A guerra invisível do século XXI
Por décadas, guerras foram associadas a tanques, soldados e disputas territoriais. Hoje, os conflitos mais relevantes ocorrem de forma menos visível, contínua e estrutural. Eles atravessam cabos submarinos, infraestruturas de nuvem, cadeias de semicondutores, sistemas de energia, dados e algoritmos. A tecnologia deixou de ser apenas um vetor de eficiência para se tornar um instrumento central de poder nas disputas globais.
Uma guerra invisível? Talvez. O que não significa silenciosa no sentido de ausência de impacto. Pelo contrário. O domínio tecnológico, concentrado em poucos países e grandes corporações, produz efeitos profundos sem confrontos explícitos. Decisões tomadas a milhares de quilômetros podem interromper serviços essenciais, paralisar empresas, influenciar eleições, moldar fluxos de informação e redefinir vantagens econômicas de forma assimétrica.
Ciberataques a governos, hospitais, bancos e empresas já fazem parte de uma lógica permanente de conflito. Mas o campo de batalha digital vai além do ataque direto. Inclui dependência de infraestruturas críticas, concentração de plataformas, controle de dados, cadeias globais frágeis e o uso crescente de inteligência artificial como amplificador de riscos, da automação de ataques à tomada de decisões estratégicas baseada em sistemas opacos e fora do controle das organizações.
Ainda assim, muitas empresas tratam esse cenário como um problema técnico, restrito à área de TI. Esse é um erro estratégico. Segurança, resiliência e soberania tecnológica não são mais temas operacionais. São decisões de negócio. Assim como fluxo de caixa, governança e estratégia de crescimento, a capacidade de resistir a falhas sistêmicas, choques geopolíticos, sanções, conflitos híbridos e interrupções tecnológicas passou a definir quem atravessa crises e quem fica pelo caminho.
Empresas excessivamente dependentes de um único fornecedor de nuvem, de uma única região geográfica, de modelos de IA que não compreendem ou de dados mal governados estão vulneráveis a disputas políticas, mudanças regulatórias, conflitos entre Estados e à concentração de poder tecnológico em atores que não respondem aos seus interesses.
Fica claro que resiliência é um ativo invisível e valioso. Arquiteturas bem desenhadas, gestão ativa de riscos, diversidade tecnológica e cultura de segurança sustentam valor no longo prazo. Entramos em uma era em que tecnologia, economia e geopolítica são inseparáveis. Preparar-se é estratégia.
Um exemplo concreto dessa guerra invisível foi a crise global de semicondutores a partir de 2020. Sem confronto militar, decisões tecnológicas e políticas redefiniram poder econômico e soberania. É assim que a guerra do século XXI acontece: silenciosa no método, estrutural no impacto.
Arthur Frota é empreendedor