Palavras cruzadas
A criação de Wynne contagiou milhões de pessoas, que logo passaram a se entreter com o preenchimento de cada jogo
Vem de muito tempo o hábito, praticado por muitas pessoas, das mais diversas idades, de comprar revistas de palavras cruzadas. Essa maravilhosa invenção, tão recomendada pelos médicos, como os neurologistas, em especial, surgiu da criatividade do jornalista britânico Arthur Wynne (1871-1945). Nascido em Liverpool, a mesma cidade que geraria, várias décadas depois, o fenômeno da beatlemania, Wynne criou esse importante passatempo. Transferindo-se tempos depois para os Estados Unidos, ele inicialmente atuou nos jornais Pittsburgh Press e New York World. Neste segundo jornal, já extinto, foi incumbido, por seu editor, de criar um novo exercício mental, para uma seção denominada “Diversão”.
Surgia aí, em 1923, a prática das palavras cruzadas, que viraram uma espécie de mania nacional. Basta dizer que, já na década de 20 do século passado, 60% dos passageiros que viajavam de trem ocupavam suas horas em trânsito preenchendo os esquemas elaborados por Wynne. No Brasil, foi o jornal A Noite que, em 1925, os publicou, pela primeira vez. E, 27 anos depois, em 1952, surgiria a revista Coquetel, das Edições de Ouro (Ediouro), a primeira editora do gênero no país. Ainda hoje, a maioria dos jornais norte-americanos impressos as publica.
Wynne foi, pois, o primeiro cruciverbalista, como é definida a pessoa que cria e elabora aqueles jogos. No desempenho desse mister, ele, pioneiramente, imaginava os enigmas, escolhia os temas atinentes a cada jogo e preenchia as grades que elaborava com as palavras cuja inserção desejava realizar. E hoje sua atividade é levada adiante por outros admiradores do gênero que lhe dão continuidade.
A criação de Wynne contagiou milhões de pessoas, que logo passaram a se entreter com o preenchimento de cada jogo. Os praticantes, aqueles que se dedicam ao sadio preenchimento de cada esquema de palavras, são denominados cruzadistas. E o exercício desses jogos é indicado, pelos médicos, para as pessoas de todas as idades, especialmente os idosos, nestes tempos em que doenças neurológicas como o Mal de Alzheimer provocam o desligamento gradual das funções cerebrais, comprometendo a memória e outras funções associadas ao intelecto.
O invento de Arthur Wynne já ultrapassou seu primeiro centenário e permanece vivo, atraindo a atenção de milhares de pessoas no Brasil e no mundo. Sem dúvida, as palavras cruzadas contribuem para o contínuo exercício do cérebro, assim como a prática da leitura. Ambas as atividades são essenciais para que os indivíduos possam manter-se saudáveis também sob o ponto de vista mental e intelectual. Apesar do avanço tecnológico e das redes sociais, a invenção de Wynne resiste à passagem do tempo. E, para ele, registro esta singela homenagem.