Cartas dinamarquesas

A queda na entrega de correspondências atinge outros países, como a Alemanha, a Grécia e o Reino Unido

Escrito por
Gilson Barbosa producaodiario@svm.com.br
Jornalista
Legenda: Jornalista

Surpreso, vejo na Internet a notícia de que os Correios da Dinamarca não mais entregarão cartas. Fato, aliás, muito triste, imagino, para os dinamarqueses que ainda escrevem. E creio que muitos lá praticam, prazerosamente, aquele saudável costume. O serviço postal dinamarquês, o PostNord, decidiu acabar com a entrega após 400 anos de sua utilização, por muitas e sucessivas gerações.

A justificativa para a decisão é a de que houve uma queda abrupta no uso, da ordem de 90%, levando a principal operadora do país a encerrar por completo a entrega de cartas, desde o último dia útil de 2025. O anúncio foi gradualmente precedido pela retirada das tradicionais caixas de correio vermelhas, até então comumente presentes nas ruas, o que já chamava a atenção da população.

A PostNord, controlada pelos governos da Dinamarca e da Suécia, doravante passará a entregar apenas encomendas no território dinamarquês. Porém, na Suécia, a distribuição de cartas continuará normalmente. Em comunicado por e-mail, um diretor da PostNord Dinamarca alegou que menos de 5% da população ainda recebem comunicações em papel, não mais dependendo de cartas físicas como antes.

Apesar do fato, que entristece os praticantes da correspondência tradicional, estes ainda poderão enviar e receber suas cartas por uma empresa privada, a Dao. Segundo a União Postal Universal (UPU), agência da ONU sediada na Suíça e responsável pela regulação postal no mundo inteiro, o caso dinamarquês parece ser o primeiro em que a operadora historicamente designada para o serviço deixa de executá-lo.

A queda na entrega de correspondências atinge outros países, como a Alemanha, a Grécia e o Reino Unido. No ano passado, de um total de 4.600 funcionários, a PostNord demitiu 1.500 na Dinamarca. Com essas mudanças, tende também a desaparecer a figura do carteiro, que naturalmente conhece o trajeto diário de sua atividade e as pessoas destinatárias das correspondências, com as quais se encontra eventualmente no dia a dia.

Como tanta gente, ainda gosto de escrever, de receber e enviar cartas. Desde jovem, costumava aguardar, em casa, a passagem do carteiro, na ânsia de receber novas cartas em resposta às que escrevia. Havia certa poesia nisto e vejo que – sinal dos tempos! - essas coisas vão se perdendo em meio à insensibilidade da tecnologia. E aproveito para homenagear todos os carteiros brasileiros, pela recente passagem de seu dia, 25 de janeiro. Torço para que continuem a entregar cartas ainda por muito tempo aos que, como eu, resistem às (nem sempre boas) transformações da modernidade.

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