Davos revelou por que o Ceará e Caucaia podem ser o “endereço” da nova economia digital

O Estado reúne uma combinação rara de potencial de energia renovável, vocação logística e um importante ativo estratégico subestimado que é a conectividade internacional

Escrito por
Machidovel Trigueiro Filho producaodiario@svm.com.br
Professor da UFC
Legenda: Professor da UFC

Davos costuma ser o lugar onde o futuro é apresentado em frases de efeito. Mas, desta vez, o que se ouviu não foi apenas sobre aplicativos, plataformas ou promessas de “revolução digital”. O recado vindo do palco foi ecoado por Elon Musk e também por Jensen Huang, CEO da NVIDIA de forma mais simples, mas desconcertante. Ali foi dito que a chamada “nuvem” não é uma metáfora inofensiva. Ela é concreto. E, sobretudo, ela é energia. Em outras palavras, a inteligência artificial deixou de ser um assunto restrito ao código e virou um problema e ao mesmo tempo uma oportunidade de infraestrutura pesada e crítica. A IA não mora no ar. Ela mora em edifícios colossais, refrigerados como usinas, alimentados por redes elétricas robustas e conectados por fibras ópticas que precisam ser tão confiáveis quanto uma rodovia, sem surpresas ou acidentes no percurso iluminado.

Musk, com seu senso de urgência característico, apontou o gargalo que ninguém consegue ignorar. Antes de faltar chip, pode faltar energia. A cadeia que sustenta a “inteligência” começa no lugar mais clássico possível que é a tomada da luz. Huang, por sua vez, deu nome ao fenômeno chamando-o de “AI Factories”, ou seja, fábricas de IA. A mensagem desloca a conversa do glamour do software para a economia real, a que vemos que é obra, metal, refrigeração, engenharia elétrica, operação 24/7, energia e segurança, sendo essa última, digital e jurídica.

Se essa é a nova regra do jogo, naturalmente, a geopolítica da tecnologia também muda. A disputa não será apenas por quem cria o melhor modelo, mas por quem oferece o melhor território para ele existir com energia disponível, conectividade (cabos) de baixa latência e espaço para escala. É aqui que o Brasil e, de modo especial, o Ceará, sendo em Fortaleza na Praia do Futuro e na cidade de Caucaia, na ZPE e no PARTEC, entram fortemente nessa conversa. O Estado reúne uma combinação rara de potencial de energia renovável, vocação logística e um importante ativo estratégico subestimado que é a conectividade internacional. Fortaleza consolidou-se como um dos principais pontos de chegada de cabos submarinos do mundo e o maior da América Latina. Isso não é detalhe técnico. É posição no mapa do século XXI. Trata-se de vantagem comparativa inquestionável.

Mas há uma “pegadinha” embutida nessa vantagem. Como o próprio Huang tem defendido, países e regiões precisam construir capacidade de processar dados e gerar valor no seu próprio território. Se os dados apenas tocam o nosso litoral e vão embora para serem processados fora, exportamos valor na forma de demanda e importamos tecnologia como custo.

Nesse contexto, Caucaia aparece como ponto de inflexão. Entre o hub urbano de Fortaleza e o Complexo do Pecém, somos o corredor natural e passagem obrigatória onde a conectividade e a energia se encontram com a escala territorial. É exatamente a geografia que a nova economia procura, por ser perto o suficiente para latência competitiva e ampla o suficiente para grandes plantas. Contudo, para que essa vocação vire prosperidade, precisamos enfrentar um debate decisivo e técnico sobre as contrapartidas estruturantes, notadamente as oferecidas pelo TikTok/Grupo Omini (5 eixos), inicialmente para o Governo do Ceará e posta naquela mesa de negociação mas ainda não aberta para a cidade de Caucaia, talvez a mais atingida por esse tsunami tecnológico que aqui aporta. 

Grandes data centers, como os projetos em implantação e negociação no entorno do Pecém, não podem chegar ao nosso território como “ilhas” voltadas apenas ao tráfego internacional, sem deixar legado de infraestrutura. A lógica de “passagem” precisa ser substituída pela lógica de “integração”, com investimento que opera aqui, mas que também fortalece a capacidade do município, das empresas locais e do ecossistema de inovação. Essa discussão ainda não ocorreu.

Para Caucaia, é fundamental e básico negociar o acesso ao esqueleto digital. Não basta que um backbone de fibra óptica cruze nosso solo ligando a chegada dos cabos submarinos à ZPE, mas é essencial que existam pontos de derivação e distribuição ao longo dessa rota. Estamos falando da instalação de Caixas de Terminação Óptica (CTO), pontos de acesso de rede (NAP — Network Access Point) e hubs de distribuição (FDH — Fiber Distribution Hub), que funcionam como as “saídas” de uma autoestrada digital. Sem esses nós, a riqueza passa por baixo da terra sem poder ser tocada e perde-se o sentido da vinda deles ao nosso território. Mas com eles (que são muito bem vindos), desde que o município possa “iluminar” seus próprios dados e garantir que as empresas que se instalarão na cidade ou até mesmo no future PARTEC (Parque Tecnológico de Caucaia), já instituído por lei, tenham conectividade de ponta para competir globalmente.

O mesmo raciocínio soberano vale para a energia. Hoje, a viabilidade elétrica, a potência, a redundância e a possibilidade de expansão que define o valor do ativo imobiliário e industrial da cidade. Por isso, novas linhas de transmissão e arranjos de fornecimento não podem apenas “ligar” o empreendimento âncora. Eles precisam também contemplar, de forma pactuada com a Prefeitura e com o Governo do Estado, uma parada estratégica em Caucaia, no PARTEC ou em outros locais estudados, mas que tenha subestação dimensionada para absorver não só a demanda do grande projeto, mas também a eventual demanda do Estado e principalmente da cidade que os recebe e de investimentos que naturalmente virão a reboque, como os data centers menores, os chamados Edge Data Centers ou de “borda”, que aproximam a inferência do usuário e espalham valor pelo território com baixíssima latência. 

É esse tipo de infraestrutura compartilhada que, historicamente, transforma vocação em desenvolvimento, como já ocorreu em outros polos industriais do Ceará. Não podemos cometer os erros de outras localidades mundo afora. Sem “switches” de energia e dados acessíveis ao ecossistema, não faz nenhum sentido estratégico aceitar pacotes de contrapartidas desenhados de forma unilateral, sem escuta qualificada das necessidades de quem gere o território e de quem planeja a política pública. 

O “ouro” da próxima década não é só o dado. É a capacidade de mantê-lo operando com segurança, eficiência e energia limpa. Nessa conta, o Ceará pode ser mais do que consumidor de inovação, pode ser também a bateria verde que alimenta a inteligência artificial e, ao mesmo tempo, um território que retém parte relevante do valor dessa economia e desenvolve ciência a exemplo dos laboratórios de IA da UFC (CRIA) e do IFCE, do futuro campus do ITA aqui, além do fundamental Observatório da Industria, na FIEC.

Lá em Davos, Musk provocou dizendo que “é melhor errar sendo otimista do que acertar sendo pessimista”. O Brasil, porém, não precisa de otimismo ingênuo. Precisa de um otimismo executivo que é aquele que vira planejamento urbano, segurança jurídica, qualificação profissional e fibra óptica tratada com a mesma seriedade e exigência de contrapartida estruturante com que tratamos rodovias, ferrovias e portos. Nisso não se deve abrir mão, sob pena de voltarmos ao colonialismo, agora o digital, o de dados. Caucaia não será apenas um repositório de passagem de dados, mas a cidade do futuro e da inovação e estamos preparados e bem atentos para todos os movimentos digitais, para o bem do Ceará. 

Se a IA é a nova eletricidade, a pergunta de 2026 é: quem vai construir a infraestrutura para a tecnologia morar? O Ceará tem as chaves na mão. Caucaia tem a geografia e a ambição institucional. O próximo passo é garantir que a nova economia tenha, aqui, um endereço muito bem-vindo e não apenas uma passagem.

Machidovel Trigueiro Filho, PhD, Secretário de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico de Caucaia; Vice-Diretor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC); Professor de Direito Digital e Direito Econômico; Coordenador do CRIA – Centro de Referência em Inteligência Artificial da UFC; Presidente da Comissão de Data Centers e Cidades Inteligentes da OAB-CE; Pós-Doutor pela USP; Professor Visitante na FIU/EUA; Professor Pesquisador em Stanford/EUA. Eleito “Empreendedor Digital do Ano no Brasil” pela Associação Brasileira de Startups e pela Startup Brasil pelo desenvolvimento do aplicativo “mememória”.

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