Por que Trump quer a Groenlândia
Escrito por
Márcio Ferreira
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Legenda:
Márcio Ferreira é jornalista
Quando o viking Erik Thorvaldsson, conhecido como Erik, o Vermelho, chegou à enorme ilha gelada do Ártico por volta do ano 985, decidiu chamá-la de Grœnland, terra verde, numa tentativa de torná-la atraente a possíveis colonos apesar de seu clima hostil, da ausência de árvores e das longas noites de frio extremo. Mais de um milénio depois, a Groenlândia voltou ao centro do mundo, não por promessas de fertilidade, mas por se transformar num dos territórios mais estratégicos do planeta. O interesse declarado de Donald Trump em anexar a ilha aos Estados Unidos, admitindo fazê-lo por consenso ou pela força, deixou de soar como provocação isolada e passou a ser tratado por Dinamarca e União Europeia como uma ameaça concreta à soberania europeia e à estabilidade internacional.
A Groenlândia ocupa uma posição central no Ártico, região que ganhou enorme importância com o avanço do aquecimento global e o degelo progressivo, que abre novas rotas marítimas entre o Atlântico e o Pacífico, reduzindo distâncias, custos e tempo de navegação. Controlar esse espaço significa influenciar diretamente o comércio global e os equilíbrios de poder nas próximas décadas. Soma-se a isso o fato de o subsolo groenlandês concentrar minerais raros e estratégicos essenciais para a indústria tecnológica, a transição energética e o setor de defesa, num momento em que a disputa entre Estados Unidos, China e Rússia por cadeias de suprimento críticas se intensifica.
Do ponto de vista militar, a ilha já é peça-chave da defesa norte-americana por abrigar a base aérea de Thule, integrada ao sistema de alerta antimísseis dos Estados Unidos. Para Washington, ampliar o controle sobre a Groenlândia significaria reduzir vulnerabilidades no flanco norte e antecipar movimentos de adversários no Ártico. O argumento oficial apresentado por Trump é o da segurança nacional, sustentado pelo discurso de que a região estaria ameaçada por injerências russas e chinesas. Para a Dinamarca e seus parceiros europeus, no entanto, o paradoxo é evidente, já que a principal pressão sobre a soberania de um território europeu passa a vir do interior da própria OTAN.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, advertiu que o momento mais difícil ainda está por vir, enquanto o chefe do governo autónomo da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirmou publicamente que, se tivesse de escolher, a ilha permaneceria ligada à Dinamarca e não aos Estados Unidos. Em Copenhague, autoridades estudam precedentes históricos de expansões territoriais norte-americanas, como Alasca, Louisiana e Ilhas Virgens, e analisam cenários possíveis para o avanço da pressão americana. Ao mesmo tempo, cresce a inquietação política e social diante da imprevisibilidade de Trump e da possibilidade de que a coerção diplomática evolua para algo mais concreto.
Diante da escalada, a União Europeia começou a reagir de forma mais coordenada. Exercícios militares foram iniciados na Groenlândia em cooperação com a OTAN, e países como França, Alemanha, Noruega, Suécia, Finlândia, Países Baixos e Reino Unido manifestaram disposição para enviar militares à ilha como sinal político de apoio à soberania dinamarquesa. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, evitou um confronto direto com Washington, mas deixou claro que a segurança do Ártico é também uma questão europeia e que a Groenlândia integra o espaço estratégico da Aliança Atlântica.
Esse confronto ocorre num contexto de hiperatividade política de Trump, que abriu frentes simultâneas em diferentes regiões do mundo, da Venezuela ao Oriente Médio, e também dentro dos próprios Estados Unidos, onde decisões unilaterais, operações de segurança e ações contra a imprensa alimentam protestos e tensões institucionais. Analistas europeus observam que a Groenlândia se tornou símbolo de uma doutrina baseada na força, na intimidação e na ideia de que países considerados frágeis podem ser pressionados até ceder.
Enquanto governos calculam riscos e estratégias, a população da Groenlândia acompanha o desenrolar da crise com apreensão. Lideranças inuítes alertam que uma eventual anexação representaria não apenas uma violação de soberania, mas uma ameaça direta à sobrevivência cultural e política do povo local. Mais do que uma disputa territorial, a Groenlândia tornou-se o retrato de um mundo em transição, no qual o Ártico deixa de ser periferia gelada e passa a ocupar o centro da geopolítica global, revelando um cenário em que alianças tradicionais são testadas e antigas certezas deixam de valer.
Márcio Ferreira é jornalista