Segurança das mulheres em eventos populares: o papel das políticas públicas locais

Outro aspecto essencial é o encaminhamento adequado das mulheres que buscam ajuda

Escrito por
Ana Addobbati producaodiario@svm.com.br
CEO Livre de Assédio e presidente do Instituto Livre de Assédio
Legenda: CEO Livre de Assédio e presidente do Instituto Livre de Assédio

Falar de grandes eventos em Fortaleza é falar de território. Aproveitando o tempo de Carnaval, para lembrarmos do calendário de eventos que deixam as ruas ocupadas como também ocorre nas festas juninas que mobilizam comunidades inteiras e no Fortal, que projeta a cidade nacionalmente e movimenta a economia local. Mas também é falar de um desafio permanente para o poder público: como garantir que mulheres circulem com liberdade e segurança nesses espaços. 

O assédio, a importunação e a violência contra a mulher não são excessos da festa nem comportamentos aceitáveis em nome da alegria coletiva. São formas de violência previstas em lei. E a efetividade dessas leis depende da capacidade do município e do estado de transformá-las em prática concreta, especialmente em eventos de grande porte e alta circulação de pessoas. 

A experiência mostra que campanhas genéricas não são suficientes. A prevenção ao assédio exige protocolos claros, treinamento contínuo e articulação entre diferentes atores. Em Fortaleza, onde grandes eventos convivem com uma intensa economia informal e forte participação comunitária, o recorte social e territorial não é acessório — é central. 

Como pioneira no desenvolvimento de protocolos de prevenção e resposta ao assédio na Livre de Assédio, atuando em parceria com o poder público, aprendi que não existe solução única. Protocolos eficazes são aqueles que respeitam a dinâmica local, a cultura do evento e as vulnerabilidades específicas de cada território. 

Experiências em outras cidades do Nordeste indicam caminhos possíveis. Em Salvador, a atuação conjunta com a prefeitura priorizou o treinamento de ambulantes, em sua maioria mulheres, transformando-as em aliadas estratégicas na prevenção. Ao reconhecer situações de risco e orientar mulheres, ampliam o alcance da política pública no território. 

Em Olinda, a estratégia combinou pontos de acolhimento, equipes treinadas para atendimento humanizado, comunicação acessível para turistas e capacitação da Guarda Municipal. A integração entre acolhimento e resposta institucional fortaleceu a aplicação concreta dos protocolos durante os eventos. 

Esses aprendizados dialogam diretamente com a realidade de Fortaleza — não apenas no Carnaval, mas também nas festas juninas e no Fortal. Eventos distintos, mas com desafios semelhantes: grande circulação de pessoas, consumo de álcool, equipes temporárias e múltiplos atores envolvidos. Ambulantes, trabalhadores temporários, produtores culturais, gestores de camarotes, empreendedores, hotéis e pousadas precisam ser incorporados às estratégias de prevenção. Quem se beneficia economicamente da festa também compartilha a responsabilidade pela segurança de quem participa dela. 

Outro aspecto essencial é o encaminhamento adequado das mulheres que buscam ajuda. Em cidades como São Paulo, Olinda e em municípios do estado do Rio de Janeiro, mulheres têm sido acolhidas e orientadas a acessar a rede local de proteção durante ou após os eventos. O acesso à informação e ao cuidado adequado, no tempo certo, tem sido decisivo para que muitas busquem apoio antes que situações de violência se agravem. 

Garantir segurança para mulheres em eventos populares em Fortaleza não é utopia. É escolha política, planejamento e responsabilidade pública. Protocolos não tiram a liberdade da festa. Garantem que ela seja de todas as pessoas. Dá trabalho, exige continuidade, mas funciona. E depois que funciona, ninguém aceita voltar ao improviso. 

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