Eleições e os riscos da intolerância política
É ano de eleições no Brasil e, como de costume, teremos um período de intensos debates públicos. A pluralidade de ideias, quando exercida de forma saudável, é um dos pilares da democracia. No entanto, o que se observa com preocupação no cenário eleitoral, há alguns anos, é a intensificação de uma atmosfera de intolerância política que ultrapassa o campo do debate de ideias e passa a contaminar as relações sociais, familiares e institucionais.
Essa intolerância tem se estruturado, sobretudo, em um embate radicalizado entre os campos ideológicos de “direita” e “esquerda”. Em vez de divergências programáticas ou disputas legítimas de projetos de país, ganha espaço a lógica da deslegitimação do outro. O adversário político deixa de representar uma visão diferente e passa a ser tratado como inimigo, ameaça moral ou social, alguém a ser silenciado ou excluído do convívio democrático.
A disseminação de informações falsas ou distorcidas, especialmente nas redes sociais, contribui para o acirramento dos ânimos e para a construção de narrativas simplificadas e maniqueístas. Somo a isso a fragilização da confiança nas instituições e a instrumentalização de temas sensíveis (como segurança, direitos sociais e valores morais) para mobilizar afetos negativos, como o ódio e a intolerância.
As consequências são profundas e preocupantes. No plano individual, cresce o número de conflitos interpessoais, rompimentos familiares e episódios de violência verbal e simbólica motivados por posicionamentos políticos. No plano coletivo, há um enfraquecimento do diálogo social, da capacidade de construção de consensos mínimos e do respeito à diversidade de opiniões, elementos essenciais para a vida democrática.
Quando a lógica do “nós contra eles” se impõe, as decisões públicas tendem a ser tomadas não com base no interesse coletivo, mas na exclusão ou no revanchismo. As políticas públicas e o respeito aos direitos fundamentais, especialmente de grupos vulnerabilizados, são afetados.
Entendo que o futuro do nosso cenário político depende do quão capazes seremos de reconhecer que a democracia não se sustenta sem pluralismo e diálogo. Precisamos resgatar a compreensão de que direitos, liberdades e garantias constitucionais não pertencem a um espectro ideológico específico, mas são patrimônio de toda a sociedade.
Alfredo Homsi é vice-presidente da Associação das Defensoras e dos Defensores Públicos do Estado do Ceará (ADPEC)