre ministros e parlamentares. Confira: 

“Lobby chinês”

Data: 28/03/2021

Integrante da chamada ala ideológica do Governo Bolsonaro, Ernesto Araújo teve atritos com diversos parceiros comerciais do Brasil, principalmente com a China. No entanto, o ambiente político se tornou insustentável para o ministro neste mês, em meio à segunda onda da pandemia. Empresários e políticos atribuíram a ele a dificuldade de negociações internacionais na busca por insumos e vacinas. 

Araújo foi ao Senado prestar esclarecimentos na última quarta-feira (24). Diversos senadores, entre eles o cearense Tasso Jereissati (PSBD), fizeram um apelo para que o ministro renunciasse. 

Já encurralado, Araújo dobrou a aposta e, no fim de semana, expôs uma suposta conversa privada que teve com a senadora Kátia Abreu (PP). O ministro sugeriu que a ofensiva contra ele fazia parte de uma ação em favor da China. 

A postura do ministro despertou reação em cadeia dos senadores.

Essa constante desagregação é um grande desserviço ao País”, disse o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM).

Kátia também rebateu, chamando Araújo de “marginal”, "alguém que insiste em viver à margem da boa diplomacia". Na queda de braço, o ministro acabou pedindo demissão nesta segunda-feira (29). 

“Office boy”

Data: 6/8/2019

Após substituir o então diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi à Comissão de Integração Regional e Desenvolvimento Regional da Amazônia prestar esclarecimentos. O encontro com os deputados, no entanto, terminou com o ministro saindo escoltado da Casa. 

O ápice da tensão ocorreu quando o deputado federal Nilto Tatto (PT) afirmou que Salles agia como os bandeirantes, que na colonização do Brasil exploravam as riquezas naturais.

“O senhor é o 'office boy' desse modelo de desenvolvimento que quer destruir os recursos naturais e comprometer a vida no futuro. O senhor só não se parece fisicamente com Borba Gato, Fernão Dias e Domingos Jorge Velho, mas a ação que o senhor faz é do novo bandeirantismo que vai lá cooptar, matar”, disse o petista. 

“Eu não sou office boy de coisa nenhuma”, disse o ministro. “Não admito que o senhor me trate desse jeito”, acrescentou Salles. Em meio à troca de acusações, gritaria e insultos, a sessão precisou ser suspensa. 

Confira o bate-boca de Ricardo Salles na Câmara: 

“Juiz ladrão”

Data: 2/7/2019

No auge dos vazamentos de conversas entre o ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro e procuradores da Lava Jato, o auxiliar do presidente foi convidado à Câmara para explicar o caso. Na audiência, uma acusação do deputado federal Glauber Braga (Psol) foi o estopim para uma confusão com o ministro. 

Veja a falta de Galuber Braga contra Sergio Moro: 

A reação veio de apoiadores do Governo. A mais contundente foi do deputado Éder Mauro (PSD), que partiu para cima do companheiro de Casa. Ambos tiveram de ser contidos e a sessão foi encerrada sob gritos de “fujão” para Moro. 

“Um deputado absolutamente despreparado, que não guarda o decoro parlamentar. Fez uma agressão, ofensas. São inaceitáveis. Infelizmente teve que encerrar a sessão. A culpa é desse deputado totalmente despreparado. Glauber, acho. Glauber alguma coisa. Sabe Deus de onde veio isso aí”, declarou o então ministro após a audiência. 

“Pega o beco”

Data: 16/5/2019

O polêmico ministro Abraham Weintraub foi outro que entrou em atrito com o Legislativo. Convocado pela Câmara para explicar cortes na Educação, o ministro provocou os deputados e foi hostilizado. 

Weintraub insinuou que os deputados não trabalhavam. “Fui bancário, carteira assinada, azulzinha, não sei se vocês conhecem". A fala foi rebatida. "Eu, como presidente da mesa, me senti ofendido", disse o deputado Marcos Pereira (PRB). 

Weintraub esteve em nova audiência na Casa em dezembro daquele ano. À época, a visita ficou marcada por uma crítica do deputado cearense Idilvan Alencar (PDT). "O senhor não tem condição técnica de estar nessa posição, não tem", disse. "O senhor já disse que não é de aceitar recomendação pessoal, mas eu vou dar uma: acho que o senhor deveria aproveitar o Natal e pegar o beco", acrescentou.

“Tchutchuca”

Data: 3/4/2019

No caso do ministro da Economia, Paulo Guedes, o impasse com a Câmara terminou em tumulto. Em abril do ano passado, o economista foi a uma audiência na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados para apresentar a Reforma da Previdência.

No encontro, deputados da oposição fizeram uma ofensiva contra Guedes, mas foi após uma declaração do deputado Zeca Dirceu (PT) que a confusão se instalou. O petista afirmou que o ministro agia como um “tigrão” contra aposentados, mas era “tchutchuca” quando lidava com os “mais privilegiados”. 

Parlamentares reagiram pedindo decoro ao deputado. Guedes também rebateu o ataque.

“Tchutchuca é a mãe, tchutchuca é a vó", disse Paulo Guedes.

A sessão precisou ser interrompida após troca de acusações entre parlamentares da base e da oposição. 

“Saia do cargo”

Data: 27/03/2019

Em apenas quatro meses à frente do Ministério da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez teve uma gestão marcada por controvérsias e recuos. O titular da pasta travou disputa interna para tornar o Ministério mais ideológico. Vélez tem forte identificação com o guru bolsonarista Olavo de Carvalho. 

Por causa da disputa, com seguidas demissões e nomeações na Pasta, o ministro foi chamado à Câmara. Entre as críticas, chamou atenção a da deputada federal Tábata Amaral (PDT), que foi apontada como o estopim para a saída do ministro.

"Eu não espero mais nenhuma resposta, já entendi que isso não vai acontecer. A mim, me resta lamentar o que está acontecendo, continuar o meu trabalho de educação, que não começa com este mandato, e esperar que o senhor mude de atitude - o que parece completamente improvável - ou saia do cargo de ministro da Educação", concluiu Tábata. 

Após as críticas da parlamentar, Vélez deixou a Câmara. Menos de duas semanas depois, ele foi demitido do cargo

“Achaque”

Data: 18/3/2015

Convocado à Câmara dos Deputados para dar explicações sobre uma declaração em que teria afirmado ter de 300 a 400 parlamentares que “achacam”, Cid Gomes foi além. Ele reafirmou as declarações e acusou diretamente o então presidente da Casa, Eduardo Cunha. 

“Eu fui acusado de ser mal educado. O ministro da Educação é mal educado. Eu prefiro ser acusado por ele (Eduardo Cunha) do que ser como ele, acusado de achaque”, disse.

Cid também afirmou que muitos parlamentares integravam o Governo Dilma por "oportunismo". “Larguem o osso”, recomendou. 

Relembre a fala de Cid Gomes para Eduardo Cunha:

Na visita à Câmara, Cid foi acompanhado por deputados cearenses, que aplaudiram o episódio das arquibancadas; veja matéria completa em https://bit.ly/2FldfHz

Publicado por Diário do Nordeste em Segunda-feira, 18 de março de 2019

As falas do pedetista provocaram embates tensos na Câmara. Cid, contudo, deixou o plenário após o discurso, foi ao Palácio do Planalto e pediu demissão à presidente Dilma Rousseff. "A minha declaração na Câmara, é óbvio que cria dificuldades para a base do governo. Portanto, eu não quis criar nenhum constrangimento. Pedi demissão em caráter irrevogável", declarou.

 

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