De olho nos números: O mercado de Renda fixa para 2026

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Giuseppe Moro producaodiario@svm.com.br
Giuseppe Moro é economista
Legenda: Giuseppe Moro é economista

O mercado de renda fixa entra em 2026 com um misto de otimismo e cautela. Depois de um 2025 marcado por máximas históricas na bolsa, inflação convergindo para o limite superior da meta e expectativas econômicas relativamente estabilizadas, o investidor brasileiro volta seus olhos para um cenário que combina juros elevados, prêmio real robusto e um ano eleitoral, sempre decisivo para os rumos do país. Nesse contexto, a renda fixa segue extremamente atrativa, sobretudo porque o Brasil ocupa as primeiras posições do ranking global de juros reais, com uma taxa estimada de 9,74% ao ano, muito acima de economias emergentes como México (3,54%), África do Sul (3,31%) ou Indonésia (2,41%), segundo levantamento do Ranking Mundial de Juros Reais, realizado em parceria com a MoneYou e Lev Intelligence. Embora esse diferencial pareça vantajoso em um primeiro momento, ele reflete questões estruturais delicadas que precisam ser consideradas com atenção.

Com a Selic mantida em 15%, a combinação de juros altos, inflação moderada e prêmios de risco elevados torna os títulos pós-fixados e os indexados ao IPCA os mais buscados no mercado local. Entretanto, há um fator crítico que deve pautar a tomada de decisão: a fragilidade fiscal do país. O Brasil encerrou 2025 com uma dívida pública próxima de 78% do PIB, totalizando cerca de R$ 9,75 trilhões, de acordo com o Banco Central. 

Há quase quatro anos, essa relação estava em 71%, evidenciando um avanço de sete pontos percentuais em pouco tempo. Além disso, o Tesouro Nacional revela que o custo médio da dívida, dos últimos 12 meses, já ultrapassa 11,90% ao ano, patamar que torna o país extremamente sensível a qualquer alteração na curva de juros e amplifica potenciais episódios de volatilidade. 

Em casos de ciclos eleitorais, essa vulnerabilidade costuma funcionar como um catalisador de riscos, pressionando juros longos, dólar e expectativas inflacionárias, além de inibir a entrada de capital estrangeiro e reduzir a liquidez do mercado doméstico.

Diante desse panorama, a renda fixa brasileira continua sendo uma das melhores oportunidades globais em termos de retorno real, mas exige atenção redobrada do investidor. Não se trata apenas de aproveitar juros elevados, mas de compreender que eles são consequência direta de incertezas, sobretudo a fiscal. Assim, 2026 deve ser um ano de volatilidade acentuada, no qual disciplina, leitura macroeconômica e estratégia serão determinantes. 

Uma postura prudente envolve privilegiar títulos pós-fixados até que o cenário ganhe maior clareza, podendo investir em títulos indexados ao IPCA com prazos intermediários e evitar prefixados de prazos muito longos. Manter uma parte dos recursos disponíveis para aproveitar janelas de estresse para montar posições mais vantajosas em renda fixa de longo prazo também pode ser uma estratégia interessante para o investidor.

O Brasil deverá continuar pagando prêmio real elevado porque precisa, e enquanto esse quadro persistir, a renda fixa seguirá protagonista. Mas, navegar 2026 exigirá precisão, cautela e consciência de que retornos excepcionais vêm acompanhados de riscos proporcionais, especialmente em um ano em que política, fiscal e macroeconômica estão profundamente entrelaçadas.

Giuseppe Moro é economista

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