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Mais da metade dos estudantes com Fies no Ceará está inadimplente; dívidas chegam a R$ 1,2 bilhão

Débitos poderão ser renegociados pelo Desenrola Fies.

Escrito por
Luciano Rodrigues luciano.rodrigues@svm.com.br
Foto que contém estudantes universitários.
Legenda: Inadimplência do Fies no Ceará supera metade dos contratos ativos.
Foto: Ares Soares/Agência Diário.

O Ceará registra atualmente 141,8 mil contratos ativos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Desse total, pouco mais de 74 mil estão inadimplentes há mais de três meses (52,2% do total), com dívidas que somam R$ 1,2 bilhão, segundo dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC).

Todos esses débitos podem ser renegociados por meio do Desenrola Fies, novo programa de renegociação de dívidas do Governo Federal para estudantes com pendências no financiamento estudantil.

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Segundo o MEC, o objetivo da proposta é "reduzir a inadimplência e facilitar a regularização financeira dos estudantes, permitindo que retomem sua situação de crédito".

O Fies é voltado para estudantes de menor renda que queiram ingressar no ensino superior, mas não foram contemplados com bolsas de estudo em instituições privadas. 

Falta de inserção no mercado de trabalho dos recém-formados explica parte do problema, diz especialista

Para a economista e diretora do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef Ceará), Darla Lopes, os números expõem que o desafio é complexo.

"Muitos estudantes se formam, mas não conseguem inserção imediata em vagas que paguem o suficiente para cobrir o custo de vida e as parcelas do financiamento", observa.

Ela acrescenta que o Fies é um empréstimo sem garantia real, a exemplo do que ocorre nos financiamentos de imóveis e veículos.

"O bem é o conhecimento. Se o diploma não gerar renda, não há como o antigo aluno devolver o diploma para quitar a dívida", diz. 
Darla Lopes
Economista e diretora do Ibef Ceará

A alta inadimplência no financiamento estudantil, além da oscilação nas ocupações no mercado de trabalho, decorre também da priorização de outras dívidas por parte do ex-aluno.

"Nos momentos de crise, as famílias priorizam contas de sobrevivência: água, luz, aluguel, alimentação. O Fies acaba ficando no final da fila de prioridades. O longo prazo do compromisso financeiro acaba se estendendo por muitos anos, atravessando diferentes ciclos econômicos e da vida de cada indivíduo e do País", avalia Darla.

Para a especialista, "reverter esse cenário é possível, mas exige uma estratégia de longo prazo que vai além do perdão de dívidas", passando por medidas que efetivamente mantenham o ex-estudante longe da inadimplência do Fies.

"É preciso olhar para a sustentabilidade do modelo. Uma reversão real depende de o Fies ser transformado em um modelo de crédito com pagamento contingente à renda, em que o aluno só paga se e quando tiver renda", pondera.

Além disso, acrescenta, é necessário incentivar cursos estratégicos, o financiamento em áreas com maior demanda e melhorar os salários médios, aumentando a probabilidade de quitação do empréstimo. 

"O foco precisa sair da renegociação e ir para a prevenção, fortalecendo a empregabilidade, com mais parcerias entre o ensino superior e o setor produtivo, garantindo que o aluno se forme com alta taxa de absorção pelo mercado", enfatiza.

Quais as condições para aderir ao Desenrola Fies?

O MEC destaca que a renegociação é destinada a todos os estudantes que tenham dívidas vencidas e não pagas até a data da edição da Medida Provisória (MP) 1.355/2026, na última segunda-feira.

Os descontos variam conforme o perfil socioeconômico do estudante e do tempo de dívida, em três faixas principais:

1) Dívidas vencidas há mais de 90 dias

  • Pagamento à vista: os estudantes que escolherem essa opção para quitar a dívida terão desconto total dos encargos (juros e multa) e redução de até 12% no valor principal da dívida;
  • Parcelamentoquem parcelar a dívida, poderá pagar em até 150 parcelas mensais. Os juros e as multas serão 100% perdoados.

2) Dívidas vencidas há mais de 360 dias (estudantes em geral)

  • Pode pagar toda a dívida com desconto de até 77% do valor total consolidado, incluind o principal.

3) Dívidas vencidas há mais de 360 dias (estudantes inscritos no CadÚnico - em situação de vulnerabilidade social)

  • Pode ter desconto de até 99% do montante consolidado da dívida para quitar todo o valor em aberto. 

A renegociação do Desenrola Fies vai ficar disponível por 90 dias, ou seja, até o início de agosto. Para buscar um acordo, o estudante deve entrar em contato com o banco responsável pelo contrato do financiamento.

O que é o Fies?

O Fies foi criado em 1999, durante o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, e expandido em 2010, no fim da primeira passagem de Luiz Inácio Lula da Silva pela Presidência.

O programa é mantido pelo MEC como um estímulo ao ingresso no ensino superior privado. Quem adere ao Fies recebe uma espécie de empréstimo, que deve ser quitado após a conclusão do curso.

Os requisitos para participar do Fies são:​

  • Ter feito o Enem a partir de 2010;
  • Ter tirado média igual ou superior a 450 pontos;
  • Não ter zerado a redação do Enem;
  • Não ter participado do Enem na condição de treineiro;
  • Ter renda familiar de até 3 salários mínimos por pessoa.

O processo seletivo inclui ainda reserva de metade das vagas para o Fies Social. É uma faixa do programa voltada para estudantes com renda de até meio salário mínimo por pessoa e com inscrição ativa no CadÚnico.

Estudantes pré-selecionados que atendam às regras do programa poderão solicitar a contratação do financiamento integral, cobrindo até 100% dos encargos educacionais. 

Inadimplência no Ceará atinge marca histórica

Dados do Serasa Experian mostram que o percentual de estudantes cearenses inadimplentes com o Fies - 52,2% no total - é bem próximo do total de pessoas no Ceará com algum tipo de inadimplência.

Em março deste ano, o Estado tinha 3,76 milhões de consumidores inadimplentes, o que representa 53,27% da população adulta do Estado.

Ao contrário do Desenrola Fies, que é focado especificamente em toda e qualquer dívida em aberto do financiamento, o Desenrola 2.0, lançado na última segunda-feira (4) pelo Governo Federal, não contempla todas os débitos. Contas como água, luz e telefone ficaram de fora do programa.

Em contrapartida, 48,8% das dívidas em aberto no Ceará podem ser renegociadas pelo programa no Estado, por meio de contato direto com os bancos e instituições financeiras credoras.

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