Bancada cearense repercute nova crise no governo Bolsonaro

Ex-ministro Ciro Gomes e parlamentares repercutem saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça e da Segurança Pública. No Congresso, cearenses se dividem entre críticas e elogios à trajetória do ex-ministro

Escrito por Flávio Rovere e Jéssica Welma, politica@svm.com.br

Política
Legenda: Ex-ministro Sérgio Moro em entrevista coletiva
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O pedido de demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública foi de rápida e grande repercussão, virando o assunto do dia nas redes sociais de personagens do mundo político, sejam eles aliados ou opositores do presidente Jair Bolsonaro, dando o tom do agravamento da crise em torno do Governo. 

Em transmissão ao vivo simultânea à entrevista coletiva de Moro, o senador Luís Eduardo Girão (Podemos) considerou acertada a decisão do ex-ministro, diante das circunstâncias.

"Eu acreito que ele está certo, não tinha que aceitar interferência política na Polícia Federal. A Polícia Federal tem que estar acima, tem que ter autonomia para fazer o seu trabalho, e nós estamos tendo hoje no Brasil uma grande perda", lamentou o senador, que dividiu palanque com Bolsonaro em 2018, mas criticou a incoerência do presidente. 

"Foi uma bandeira do presidente da República durante toda a campanha, e que nao podia retroceder com relaçao a interferências políticas na Polícia Federal", disse.

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Vice-presidente nacional do PDT, partido que, na última quarta-feira, protocolou pedido de impeachment contra Bolsonaro, o ex-ministro Ciro Gomes usou o twitter para apontar, a partir da fala de Moro, crimes que teriam sido cometidos pelo presidente da República.

"Nesta confrontação chocante entre Moro e Bolsonaro, o País ganha muito com a briga em si. Só hoje já tivemos notícia de uma lista de artigos do código penal, além de crime de responsabilidade: prevaricação, falsidade ideológica, tráfico de influência, obstrução da justiça, abuso de autoridade, e contando... ", publicou.

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Pela mesma rede social, o colega de partido André Figueiredo, deputado da bancada federal cearense, puxou o coro de "#ForaBolsonaro", destacando o que considerou mais grave no depoimento de Sérgio Moro. "Interferência política... Maurício Valeixo não queria sair da direção geral da PF e foi forçado a acatar a exoneração 'a pedido'", escreveu.  

Idilvan Alencar (PDT) também usou as redes sociais para criticar Bolsonaro. "Moro pediu demissão e disse que saía porque Bolsonaro quis interferir na PF. Isso é gravíssimo! Ele deu prestígio e credibilidade ao governo com sua imagem de 'implacável contra a corrupção'. Sua saída deixa claro que foi apenas uma manobra para enganar o povo", afirmou.

Outro pedetista da bancada federal, Robério Monteiro escreveu: "Em meio a uma crise mundial de saúde pública, nossa nação também vive uma crise política. Sérgio Moro deixa a pasta e também muitas interrogações para todo o contexto motivacional".

O Brasil perde um braço forte no combate à corrupção

O deputado Capitão Wagner (Pros), um dos entusiastas da campanha de Bolsonaro em 2018 e da nomeação de Moro para o ministério, lamentou a saída do ministro. "O Brasil perde um braço forte no combate à corrupção", escreveu.

Moro também foi alvo de críticas. Líder da maioria na Câmara dos Deputados, José Guimarães (PT) afirmou que o depoimento de Moro deixou clara uma "cumplicidade" anterior entre ele e Bolsonaro em relação a investigações que se aproximavam do Palácio do Planalto, como no caso envolvendo o motorista Fabrício Queiroz e o senador Flávio Bolsonaro. "Ele silenciou", disse Guimarães.

Os fatos denunciados pelo ex-ministro Sérgio Moro agravam ainda mais a crise institucional em que o Brasil está metido

O petista, porém, foi mais duro em relação à conduta do presidente da República. "Os fatos denunciados pelo ex-ministro Sérgio Moro agravam ainda mais a crise institucional em que o Brasil está metido. Primeiro, (...) a demissão do diretor-geral da Polícia Federal e uma denúncia clara de que ele quer interferir na autonomia e no trabalho da Polícia Federal, é muito grave. Isso é crime. Não é possivel nós aceitarmos isso", protestou.

O deputado José Airton Cirilo (PT) disse que "a saída de Moro mostra a podridão do Governo Bolsonaro e a parcialidade de Moro e seus crimes, pois perseguiu Lula, se calou e não investigou o Queiroz e as milícias". Ele se referiu ao ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, que passou a ser investigado em 2018 depois que o Coaf (atual Unidade de Inteligência Financeira) identificou diversas transações suspeitas ligadas ao ex-assessor.

Luizianne Lins (PT) também disparou contra o ex-ministro. "Coerência nunca foi o forte de Moro. Quando tava de bem com o bolsonarismo, calou sobre Queiroz, Marielle, fakenews, condenou Lula sem provas, calou sobre milícias, ataques ao STF e ao Congresso, foi ministro de Bolsonaro, e ainda quer se passar por coerente", publicou a deputada federal pelo Twitter.

Já o deputado federal Roberto Pessoa (PSDB) lamentou a saída de Moro. "Vejo como algo muito grave a saída do ministro Sérgio Moro, do Ministério da Justiça. Um homem com grande credibilidade, que combateu ferozmente o crime organizado e colocou o Brasil nas manchetes internacionais, como um país que queria muito se encontrar com a justiça. A Polícia Federal é uma das instituições mais sérias e que deve continuar sendo isenta", cobrou.

Antigo aliado de Bolsonaro, de quem se afastou após racha no PSL, no ano passado, o deputado federal Heitor Freire evitou polêmicas e apenas agradeceu o ex-ministro.

"Obrigado ao ministro Sergio Moro pelo trabalho à frente do Ministério da Justiça! Deixa um grande legado para o nosso país! Que ele siga um novo caminho com muita sorte e muito trabalho! Esperamos a nomeação de um novo representante da pasta que tenha muito compromisso e responsabilidade para assumir esse desafio!", escreveu.

O deputado Pedro Augusto Bezerra (PTB) também usou as redes sociais para agradecer pelo trabalho do ex-ministro. "Em especial, pela atenção que foi dada ao Estado do Ceará nas duas ocasiões em que foi necessária a ajuda da Força Nacional de Segurança", pontuou.

CPI

Para o deputado Célio Studart (Partido Verde), as tentativas de interferência política na Polícia Federal devem ser investigadas mais a fundo. “As acusações do ex-ministro Moro são muito graves, pois a Polícia Federal jamais pode ser aparelhada. Acabei de assinar CPI para investigarmos toda esta questão", disse após apoiar iniciativa do colega Aliel Machado (PSB/PR).

Outro parlamentar a apoiar investigação envolvendo as declarações de Moro em seu ato de demissão é Denis Bezerra, presidente estadual do PSB. "As afirmações dadas em coletiva no dia de hoje, 24, são gravíssimas e indicam possíveis crimes praticados pelo atual Presidente da República. Após colhidas as 171 assinaturas necessárias para o requerimento, vamos pressionar para que o presidente Rodrigo Maia instale a CPI", disse Bezerra.

O deputado Eduardo Bismarck (PDT) não se pronunciou sobre o assunto, mas justificou não ter acompanhado o pronunciamento devido à necessidade de realizar um procedimento de saúde nesta sexta-feira.

O Diário do Nordeste também solicitou pronunciamento dos senadores Cid Gomes (PDT) e Tasso Jereissati (PSDB) e dos deputados Domingos Neto (PSD), AJ Albuquerque (Progressistas), Dr. Jaziel (PL), Vaidon Oliveira (Pros), Genecias Noronha (SD), Junior Mano (PL), Leônidas Cristino (PDT) e Moses Rodrigues (MDB), que não se manifestaram nas redes sociais.