Celular no mudo mudou a escola?
Na rede municipal do Rio de Janeiro, onde o uso de celulares foi proibido desde 2024, os alunos apresentaram, em média, ganhos de aprendizagem de 25,7% em Matemática e 13,5% em Língua Portuguesa
Escrito por
Davi Marreiro
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Legenda:
Consultor pedagógico
Será que o silêncio das telas ensina mais do que o barulho das notificações? Os primeiros efeitos das restrições ao uso de celulares nas escolas já permitem uma análise menos intuitiva e mais sustentada por evidências? Uma pesquisa nacional da Equidade.info, realizada a pedido da Frente Parlamentar Mista da Educação, oferece um ponto de partida para essa reflexão. Segundo o estudo, 77% dos gestores e 65% dos professores relatam maior concentração nas atividades pedagógicas, além de melhora no rendimento escolar e redução de conflitos virtuais, como brigas online e práticas de perseguição entre estudantes.
Esses efeitos também são observados em redes que adotaram a restrição de forma antecipada. Na rede municipal do Rio de Janeiro, onde o uso de celulares foi proibido desde 2024, os alunos apresentaram, em média, ganhos de aprendizagem de 25,7% em Matemática e 13,5% em Língua Portuguesa. Ainda assim, os dados pedem mais leitura cuidadosa do que conclusões apressadas.
Confundir correlação com causalidade empobrece a análise e desloca o debate para a restrição em si, quando a questão central deveria ser outra: quando discutiremos, de forma séria, o ensino do uso consciente, crítico e pedagógico dessa tecnologia? Reduzir o barulho da rua não resolve os problemas de uma casa com rachaduras. Retirar o celular de uma sala superlotada, com poucos recursos além do professor e do quadro, produz efeitos muito distintos de aplicar a mesma medida em ambientes equipados tecnologias educacionais, atividades de cultura maker, robótica e itinerários formativos. Não há, portanto, como supor um efeito homogêneo: o impacto varia conforme a rede, a escola, a gestão e o contexto social.
Tampouco é razoável imaginar adesão total às regras. Dados da pesquisa TIC Educação indicam que, entre agosto de 2024 e março de 2025, o uso de celulares caiu nas redes municipais (de 32% para 20%) e nas privadas (de 64% para 46%), evidenciando a complexidade do cenário. Retirar o celular da sala de aula não é, por si só, a solução, mas também não é o problema central. Estamos, no máximo, diminuindo o barulho da rua.