A arquitetura perdeu a alma e as casas diminuiram
Houve um tempo em que caminhar por uma rua era quase uma aula de história e estética. As casas tinham identidade, personalidade e intenção. Eram construídas para durar, para abrigar famílias grandes, histórias longas e gerações inteiras. Havia janelas desenhadas com cuidado, fachadas pensadas para dialogar com a cidade, varandas generosas onde a vida acontecia sem pressa. Não por acaso, muitas dessas construções atravessaram décadas e hoje são protegidas não apenas por lei, mas pela memória coletiva.
No Brasil de ontem, casa era projeto de vida. Tinha cinco, seis quartos, sala ampla, copa separada, cozinha espaçosa, quintal, varanda e alpendre. Havia espaço para o silêncio e para o barulho, para o convívio e para o descanso. A arquitetura tinha alma porque havia tempo, zelo e, sobretudo, profissionais que pensavam o morar como algo maior do que simplesmente empilhar paredes.
Hoje, o cenário mudou drasticamente. As cidades se enchem de habitações que parecem caixas empilhadas, com telhados improvisados, fachadas genéricas e nenhuma intenção estética. São construções sem brilho, sem identidade, sem memória futura. Em muitos casos, sequer passam pelas mãos de um arquiteto ou engenheiro. O que deveria ser abrigo virou produto. O que deveria ser casa virou metragem vendável.
Um estudo recente aponta que, nos Estados Unidos, as casas estão ficando menores ano após ano. Adaptando essa realidade ao Brasil, o fenômeno é ainda mais agressivo. Aqui, a redução não é apenas estatística, é cultural. Onde antes uma casa popular tinha facilmente 120 ou 150 metros quadrados, hoje se entrega algo com 50, 45 ou menos. E não para por aí. A tendência aponta para unidades cada vez mais compactas, chamadas de embriões, pensadas para crescer que quase nunca crescem.
Nos prédios, o encolhimento é ainda mais evidente. Surgem os lofts de um único cômodo, onde sala, quarto e cozinha dividem o mesmo espaço, separados apenas pela imaginação do morador. Um banheiro completa o conjunto. Viver vira um exercício de adaptação constante. Dormir, comer, trabalhar e descansar no mesmo ambiente passa a ser tratado como modernidade, quando na verdade é apenas necessidade disfarçada de tendência.
É claro que há fatores econômicos por trás disso. O preço da terra, o custo da construção, a especulação imobiliária e a renda comprimida empurram o brasileiro para espaços cada vez menores. Mas há também uma perda simbólica que quase ninguém discute. Ao reduzir a casa, reduz-se também a experiência de morar. Reduz-se o convívio, o silêncio, a privacidade e até a possibilidade de imaginar o futuro naquele espaço.
A casa deixou de ser pensada para o longo prazo. Não se constrói mais imaginando filhos, netos ou envelhecimento. Constrói-se para caber no orçamento do mês e atender ao anúncio imobiliário. O morar virou transação. A arquitetura virou custo. O resultado são cidades mais densas, mais cinzas e emocionalmente mais apertadas.
Não se trata de romantizar o passado nem ignorar as transformações inevitáveis do mundo urbano. Mas é impossível não perceber que, ao aceitar casas cada vez menores e sem alma, estamos normalizando uma vida mais restrita, mais silenciosa e menos humana. O problema não é o tamanho em si, mas a ausência de intenção, de cuidado e de projeto.